Vía El Surti
Na terça-feira, 3 de novembro de 2026, quase 3 milhões de paraguaios — cerca de metade da população — acordaram sem poder acessar seu dinheiro. Às 3h24 da madrugada, o Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou, pela rede social X, o fechamento do Ueno Bank, um banco digital ligado ao presidente Santiago Peña, por falta de solvência. As economias de milhares de famílias estavam depositadas na instituição, assim como US$ 800 milhões em recursos públicos.
No mesmo dia, o Ministério Público emitiu mandados de prisão contra oito dirigentes do banco, a partir de uma denúncia do BCP. O principal investigado é Federico Miguel Vázquez, primeiro vice-presidente do Ueno e fundador e acionista majoritário do Grupo Vázquez — um conglomerado de pelo menos 28 empresas que integrariam um suposto esquema de captação de recursos e fraude bancária.
Na quarta-feira, 4 de novembro, o Ministério Público indiciou 27 dirigentes do grupo, incluindo os oito primeiros investigados, por crimes relacionados a condutas irregulares em situações de crise e administração desleal. À tarde, deputados da oposição apresentaram um pedido de impeachment contra Peña e, nas ruas da capital, a polícia reprimiu manifestantes com balas de borracha, gás lacrimogêneo e caminhões com canhões de água.
Às 10h da manhã de quinta-feira, 5 de novembro, a Câmara dos Deputados iniciou o processo de impeachment para destituir o presidente. Mas, às 13h30, Peña renunciou antes de ser afastado. O Senado tentou aceitar sua renúncia, mas prevaleceu a posição favorável à continuidade do impeachment, que prossegue nesta sexta-feira. Paralelamente, um juiz determinou a prisão preventiva dos oito dirigentes do Ueno.
Na mesma manhã de quinta-feira, senadores da oposição apresentaram uma denúncia contra Peña ao Ministério Público especializado em crimes econômicos, o mesmo que investiga os dirigentes do Ueno Bank.
“Que ele seja indiciado e que seus bens sejam confiscados. O dinheiro que roubaram precisa ser recuperado e usado para pagar as pessoas”, afirmou a senadora oposicionista Esperanza Martínez.
A denúncia também inclui integrantes da diretoria do BCP, como Carlos Carvallo Spalding, que foi dirigente do Ueno Bank antes de assumir a presidência do Banco Central durante o governo Peña.
Se a investigação do Ministério Público comprovar os crimes atribuídos aos dirigentes do Ueno e do Grupo Vázquez, assim como a cumplicidade de Santiago Peña e de integrantes do BCP, o caso poderá ser tão grave ou ainda maior que o do Banco Master, no Brasil, ligado aos Bolsonaro e que afetou quase 2 milhões de brasileiros. Existe, além disso, o temor de um aprofundamento da crise social e econômica, com diferentes consequências a médio e longo prazo.
As manobras que permitiram um esquema de fraude com recursos públicos
O crescimento do Ueno Bank e do Grupo Vázquez foi meteórico. Em menos de cinco anos, a instituição alcançou uma carteira de milhões de clientes. Mas essa expansão contou com o apoio do poder político desde a posse de Santiago Peña como presidente da República, em agosto de 2023. A partir daquele momento, diversas manobras legais e políticas favoreceram o crescimento do grupo econômico.
Manipulação das normas do Instituto de Previdência Social em favor do Ueno Bank. Três meses após a posse de Peña, o jornal ABC Color denunciou que o conselho da instituição previdenciária havia reduzido as exigências para que um banco pudesse receber seus recursos, permitindo que o Ueno se qualificasse. Um ano depois, também foi eliminado o limite patrimonial que o Instituto de Previdência Social (IPS) poderia depositar em uma única instituição financeira.
O Ueno ficou com cerca de US$ 350 milhões do Fundo Comum de Aposentadorias e Pensões, aproximadamente 9% dos recursos destinados aos atuais e futuros aposentados. Agora, com o fechamento do banco, não se sabe qual foi o destino desse dinheiro nem quais mecanismos permitirão recuperá-lo.
Alteração da lei de conflitos de interesses e portas giratórias. No final de 2023, o Congresso enfraqueceu a legislação sobre conflitos de interesses, facilitando a nomeação de ex-dirigentes do Ueno Bank e do Banco Basa — ligado ao ex-presidente Horacio Cartes — para cargos estratégicos na economia, além de favorecer a distribuição de licitações ao Grupo Vázquez, no qual Peña possuía ações.
O próprio Peña é um exemplo do fenômeno conhecido como portas giratórias: foi membro da diretoria do BCP, ministro da Fazenda no governo Cartes, posteriormente diretor do Banco Basa e, finalmente, presidente da República.
O crescimento acelerado do banco. Em novembro de 2021, o Grupo Vázquez adquiriu a Financiera El Comercio, instituição com mais de 40 anos de atuação no mercado. Um mês depois, com a aprovação do BCP, ela passou a se chamar Ueno.
Na época, Carlos Carvallo Spalding era presidente da financeira e Federico Miguel Vázquez ocupava o cargo de CEO. Com a chegada de Peña à Presidência, em 2023, Carvallo Spalding assumiu a presidência do BCP. Em novembro daquele mesmo ano, o Banco Central, já sob seu comando, autorizou o Ueno a operar como banco.
As ações do presidente na Ueno Holding. Em 2019, Peña era acionista da Credicentro, uma empresa de crédito do Grupo Vázquez que, em 2022, passou a se chamar Ueno Holding.
Em 2023, Peña quadruplicou sua participação acionária, chegando a possuir 6 bilhões de guaranis na empresa — aproximadamente US$ 1 milhão pela cotação atual —, segundo publicou o El Surti. Em março de 2025, após sucessivas denúncias na imprensa, o presidente anunciou a venda de suas ações.
Favorecimento em licitações públicas ao Grupo Vázquez. Entre agosto de 2023 e agosto de 2026, o Grupo Vázquez venceu 145 licitações públicas, que somaram aproximadamente US$ 40 milhões.
Em 2024, o El Surti revelou que apenas a ITTI, empresa de tecnologia do grupo, já havia recebido mais contratos públicos do que durante todo o governo anterior. Entre eles estavam o desenvolvimento do sistema de internet banking do Banco Nacional de Fomento e a integração de bases de dados financeiros para o Che Róga Porã, política pública de acesso à moradia.
As consequências da crise recaem sobre milhares de trabalhadores
Milhões de paraguaios sem dinheiro. As economias de 2,9 milhões de paraguaios que mantinham contas no Ueno foram afetadas. Entre eles estão 32 mil aposentados.
O governo determinou a utilização de um fundo garantidor — mecanismo de proteção dos depósitos bancários previsto em lei — para devolver o dinheiro aos correntistas com depósitos de até 75 salários mínimos, aproximadamente US$ 37 mil.
Demissões em massa no Grupo Vázquez e no Ueno Bank. Com o fechamento do banco, o grupo ficou sem capital. Todos os trabalhadores da instituição financeira e das empresas vinculadas recebiam seus salários por meio do Ueno.
Ainda não há consenso sobre o número total de afetados, mas as estimativas variam entre 4 mil e 6 mil trabalhadores. Entre eles estão 200 profissionais da imprensa que perderam seus empregos e apresentaram uma ação coletiva contra o Grupo Vázquez.
Trabalhadores no exterior ficam à deriva. A empresa ITTI, pertencente ao Grupo Vázquez, mantém uma filial na Argentina com aproximadamente 800 trabalhadores contratados pela empresa Kaitel SRL. Eles também não sabem o que acontecerá com seus empregos ou com eventuais indenizações.
Como foi estruturado o sistema que concentrou recursos públicos em um grupo econômico
Entre 2025 e 2026, a diretoria do Ueno autorizou empréstimos milionários a empresas pertencentes ao mesmo grupo econômico que controlava o banco. Os créditos foram concedidos sem garantias e em valores muito superiores à capacidade de pagamento dessas empresas. O dinheiro acabava sendo transferido para outras companhias do Grupo Vázquez.
Para o Ministério Público, a figura central do esquema é Federico Miguel Vázquez, que acumulava as posições de proprietário final do banco, vice-presidente da instituição e controlador das empresas que recebiam os recursos.
O controle do banco passava por uma cadeia de sociedades empresariais. A proprietária direta do Ueno Bank é a U Paraguay S.A., com 91,21% do capital, segundo a agência de classificação de risco FIX.
Por sua vez, a U Paraguay pertence à U Holdings, sociedade constituída pelo Grupo Vázquez em Luxemburgo, 45 dias depois de Santiago Peña assumir a Presidência do país.
Nessa holding europeia, o Grupo Vázquez possuía 86,73% do capital, o banco OTP — maior instituição bancária da Hungria — detinha 9,99%, e o restante pertencia a acionistas minoritários. Francisco Peña, irmão do presidente, tinha ações na sociedade sediada em Luxemburgo.
Com a intervenção, a Justiça determinou bloqueios preventivos de US$ 70 milhões e 1,62 trilhão de guaranis sobre bens dos dirigentes e das empresas U Paraguay, U Holdings e Grupo Vázquez.
Separadamente dessa estrutura está a Ueno Holding, na qual Santiago Peña possuía ações. Entre seus acionistas estavam o Grupo Vázquez, a Ueno Seguros e a ITTI.
No centro do circuito financeiro aparece a ITTI, empresa de tecnologia do grupo. Seus acionistas eram o Grupo Vázquez, a Ueno Seguros e o próprio Ueno Bank, que detinham quase 17% da companhia: aproximadamente 68 bilhões de guaranis, equivalentes a US$ 11 milhões pela cotação atual.
O banco não apenas transferia dinheiro para a ITTI por meio de empréstimos, mas também era sócio da empresa.
A ITTI desempenhava três funções. Primeiro, era proprietária, juntamente com o Grupo Vázquez, de várias empresas que solicitaram empréstimos, desfazendo-se de suas participações pouco antes ou depois da concessão dos créditos. Segundo, era o principal destino dos recursos. Terceiro, era responsável pelo pagamento das dívidas, direta ou indiretamente.
Segundo o Ministério Público, o esquema funcionava de maneira circular. As dívidas não eram pagas com os lucros das empresas devedoras, mas com dinheiro proveniente de outras companhias do mesmo grupo, principalmente da ITTI e das processadoras de pagamentos Red Digital. Em alguns casos, esses recursos vinham de novos limites de crédito concedidos pelo próprio banco.
De acordo com a acusação, o Ueno ocultou do órgão regulador que havia ultrapassado os limites legais de crédito para empresas relacionadas.
Quando a Superintendência de Bancos intensificou a fiscalização, o Ueno vendeu uma carteira de créditos de US$ 74,4 milhões para outra empresa vinculada, a Vinanzas S.A. Essa companhia pagou pela carteira com recursos que, ao serem rastreados, tinham origem, em última instância, no próprio Ueno Bank.
O Ministério Público calcula que ainda restam aproximadamente US$ 167 milhões e 343 bilhões de guaranis em créditos a receber, com poucas possibilidades de recuperação.
Essa situação coloca em risco o dinheiro dos correntistas e os recursos públicos depositados na instituição financeira.
Fonte: Mídia Ninja.
