Por Anna Ketleen Alves
Em um campo de várzea, o movimento começa antes de a bola rolar. Enquanto ose jogadores se aquecem e a torcida chega, vendedores organizam seus produtos, fotógrafo procuram o melhor ângulo e comerciantes do entorno se preparam para receber um público maior. O jogo, nesse cenário, não movimenta apenas atleta e torcedores: também cria oportunidade para quem trabalha ao redor dele.
Não existe uma estimativa nacional consolida sobre o tamanho dessa economia. Mas exemplos espalhas pelo país mostram que ela pode alcançar cifras significativas. Em Sorocaba, no interior de São Paulo, mais de 200 clube disputam competições que movimentam cerca de R$ 20 milhões por ano na economia local, segundo número da prefeitura citados pelo ge. São cerca de 800 jogos e mais de 250 mil pessoas ao longo do ano.
O dinheiro, porém, não está concentrado em uma único atividade. Ele se distribui entre comércio, alimentação, uniforme, arbitragem, fotografia, audiovisual, transporte, organização de campeonatos e patrocínios. A várzea cria, assim, uma espécie de cadeia econômico próprio, formada principalmente por pequenos negócio e trabalhadores que atuam dentro ou nos arredores dos campos.
O jogo começa antes do apito
O futebol de várzea nasceu associado a terreno improvisados, áreas operárias e espaços ás margens dos rios, onde trabalhadores e moradores das cidade encontravam lugar para jogar. Em São Paulo, o crescimento urbano reduziu esses espaços e empurrou muito campos para regiões periférico. Mesmo assim, a prática permaneceu como uma das formas mais tradicionais de ocupação esportiva e cultural dos bairro.
O Museu do Futebol, na exposição Vozes da Várzea, trata justamente da relação entre futebol amador, território e economia. A instituição destaca que a várzea movimenta as economias locais e gera renda para comerciantes, organizadores de campeonatos, produtores de camisa e flâmula e até jogadores, dependendo da estrutura de cada equipe.
A organização também pode alcançar uma dimensão próximo à de competições profissionais. Há torneios com regulamentos, arbitragem, calendário, premiares e equipes responsáveis pela realização dos jogos. Em São Paulo, a antigo Copa Kaiser chegou a reunir 400 times em duas séries em 2009, mostrando a escala que algumas competições de futebol amador podem alcançar.
Quando o campo vira ponto comercial
Uma das formas mais visáveis dessa economia está nos negócio que surgem ao redor dos jogos. Uma pesquisa realizada no Crato, no Ceará, analisou justamente pessoas que levam barracas e produtos para ose campos durante partidas de futebol amador em busca de renda extra. O estudo identificou que ose campeonatos podem beneficiar moradores da comunidade e vendedores de localidade próximas, transformando ose dias de jogo em oportunidade de comércio.
Em São Paulo, esse movimento também aparece nos estabelecimento que ficam próximo aos campos. Na Vila Nhocuné, zona leste da capital paulista, Rafael Diniz, morador do bairro e presidente da torcida Loucos e Malucos da Vila Nhocuné, abriu uma adega em frente ao campo de várzea em 2023. A ideia surgiu depois da reforma do espaço, quando ele percebeu que o aumento das partidas poderia criar uma oportunidade de negócio para atender jogadores e torcedores. A experiência mostra uma relação de mão dupla: o comércio aproveita o público dos campeonatos, enquanto ose estabelecimento também passam a fazer parte da vida social construída em torno do campo.
Nesse mesmo bairro, a inauguração de uma arena em 2023 também ampliou a estrutura de um clube local. O espaço passou a contar com 14 funcionário, entre as áreas administrativo e operacional, além de trabalhadores do bar do camarote. Em uma competição realizada no local, jovem também trabalham como gandulas e recebem, segundo um dos responsáveis pelo espaço, cerca de R$ 30 por partida. São valores pequenos quando comparados ao futebol profissional, mas que ajudam a demonstrar a lógica da várzea: diferente pessoas podem encontrar no campeonato uma forma de complementar ou construir sua renda.
O comércio também acompanha a torcida
A movimentação não fica restrita aos estabelecimento diretamente ligados ás equipes. Em campeonatos maiores, centenas ou milharós de pessoas se deslocam para assistir aos jogos. Esse público consome comida, bebidas e outros produtos e utiliza serviços do entorno. Em Sorocaba, por exemplo, quase mil pessoas chegaram a acompanhar presencialmente uma partida de futebol amador no Campo do Jair em 2023. Ao longo daquele ano, ose campeonatos da cidade reuniram mais de 250 mil pessoas em aproximadamente 800 partidas.
Em Belo Horizonte, a final da Copa Itatiaia de 2024 levou 13.030 torcedores ao Estádio Independência. O número é significativo para uma competição de futebol amador e mostra que a modalidade não necessariamente significa público pequeno. Quanto maior o público, maior também é o potencial de circulação de dinheiro nos arredores: alimentação, transporte, comércio e serviços passam a fazer parte da experiência de quem vai ao jogo.
A camisa também movimenta dinheiro
A economia da várzea começa antes mesmo de o torcedor chegar ao campo. Uniforme, calções, boné, flâmula e outros produtos personalizados formam um mercado próprio. Uma reportagem da Periferia em Movimento mostra como a existência de centenas de equipes em São Paulo criou demanda para empresas especializas na produção de artigo esportivos para clube periférico.
Nesse mercado, o uniforme não serve apenas para diferenciar ose jogadores. As peças carregam símbolo do bairro, referências cultuais e histórias das próprias comunidades. Por isso, podem ultrapassar a função esportiva e se transformar também em produtos para torcedores.
Há ainda negócio mais específicos. O Museu do Futebol registra o caso de um empreendedor que encontrou na lavagem de uniforme de equipes de várzea uma oportunidade de negócio. A ideia surgiu justamente de uma necessidade dos próprio times: alguém precisava cuidar dos fardamento depois dos jogos. É um exemplo de como necessidade aparentemente pequenas podem criar serviços especializas quando existe uma quantidade grande de equipes consumindo aquele serviço.
A várzea também criou uma profissão atrás das câmera
As redes socais abriram outra frente de trabalho. Fotógrafo, videomaker, narradores e produtores de conteúdo passaram a acompanhar campeonatos e oferecer serviços diretamente aos clube.
Na Zona Norte de São Paulo, Rogério Silva, conhecido como Trilha Favela, transformou a fotografia da várzea em profissão. Segundo reportagem da Veja São Paulo, ele cobrava a partir de R$ 150 por jogo e chegou a montar uma empresa de produção audiovisual para equipes amadoras. Jucinara Lima, a Juh na Várzea, cobrava entre R$ 150 e R$ 250 por partida, dependendo da distância. Antes da pandemia, ela chegava a fotografar três jogos em um único dia.
Ose valores ajudam a dimensionar uma cadeia que multas vezes passa despercebida. Cada partida pode gerar demanda por fotografia, vídeo, edição, transmissão, design e divulgação nas redes, e esse mercado continua crescendo. Em 2025, o canal Barba na Várzea, no interior de São Paulo, já transmitia até 12 partidas em seis cidade, envolvendo mais de 35 profissionais em dias de cobertura. O projeto alcançava mais de 16 município e, para seu criador, a produção de conteúdo havia se tornado a principal fonte de renda. A várzea, portanto, também passou a produzir sua próprio mídia.
Até a arbitragem entra nessa conta
Para existir uma competição organizada, também é preciso pagar quem trabalha para que ela aconteça. Árbitro, auxiliares e profissionais envolvidos na organização fazem parte dessa estrutura.
Um estudo etnográfico realizado em Pelotas (RS) acompanhou ose campeonatos Citadino e Praiano, organizados pela Liga Pelotense de Futebol Amador, durante as edites de 2006 e 2007. A pesquisa, publicada em 2010 na revista Movimento, também analisou o funcionamento da arbitragem nessa competições.
Na época, um árbitro recebia R$ 60 por partida na categoria Titular e R$ 50 nas demais categorias. Segundo o diretor de arbitragem entrevistado pelos pesquisadores, o valor aumentava nas fases eliminatória. O estudo também registra que, para ose árbitro, a atividade representava uma importante fonte de renda, chegando a funcionar como uma segunda profissão.
Ose valores são histórico e não representam quanto um árbitro recebe atualmente. Ainda assim, o caso ajuda a mostrar que a arbitragem não é apenas uma parte da organização esportiva: ela também integra a movimentação econômico dos campeonatos. Ose próprio pesquisadores incluem o pagamento dos árbitro entre ose elementos da “microeconomia” da várzea, ao lado de ingresso, anuidade, multas e outros despesa geradas pelas competições.
Em outros palavras, para a partida acontecer, existe uma cadeia de pessoas trabalhando e sendo remuneradas, antes, durante e depois do apito final.
Quem financia a várzea?
Ao contrário do futebol profissional, que conta com grandes contato de televisão, patrocínios milionário e estruturas empresariais, a várzea costuma depender de uma combinação muito mais pulverizada de recursos. Comerciantes locais, patrocinadores, jogadores, torcedores e ose próprio dirigente podem contribuir para manter uma equipe ou um campeonato.
Um estudo publicado sobre o Parque do Povo, em São Paulo, mostra como clube de várzea historicamente foram sustentado por mensalidade, rifas, bingo e pelo lucro dos bares ligados ás agremiações. A estrutura financeira é muito diferente da de um clube profissional: em vez de uma grande fonte de receita, existe uma rede de pequenas contribuições.
Isso ajuda a explicar por que o comércio local é tão importante para a sobrevivência das equipes. O patrocinador pode ser o dono de um mercado, uma oficina, um bar ou outro pequeno negócio do bairro. Em troca, sua marca aparece na camisa, em uma faixa ou nas redes socais do time. Para o clube, o apoio ajuda a pagar despesa, para o comerciante, é uma forma de associar seu negócio a uma instituição conheci pela comunidade.
Uma economia construída em torno do pertencimento
É impossível separar completamente essa circulação de dinheiro da cultura que mantém a várzea viva. O futebol amador reúne rivalidade entre bairro, orgulho local, amizade e tradição. Muito times atravessam gerações e funcionam como espaços de encontro em regiões onde as opões de lazer são limitadas.
“Quando você pensa nos extremos, numa comunidade onde não existe lazer, o time de várzea acaba sendo importante, porque é a diversão do fim de semana”, afirma o jornalista Lucas Ribeiro, que acompanha o futebol de várzea, em entrevista ao R7.
Esse público fiel ajuda a sustentar a cadeia econômico. São as pessoas que vão ao jogo, compram uma bebida, comem no comércio próximo, compram uma camisa, contratam um fotógrafo ou acompanham uma transmissão. O futebol produz o movimento, mas é o vínculo com o território que faz esse movimento se repetir.
Quando o futebol ocupa o bairro
A dimensão econômico se mistura ainda ás ações socais realizas pelas equipes. Segundo Ribeiro, times de várzea organizam festas em datas comemoravas, distribuem brinquedos e, ao longo do ano, promovem ações como arrecadação de agasalhos e cestas básico.
A Taça das Favelas, organizada pela Central Única das Favelas (CUFA), é outro exemplo dessa capacidade de mobilização. Em Belo Horizonte, a competição reúne comunidades de diferente regiões e possui categorias masculina e feminino. O torneio ajuda a ampliar a visibilidade de atleta das periferia e transforma o futebol em espaço de representação e oportunidade.
Em 2024, a final da Copa Itatiaia também mostrou como uma competição de futebol amador pode mobilizar recursos para além do esporte. Na decisão realizada no Independência, mais de 13 mil pessoas acompanharam a partida.
Esses exemplos não significam que o futebol seja capaz de resolver problema estruturais das comunidades. Mas mostram que ose campeonatos podem criar redes de circulação de pessoas, dinheiro e oportunidade onde já existe uma estrutura comunitária.
A bola como parte de uma economia maior
A várzea opera em uma escala muito diferente do futebol profissional. Não há bilhões em direitos de transmissão nem grandes contato de patrocínio. Sua força econômico está justamente em outra característica: a capacidade de fazer o dinheiro circular perto de onde as pessoas vivem.
Um único jogo pode envolver o pagamento de arbitragem, a contratação de um fotógrafo, a venda de um uniforme, o trabalho de um gandula e o comércio de alimentos. Se a competição cresce, entram também patrocinadores, produtores audiovisual, organizadores, transporte e outros serviços.
Em Sorocaba, essa dinâmica chega a uma escala estiada de R$ 20 milhões por ano. Em outros lutares, ela aparece em valores menores, mas igualmente importantes para quem depende daquele movimento.
Por isso, falar de futebol de várzea também é falar de trabalho e economia local. O campo pode ser de terra, a arquibancada pode ser improvisada, o time pode não ter um contrato milionário, mas, ao redor da bola, existe uma cadeia inteira de pessoas trabalhando e uma economia que nasce do próprio território.
Fonte: Mídia Ninja.
