O presidente do Paraguai, Santiago Peña, anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), em meio a uma grave crise política e financeira provocada pelo colapso do Ueno Bank, instituição privada à qual o mandatário é vinculado. A decisão foi comunicada por meio de um vídeo publicado nas redes sociais, enquanto a Câmara dos Deputados avançava com um processo de impeachment contra o chefe de Estado.
“Tomei a decisão de apresentar minha renúncia à Presidência da República. Faço isso pensando na estabilidade do nosso país, na paz social e na necessidade de preservar nossas instituições públicas”, declarou Peña.
O presidente também pediu desculpas à população e afirmou que sua prioridade é garantir a tranquilidade dos paraguaios que confiaram suas economias ao sistema financeiro.
A renúncia ainda precisa ser analisada pelo Congresso Nacional, responsável por decidir se aceita ou rejeita a saída do mandatário. Caso seja aprovada, o processo de impeachment será interrompido e Peña poderá assumir a condição de senador vitalício, com prerrogativas parlamentares cuja eventual retirada exigiria outro procedimento.
Colapso bancário e suspeitas de irregularidades
A crise teve início após a intervenção e o fechamento do Ueno Bank, que enfrentava problemas de solvência. A suspensão das atividades da instituição deixou correntistas e aposentados sem acesso aos próprios recursos, desencadeando uma onda de indignação e incerteza financeira no país.
O banco concentrava mais de US$ 800 milhões em fundos públicos, incluindo recursos provenientes de instituições estatais. Entre elas está o Instituto de Previdência Social (IPS), responsável pela administração das aposentadorias de grande parte dos trabalhadores paraguaios.
Durante o governo Peña, o Ueno Bank recebeu aportes milionários de entidades públicas, circunstância que ampliou os questionamentos sobre a relação entre o presidente, a instituição financeira e a gestão dos recursos do Estado.
O Ministério Público incluiu Peña nas investigações sobre o caso, que apuram suspeitas de gestão fraudulenta, lesão de confiança e outras irregularidades. Segundo as informações divulgadas, 27 empresários foram formalmente acusados no âmbito da investigação, incluindo o ex-CEO do banco, Miguel Vázquez.
Impeachment e ruptura política
Antes do anúncio da renúncia, a Câmara dos Deputados havia iniciado uma sessão extraordinária para discutir uma acusação apresentada por 35 parlamentares da oposição e dissidentes do oficialismo.
O pedido de impeachment, fundamentado no artigo 225 da Constituição paraguaia, acusava Peña de “grave e sistemático mau desempenho de suas funções” e solicitava sua destituição.
Diante do avanço do processo, o presidente decidiu apresentar sua renúncia antes de uma eventual votação definitiva no Senado.
A crise também expôs tensões dentro do Partido Colorado e do chamado cartismo, corrente política ligada ao ex-presidente Horacio Cartes, que desempenhou papel central na eleição e na sustentação parlamentar de Peña desde sua chegada ao poder, em agosto de 2023.
Segundo as informações divulgadas pela imprensa paraguaia, parlamentares ligados ao cartismo sinalizaram disposição para aceitar a renúncia, o que encerraria o processo de impeachment.
A decisão também tem implicações judiciais. Com a eventual aprovação de sua saída, Peña poderá conservar prerrogativas associadas à condição de senador vitalício, enquanto as investigações sobre o escândalo bancário continuam.
Crise financeira e incerteza política
O fechamento do Ueno Bank provocou uma crise que ultrapassou o sistema financeiro e atingiu diretamente a confiança da população nas instituições públicas.
A impossibilidade de acessar depósitos e recursos previdenciários afetou correntistas, trabalhadores e aposentados, ampliando a pressão sobre o governo.
O episódio também levantou questionamentos sobre a fiscalização bancária, a destinação de recursos públicos e as relações entre o poder político e o setor financeiro.
“A história se encarregará de julgar e colocar em sua justa perspectiva os acontecimentos que hoje nos cabe viver”, afirmou Peña em sua mensagem de despedida. “Peço desculpas ao povo se em algum momento falhei.”
Com a renúncia apresentada e o Congresso responsável por definir seus próximos passos, o Paraguai enfrenta uma crise institucional que combina denúncias de irregularidades financeiras, disputas dentro do oficialismo e crescente desconfiança popular.
A saída de Santiago Peña, caso seja confirmada pelo Legislativo, encerrará antecipadamente um mandato que deveria se estender até agosto de 2028, enquanto permanecem abertas as investigações sobre o colapso do Ueno Bank e o destino dos recursos públicos envolvidos.
Fonte: Mídia Ninja.
