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Cinema

Crítica | a Arte Rupestre no Brasil, de Madu Gaspar

A arte dos povos originários do Brasil. O post Crítica | A Arte Rupestre no Brasil, de Madu Gaspar apareceu primeiro em Plano Crítico.

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Lançado em 2003, este pequeno e interessante livro de Madu Gaspar para a série Descobrindo o Brasil traz, de maneira introdutória, mas muito sólida, os princípios básicos do estudo da arte rupestre (não apenas no Brasil, ao menos no início do volume, quando são contextualizados os estudos desse tipo de produção na pré-história, em locais que vão da Austrália à França) e como ela foi desenvolvida e é trabalhada, até hoje, em nosso país. Após uma primeira parte inteira focada no entendimento dos estudos desses registros em cavernas, paredões e outras diversas formações geológicas, a autora parte para uma abordagem mais específica sobre a arte rupestre no Brasil, entrando mais precisamente no tema do livro. Ela faz uma abordagem catalográfica bem objetiva e introdutória, primeiro focando nas principais linhas interpretativas e analíticas dessas produções por aqui, desde o Brasil Colônia, trazendo até o traço teórico do padre Francisco Teles, com obra escrita entre 1799 e 1817 e registro de 274 sítios arqueológicos com gravações e pinturas no Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí e Pernambuco.

Gostei muito da forma como a autora trouxe classificações, imagens, fotografias, esquemas e mapas sobre a distribuição das tradições de arte rupestre no Brasil, focando em um modelo bastante sólido de classificação para cada uma dessas tradições indígenas: Amazônica, São Francisco, Planalto, Litorânea, Geométrica, Meridional, Agreste e Nordeste. A autora também faz questão de esclarecer como essas abordagens originárias foram sendo construídas, expondo as linhas, às vezes um tanto arbitrárias, que tomam os estudos desse tema, muitas vezes puxados pelas preferências das equipes responsáveis ou pelos encaminhamentos e hipóteses dos historiadores, arqueólogos ou instituições envolvidos. Mesmo sendo fruto de escolhas pontuais de cada equipe de pesquisa, essa organização dá ao leitor um mapa mental bastante útil, algo que ajuda a não se perder diante de tantas variações de traço, tema e técnica ao longo do livro, bem como as diferentes maneiras de olhar para elas.

Encontramos, no decorrer das páginas, uma boa análise para os materiais utilizados pelos diferentes povos para obtenção de cores, além de uma abordagem de estudos do espaço físico em torno dos sítios, conservação e até mesmo hipóteses de datação. Neste ponto está a única coisa que eu realmente não gostei do livro, que foi o uso do AP (antes do presente), uma marcação de tempo arqueológico para indicar a idade de achados e de arte rupestre com base no ano fixo de 1950, tendo os testes de Carbono-14 e as bombas atômicas como marcos de influência. A autora até explica o uso, mas é terrível ter que ficar fazendo continha para ter uma noção simples de localização no tempo, especialmente num livro introdutório. Utilizar AEC (antes da era comum) ou a.C. (antes de Cristo) numa produção como esta — e devo ser mais chato: em qualquer produção com datações muito antigas, nem que apareça como “tradução” entre parênteses ou em rodapé, após a presença do infame AP — deveria ser a real escolha.

A obra nos faz passar por noções de desenhos rupestres em suas mais distintas composições, considerando as fases de ocupação de um determinado território e, claro, as construções sociais prováveis, além da produção material desses povos. Faz-se até uma relação com outras criações mais conhecidas e estudadas, como os sambaquis e a cerâmica indígena, mostrando as condições em que viviam as populações nativas e as suas fontes de inspiração e ações cotidianas, como mostram os diferentes animais, modelos humanos (alguns até com possíveis representações de mulheres grávidas e homens com pênis ereto), vegetação e, talvez, estrelas, trazendo brevemente à discussão a linha que enxerga certas representações astronômicas em algumas criações.

A Arte Rupestre no Brasil auxilia bem o leitor a se situar no território de nossa arte primitiva. É uma obra objetiva, que pode apresentar termos e caminhos principais (além de boas dicas de leitura) antes de o leitor partir para novas e mais profundas (ou específicas) produções. Não é, contudo, um livro de construção que eu gosto muito, porque sua linha um tanto mais global dá a sensação de incompletude em vários pontos, e eu sei que esta é uma armadilha da proposta de qualquer obra curta e introdutória; não estou colocando a culpa na autora. Eu é que tenho um pouco mais de resistência a essas abordagens com pinceladas demais em coisas que não são exploradas a contento. Eu realmente gostei do livro, mas de maneira um tantinho mais módica do que muita gente poderá gostar.

A Arte Rupestre no Brasil (Brasil, 2003)
Autora: Madu Gaspar
Editora Zahar
94 páginas

Editora ZaharHistóriaHistória do BrasilLiteratura BrasileiraMadu GasparPré-históriaSérie: Descobrindo o Brasil

Fonte: Plano Critico.

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