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Como nasce uma torcida para o futebol feminino?

Às vésperas da Copa de 2027, clubes buscam converter a alta do futebol feminino em torcida permanente nos estádios O post Como nasce uma torcida para o futebol feminino? apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa

Em setembro de 2025, 41.130 pessoas foram à Neo Química Arena para assistir à final do Campeonato Brasileiro Feminino entre Corinthians e Cruzeiro. O número não apenas lotou parte do estádio: foi o maior público de futebol daquele fim de semana, superando partidas do Campeonato Brasileiro masculino disputadas em Maracanã, Allianz Parque e Morumbi. A renda de R$ 1,23 milhão também foi recorde para a modalidade.

Não era a primeira vez que o Corinthians mostrava que existe público para o futebol feminino. As finais de 2023 e 2024 haviam levado 42.566 e 44.529 torcedores à mesma arena. Em 2025, o clube chegou aos cinco maiores públicos da história do futebol feminino brasileiro.

Os números ajudam a responder uma pergunta que durante muito tempo pareceu difícil: existe interesse pelo futebol feminino no Brasil. A questão agora é outra. Como transformar esse interesse em uma relação permanente com os clubes?

A pouco menos de 300 dias da Copa do Mundo Feminina de 2027, que será disputada no Brasil entre 24 de junho e 25 de julho, essa talvez seja uma das principais questões para a modalidade. O Mundial pode levar milhões de pessoas a acompanhar o futebol feminino. O desafio será fazer com que parte delas continue acompanhando quando a competição terminar.

O crescimento já chegou aos números

Foto: Rafael Zocco/Ferroviária

A estrutura do futebol feminino brasileiro mudou rapidamente nos últimos anos. Segundo levantamento da CBF, entre 2021 e 2026 o número de competições nacionais femininas passou de 6 para 9, enquanto a quantidade de clubes envolvidos em torneios adultos e de base subiu de 58 para 79. O número de partidas saltou de 398 para 712, crescimento de 79%.

A entidade também ampliou a distribuição de recursos. Em 2026, a cota de participação do Brasileiro A1 chegou a R$ 720 mil para cada um dos 18 clubes da primeira fase, o dobro do ano anterior. A previsão da CBF é investir mais de R$ 685 milhões nas competições femininas entre 2024 e 2029.

O crescimento aparece também no mercado de jogadoras. Dados divulgados pela Fifa e publicados pela Folha mostram que 1.406 atletas foram transferidas internacionalmente na janela de meio de ano de 2026, alta de 19% em relação ao mesmo período de 2025. O volume financeiro mais que dobrou, passando de US$ 12,3 milhões para US$ 28,6 milhões. O Brasil registrou uma receita recorde de US$ 748 mil com transferências internacionais.

É um futebol maior, com mais competições, dinheiro, atletas e exposição. Mas tamanho não é sinônimo de torcida.

O estádio também precisa aprender a receber

Foto: Guilherme Veiga/Palmeiras

Uma das tentativas de transformar o crescimento em hábito acontece justamente onde a relação entre clube e torcedor costuma ser mais concreta: o estádio.

Em abril de 2026, o Palmeiras levou o clássico contra o Santos pelo Brasileiro Feminino ao Allianz Parque. Os ingressos custavam entre R$ 10 e R$ 20, e o clube preparou uma programação específica para a partida, com experiências de match day, ações com mascotes, atividades para torcedores e benefícios para sócios Avanti.

Não se trata apenas de colocar uma partida feminina em um estádio maior. O clube tenta reproduzir elementos que fazem parte da experiência tradicional de ir ao futebol: comprar ingresso, chegar à arena, participar de atividades, acumular benefícios e transformar o jogo em um programa completo.

A estratégia faz sentido diante de um problema apontado pelo relatório do Observatório Social do Futebol sobre o Brasileiro Feminino de 2025. Na primeira fase da competição, apenas sete dos 16 clubes utilizaram seus estádios principais pelo menos uma vez. O Corinthians concentrava uma parcela desproporcional do público: seus jogos como mandante representaram, em média, 80,77% do público total das rodadas em que atuou em casa.

O relatório também mostra que estádio, sozinho, não resolve o problema. Alguns clubes tiveram médias maiores quando jogaram em estádios alternativos, enquanto outros registraram públicos muito baixos mesmo em estruturas maiores. Há outros fatores envolvidos: localização, divulgação, horário, venda de ingressos e capacidade de mobilização da torcida.

A pergunta, portanto, deixa de ser apenas onde o jogo acontece. É como fazer alguém querer estar lá.

Cada clube procura seu caminho

Foto: Divulgação/Flamengo

O Corinthians é um exemplo de como uma cultura de torcida já consolidada pode incorporar o futebol feminino às suas próprias pautas. Em setembro de 2026, após a classificação para a semifinal do Brasileiro Feminino, torcedores protestaram contra o presidente Osmar Stabile pelo atraso de dois meses nos direitos de imagem das jogadoras, uma dívida de cerca de R$ 1,5 milhão. O pedido por “respeito às Brabas” mostra que, para parte da torcida, a equipe feminina já não é apenas um departamento do clube, mas uma parte do próprio Corinthians que merece cobrança e defesa.

O caso ajuda a entender uma diferença importante: criar público para o futebol feminino não significa apenas convencer alguém a comprar um ingresso. É fazer com que aquele torcedor reconheça a equipe como parte da identidade do clube.

O Flamengo, por sua vez, tem apostado fortemente na formação. Em 2026, o clube avançou em uma parceria com a Prefeitura de Maricá para ampliar oportunidades para meninas e jovens que pretendem seguir carreira no futebol. A iniciativa combina a estrutura de formação do Flamengo com investimentos públicos em infraestrutura esportiva.

A estratégia ajuda a construir jogadoras, mas também pode contribuir para formar futuras torcedoras. Quanto mais cedo uma menina entra em contato com o futebol organizado e com a identidade de um clube, maior é a possibilidade de que aquela relação ultrapasse a prática esportiva.

O próprio Flamengo, porém, mostra que crescimento não significa ausência de contradições. Embora tenha investido mais de R$ 22 milhões no futebol feminino em 2025, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, defende que a prioridade esteja na formação de base e se posiciona contra a ampliação da estrutura do time profissional. A posição revela um dilema para a modalidade: investir na formação é importante, mas consolidar o futebol feminino também exige fortalecer as equipes profissionais e sua relação com a torcida.

É uma questão que outros clubes também terão de enfrentar. Criar torcida exige continuidade. Não basta aproveitar uma boa campanha, um clássico ou uma Copa do Mundo.

A Copa pode ser o começo — ou apenas um intervalo

Foto: Thaís Magalhães/CBF

O Brasil apresentou sua candidatura para sediar a Copa de 2027 justamente em um momento de expansão da modalidade. Na avaliação da Fifa, a proposta brasileira recebeu a maior nota entre as candidaturas, e a estratégia apresentada incluía, entre seus pilares, o desenvolvimento do futebol feminino da base ao alto nível e a conexão com uma nova geração de fãs.

Naquele momento, a candidatura brasileira apresentava números que tentavam demonstrar o potencial do país: 840 mil meninas e mulheres jogavam futebol, enquanto a audiência do Brasileiro A1 havia crescido 225% entre 2022 e 2023. A final de 2023, disputada na Neo Química Arena, havia reunido 42 mil pessoas.

Dois anos depois, alguns daqueles números cresceram. A CBF fala em mais clubes, mais partidas, mais competições e mais investimento. O público das grandes partidas também mostrou que pode ser enorme.

Mas existe uma diferença entre ter grandes públicos e ter uma cultura de torcida.

O Corinthians parece ter avançado mais nesse caminho. Palmeiras tenta aproximar o feminino da experiência de estádio. Flamengo trabalha formação e estrutura. Outros clubes procuram seus próprios modelos.

A Copa de 2027 pode acelerar todos esses processos. Será a primeira edição do Mundial Feminino disputada no Brasil e a primeira realizada na América do Sul. A própria CBF fala em deixar um “legado duradouro” e em produzir uma mudança cultural capaz de enraizar ainda mais o futebol feminino no país.

Só que uma Copa dura um mês. Uma torcida, não. O verdadeiro teste para o futebol feminino brasileiro talvez não esteja apenas na quantidade de pessoas que irão aos estádios, acompanharão a Seleção ou assistirão aos jogos pela televisão em 2027. Estará no que acontecer depois.

Quando as seleções estrangeiras forem embora, quando a taça voltar para o calendário da Fifa e o Mundial deixar de ocupar as manchetes, ainda haverá alguém esperando pelo próximo jogo do clube?

A resposta pode definir se a Copa será apenas o maior evento da história do futebol feminino no Brasil ou o momento em que uma nova geração finalmente aprendeu a chamar essas equipes de suas.

Fonte: Mídia Ninja.

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