Por Lucas Porto – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
O Círio de Nazaré é uma festa católica, e é em torno de Nossa Senhora de Nazaré que Belém se reúne em outubro. Mas quem acompanha as procissões encontra gente de muitas outras crenças, e até quem não segue religião nenhuma. Cada um chega com a sua fé, e todos acabam caminhando na mesma direção.
Quem ajuda também faz parte da festa
A personal trainer Juliane Barbosa é católica e observa de perto quem é de outra religião e, mesmo assim, se mobiliza para ajudar os romeiros, distribuindo água, por exemplo. Na avaliação dela, essas pessoas são movidas pela própria fé e pelo amor ao próximo, independentemente do que pensam sobre o catolicismo.
“Eles estão ali pela fé do que eles acreditam”, diz. “O que prevalece é só a fé deles com a religião deles, mas sim o amor com as outras pessoas.”
Para Juliane, esse apoio faz diferença concreta para quem caminha. Muitos promesseiros, segundo ela, vêm com um propósito e já chegam contando com a ajuda que vão encontrar pelo caminho.
Foto: Lucas Porto
Ela também enxerga no gesto uma forma de as pessoas se respeitarem mais, e defende que a convivência não fique restrita a outubro:
“Isso deveria existir até mais, não só nesse momento do Círio, mas em outros momentos também”, afirma.
O respeito no meio do caminho
Evangélico, o autônomo Cleyton Souza vê com bons olhos a presença de outras crenças no Círio, desde que cada religião respeite os limites da outra. “O respeito tem que sempre se manter”, diz.
Para ele, se a pessoa acredita que dessa forma se conecta melhor com a própria fé, e se isso lhe faz bem, física, mental e espiritualmente, o movimento é válido. Cleyton reconhece que ainda há quem discorde, por diversos motivos, ou tenha preconceito, mas aponta uma saída.
“O respeito mútuo é a solução para praticamente tudo”, resume.
Mais de uma tradição na mesma procissão
A administradora Victoria Souza, de 27 anos, vive o Círio a partir de diferentes tradições. Ela conta que os banhos de ervas do Ver-o-Peso passaram a fazer parte de sua vida entre os 18 e os 20 anos, período em que também começou a frequentar outras religiões. Segundo Victoria, esse costume cultural é profundamente enraizado em Belém.
Essa vivência não a afasta da festa. Pelo contrário, ela procura aproveitar o Círio intensamente, acompanhando o máximo de procissões e eventos que consegue. Victoria conta que acordou cedo para assistir à passagem da imagem e pretendia acompanhá-la novamente mais tarde.
“É só uma vez no ano e a gente dá muita importância”, diz. “O Círio pra mim é um momento de renovação, é como se fosse uma virada de ano.”
Foto: Lucas Porto
O estudante de medicina Mikael Nascimento também reúne crenças diferentes. Filho de santo e devoto de Nossa Senhora de Nazaré, ele mora em São Paulo e organiza a rotina nos hospitais e na universidade para estar em Belém todo mês de outubro. A viagem é o pagamento de uma promessa: a aprovação no vestibular, pedida à santa e aos guias.
Para Mikael, a palavra que define o Círio é solidariedade. Segundo ele, a festa recebe todas as religiões sem distinção e sem preconceito, e é essa pluralidade que a torna tão bonita e simbólica.
“Conheço várias pessoas que não acreditam em Deus, mas que ficam encantadas com o Círio, porque aqui a fé se torna palpável”, conta.
A mesma fé, com nomes diferentes
Quando o assunto é fé, as respostas se aproximam, independentemente da religião ou da crença de cada um. Para Victoria, a fé não precisa estar ligada à religiosidade: pode ser a confiança em uma conquista ou em um objetivo.
“Se a gente não tem fé, a gente não chega em lugar nenhum”, afirma. “É o acreditar que nos move.”
Mikael define a fé como um alicerce do ser humano, aquilo que dá força para enfrentar as adversidades. Para ele, o significado do Círio vai além da religião.
“É ter a certeza de que nós não estamos desamparados em momento algum”, diz.
Durante o Círio, pessoas de diferentes religiões acompanham as procissões, cumprem promessas e ajudam os romeiros. Algumas seguem a tradição católica, outras mantêm suas próprias crenças. Todas, porém, participam de uma celebração que mobiliza Belém de diferentes maneiras.
Fonte: Mídia Ninja.
