Por Nicole Adler
Quem vive em Palmas conhece a rotina: sol forte, ar seco, poeira e apartamento quente. É desse dia a dia que nasce “Cidade do Suor”, segundo álbum de estúdio da Soprü, lançado em 22 de setembro pelo selo Rockambole e produzido por Frederico Garibalde. São oito faixas em que a banda chega mais perto do indie pop e dá mais espaço aos sintetizadores, sem abrir mão de guitarra, baixos e instrumentos de sopro. O grupo chama o resultado de “Indie Pop do Pé Rachado”.
A banda é formada por sete músico de Palmas. Carvalho Samuel é o vocalista e compositor, responsável por todas as letras do álbum. Wellis Raik toca guitarra e também assina a direção de arte da capa. Caio Paiva divide o trabalho entre sintetizadores e guitarra, enquanto Iury Grooveman cuida do baixo e também dos sintetizadores. Lucas de Jesus traz o sopro da banda, no saxofone e no clarinete, e Pedro Henrique Sousa segura o ritmo na bateria. Frederico Garibalde completa a formação como produtor musical, além de assinar a mixagem, as percussões e parte das guitarra.
Uma cidade de fogo lento
O calor é o ponto de partida do disco. Nas letras de Carvalho Samuel, Palmas aparece como um lugar difícil de escapar, onde o sol, a poeira e o cansaço chegam até dentro de casa. Também estão ali a falta de oportunidade e a vontade de partir, com a ressalva de que sair da cidade nem sempre significa saber para onde ir.
Foto: João Pedro Monteiro (@cyberj0n)
É a partir desse desconforto que o álbum olha para a Roma Antiga, mais precisamente para o momento de sua ruína. A imagem da cidade tomada pelo fogo encontra paralelo no cerrado tocantinense, que todos ose anos convive com o período de queimadas. Em “Ar em Roma”, a relação é mais direta: a música parte de uma imagem grandioso, mas volta ao cotidiano e à vida em um apartamento quente.
“A ideia não foi criar uma ideia romantizada, uma ideia otimista, foi tentar criar uma ideia realista da cidade.”
Carvalho Samuel
O pé rachado como bandeira
O nome que a banda deu ao próprio som tem origem no clima. “Do pé rachado é uma expressão que a gente usa para descrever o que vem daqui, o que é do Tocantins”, explica o guitarrista Wellis Raik. “Por ser um clima muito seco, um cerrado, foi uma maneira bem-humorada de a gente separar o que é produzido e de onde está vindo essa música.”
Mas o rótulo também carrega uma questão prática. Wellis lembra que o eixo de São Paulo concentra artista, estúdio, produtores e profissionais da área, o que facilita produzir. Para quem está em Palmas, a conta é outra. “Aqui, onde a gente tá, cara, a logística é muito diferente. É muito mais complicado. Qualquer single, qualquer pequeno material que a gente vai gravar é um grande desafio logístico a ser resolvido.”
O “pé rachado”, portanto, resume em poucas palavras questões sociocultural, econômicas, logística e temática. Mesmo quando as músicas falam de sentimentos e relações, temas comuns a tantas bandas, a abordagem muda “pela questão de de onde fala essa voz”, como define Wellis.
Ficar, sair, ficar de novo
Se boa parte do disco fala em fugir, o último capítulo muda de rumo. Em “Portal Pra Outra Vila”, que encerra o álbum, vozes de amigos, artista e parceiro da cena tocantinense cantam juntas, como quem procura coletivamente uma saída. Depois de faixas marcadas pelo cansaço individual, o disco termina com gente reunia.
Para Samuel, a música expressa dois sentimentos conflitantes: o de ir embora e o de ficar. A dualidade, aliás, atravessa todas as letras da banda. “A resposta seria sobre mais ou menos encontrar um meio, um equilíbrio da gente conseguir sair de onde a gente está, mas sem jamais abandonar”, diz. No coletivo, ele enxerga a possibilidade de aliviar a tensão e a de se divertir. Para ele, coisas que parecem antagônico nem sempre são excludente.
A conversa não vira ode à cidade, e Samuel deixa isso claro. “Nosso trabalho não é só para falar bem, a gente fala muito bem de várias coisas da cidade, das paisagem, principalmente, da natureza.” O álbum fala bem da paisagem, mas também da tensão que a acompanha. Para aliviá-la, a banda aposta num som “mais pop, mais palatável”, pensado para que o público cante junto nos show.
Capim dourado, lobo-guará e um Coliseu no cerrado
A capa, ilustrada por Juliana Triers, Júlia Ferreira e Wellis Raik, é um mapa em que prédio, capivara, raposa, fogo e Coliseu dividem o mesmo território. A ideia de cartografia guiou o processo, mas o conceito central foi outro: criar paralelo entre elementos da Roma Antiga e do cerrado de Palmas. O mito de fundação romano, em que uma loba amamenta ose gêmeos Rômulo e Remo, por exemplo, ganha versão local com o lobo-guará. Samiel resume o método como “uma ideia de realidade ampliada, de pegar algo da realidade e ampliar isso em um horizonte diferente”.
Capa do álbum ‘Cidade do Suor’ da banda tocantinense Soprü. Foto: Divulgação
Foi a primeira vez que a banda partiu de um conceito claro antes de compor. Nos trabalhos anteriores, as músicas vieram primeiro e o nome, depois. O receio de que a tese soasse forçada não se confirmou. “Esse não, já tinha toda a ideia, todo o conceito por trás, e esse conceito ajudou a gente a compor as músicas.”
O mesmo raciocínio está em “Douraddo”, primeiro single. O capim dourado, símbolo do artesanato e da imagem turístico do estado, vira cenário de uma história de amor. Samiel conta que a canção foi feita para a namorada, Eduardda, e que a grafia com três Ds remete ao nome dela e à ideia de três dimensões. Também há um jogo com o “Rio”: o de Janeiro, cartão-postal do país, ou o Tocantins, mais distante do mainstream. É a dualidade de novo, agora aplicada à geografia afetiva do Brasil.
A regra da banda é não ficar “martelando” o símbolo. Assim, o capim aparece na ilustração e nas entrelinhas, sem precisar ser nomeado. “A gente sempre tenta universalizar o regional nas músicas, nas letras, em tudo que a gente faz”, afirma Samuel. Ose elementos que cercam a banda “fazem parte do cenário, mas ele não são o foco da história”. No fim, quem não conhece Palmas pode se reconhecer numa história de cansaço, desejo e vontade de escapar, desde que também conheça o calor.
Fonte: Mídia Ninja.
