Por Evelyn Ludovina – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
O clima de Natal é conhecido em diferentes partes do mundo. Quando dezembro chega, vêm com ele o cheiro de rabanada, o panetone recém-aberto, os reencontros familiares e as casas decoradas com guirlandas e presépios. Em Belém, no entanto, esse sentimento começa dois meses antes, em outubro. O Círio de Nazaré, uma das maiores manifestações religiosas do mundo, transforma a capital paraense em um espaço de fé, tradição e confraternização e, para muitos paraenses, representa uma espécie de Natal antecipado.
Embora o segundo domingo de outubro seja a data da grande procissão, a programação do Círio se estende por todo o mês, com celebrações, homenagens e encontros que mobilizam a cidade. Assim como no período natalino, as famílias se preparam para receber parentes, organizar refeições e decorar suas casas. Para Kelly Silveira, católica desde a infância, uma das expressões mais especiais dessa tradição é o pinheiro do Círio, que ela monta há quase dez anos. A árvore reúne elementos que representam a cultura paraense e a devoção a Nossa Senhora de Nazaré, como peças de cera que remetem aos promesseiros, barquinhos de miriti e fitinhas coloridas.
Foto: Evelyn Ludovina
“Uma amiga minha viu uma árvore de Natal decorada assim e, na mesma hora, me disse que era a minha cara. Eu amei a ideia e comecei a ter essa tradição em casa, com itens que são aqui da nossa terra, como as cuias, as fitas, as ceras, os banhos (de cheiro). É o meu olhar do Círio”, conta Kelly.
E, assim como no Natal, a mesa farta também é parte fundamental da celebração. Na casa de Kelly e de milhares de famílias paraenses, o aroma da maniçoba anuncia a chegada do Círio. Pato no tucupi e vatapá também fazem parte do cardápio tradicional, que reúne parentes e amigos em torno da mesa. “Não pode faltar pato no tucupi e maniçoba. O vatapá a gente negocia, mas os outros dois são inegociáveis. E a maniçoba só serve se for feita muita, porque sempre temos que presentear com um pouco”, explica.
A relação com o Círio, entretanto, não se limita à religião. Regina Sueli participa da festividade desde criança e mantém a tradição herdada de seus antepassados. Hoje integrante da Igreja Messiânica Mundial do Brasil, fundada no Japão, ela continua todos os anos a homenagear a imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, mesmo sem ser mais católica praticante.
“Acreditamos que ela toma conta do nosso estado e intercede perante Deus pela proteção divina. Mesmo eu não sendo mais católica praticante, tenho essa manifestação cultural dentro de mim”, afirma.
Foto: Evelyn Ludovina
Para Regina, um dos momentos mais emocionantes é observar a multidão que acompanha a passagem da imagem. Pessoas de diferentes origens, cidades e crenças se reúnem nas ruas de Belém, em uma manifestação coletiva que ultrapassa as diferenças religiosas. “Pessoas de todos os tipos, estados e interiores se unem em uma só oração. Quando ela passa, a gente sente a emoção das pessoas. Eu sinto uma união de todas as religiões e fico extremamente feliz”, relata, com a voz embargada pela emoção.
Assim como o Natal é associado à generosidade e à atenção ao próximo, o Círio também desperta gestos de solidariedade entre os paraenses. Durante a festividade, voluntários distribuem água aos romeiros, oferecem massagens nos pés de quem percorre longas distâncias para homenagear Nossa Senhora e arrecadam alimentos para comunidades em situação de vulnerabilidade. São demonstrações de cuidado que se espalham pelas ruas e reforçam o caráter coletivo da celebração, acompanhada por músicas, orações e pelo tradicional cumprimento “Feliz Círio!”.
“Uma coisa que eu acho fantástica é as pessoas se desejarem ‘Feliz Círio’, assim como a gente deseja Feliz Natal, independentemente do credo. É uma explosão de fraternidade e união”, destaca Kelly, que também é devota de Nossa Senhora de Nazaré.
Para quem vive longe, a chegada de outubro pode despertar saudade, já para quem está em Belém, é tempo de reencontros e de reviver tradições. Kelly e Regina compartilham a sensação de que a cidade se transforma durante a festividade. Para Regina, a experiência está ligada também à própria história na capital paraense.
“Quem mora aqui vibra o ano todo por esse momento. Se eu não morasse aqui, ia sentir falta do nosso Natal, das comidas típicas, da roda-gigante em que eu rezava para chegar o Círio e poder andar quando era criança, dos fogos de artifício… Eu agradeço a Deus por pertencer a essa cidade, que tem uma fé tão forte ligada a Deus”, conta.
É nesse conjunto de lembranças, sabores, encontros e demonstrações de afeto que o Círio ganha um significado que vai além da procissão. Para Kelly, viver essa experiência em Belém é um privilégio que se renova a cada ano.
“A gente tem o privilégio de viver dois ‘natais’. O Natal a gente celebra em qualquer lugar do mundo; o Círio só existe aqui. Só tem um lugar para se viver outubro: Belém do Pará”, afirma.
A ideia de que o Círio é o Natal dos paraenses traduz a maneira como a festividade mobiliza a cidade e aproxima pessoas. Em outubro, Belém se enche de fé, tradição, saudade e solidariedade, reafirmando os laços que unem seus moradores e aqueles que, mesmo longe, esperam o ano inteiro para voltar. Afinal, para muitos paraenses, o Círio não é apenas uma celebração religiosa, é também um reencontro com suas raízes e com tudo aquilo que faz de Belém um lugar para chamar de casa.
Fonte: Mídia Ninja.
