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Christine Valença apresenta o EP “Tempo Arranhado”

Entre o delírio, o deleite e a duração, Christine Valença transforma a vulnerabilidade em poesia em seu novo trabalho O post Christine Valença apresenta o EP “Tempo Arranhado” apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Após construir sua trajetória com uma voz sensível dentro da nova MPB, Christine Valença apresenta “Tempo Arranhado”, um EP que propõe uma travessia por territórios subjetivos, onde memória, desejo, desgaste e permanência coexistem. Mais do que um conjunto de canções, o projeto nasce como uma experiência poética sobre aquilo que nos atravessa, nos marca e permanece mesmo quando não pode ser explicado.

O título do EP parte justamente dessa provocação. Afinal, como “arranhar” algo que não pode ser tocado? Para Christine, “Tempo Arranhado” é uma imagem impossível, quase um paradoxo, capaz de provocar estranhamento. O tempo não pode ser interrompido, manipulado ou controlado e talvez, no máximo, possa ser imaginado como algo que se deixa arranhar. Essa impossibilidade se torna metáfora para marcas invisíveis, experiências que deixam cicatrizes e sentimentos que resistem ao esquecimento.

Ao longo das cinco faixas — “Arranhado”, “Holofotes”, “Meio Riso”, “Pra Lavar a Dor” e “Tabuleiros em Flor” — Christine constrói uma narrativa que não busca oferecer respostas ou uma ideia de cura definitiva. O EP percorre um processo de atravessamento, explorando zonas pouco visitadas da experiência humana, onde sonhos, delírios, desejos, tabus e fragilidades convivem de forma delicada e inquietante.

A artista define o universo do projeto a partir de três pilares: o delírio, o deleite e a duração. Esses elementos aparecem tanto nas letras quanto na construção sonora, conduzindo o ouvinte por atmosferas que transitam entre o concreto e o etéreo, entre o íntimo e o simbólico. As composições exploram imagens arquetípicas e uma escrita profundamente sensorial, na qual as emoções raramente são expressas de maneira direta.

Visualmente, “Tempo Arranhado” também rejeita caminhos óbvios. Não há espaço para representações literais do tempo, como relógios, ponteiros ou ampulhetas. Em vez disso, o EP aposta em texturas desgastadas, elementos melancólicos e uma estética que dialoga com o teatro após o espetáculo: o backstage silencioso, o holofote ainda aceso sobre um palco vazio, o cetim rasgado, os materiais gastos pelo uso e a beleza presente naquilo que resiste ao desgaste.

Cada faixa possui uma identidade imagética própria, traduzida em cores, superfícies e sensações. Do grafite metálico e dos objetos pontiagudos de “Arranhado” ao surrealismo quente de “Tabuleiros em Flor”, passando pelo chumbo, pelo sangue, pelos estilhaços, pela água corrente e pelo cetim rasgado, o EP constrói um universo visual onde a textura tem tanto protagonismo quanto a própria música.

Em “Holofotes”, Christine transforma uma vivência pessoal em reflexão sobre exposição, indiferença e os desafios enfrentados por mulheres na indústria musical. A canção aborda o peso das expectativas constantes e da necessidade permanente de provar competência, força e perfeição, revelando o desgaste emocional provocado por essas estruturas. Ainda assim, a música escolhe iluminar essas feridas em vez de escondê-las.

Já “Meio Riso” mergulha em uma dimensão mais física e sensorial, aproximando pele, toque e desejo, enquanto “Pra Lavar a Dor” aponta para uma delicada tentativa de transformação. O encerramento com “Tabuleiros em Flor” não representa necessariamente uma chegada, mas a continuidade dessa travessia, na qual as marcas permanecem e passam a coexistir com novas possibilidades.

Musicalmente e esteticamente, “Tempo Arranhado” reafirma Christine Valença como uma artista interessada em explorar a complexidade da experiência humana sem recorrer a respostas fáceis. O EP convida o público a habitar os espaços entre luz e sombra, silêncio e ruído, desgaste e permanência, um lugar onde o tempo talvez nunca possa ser tocado, mas certamente pode ser sentido.

Participações e Construção Musical

“Tempo Arranhado” também se destaca pelo encontro de Christine Valença com diferentes gerações e linguagens da música brasileira. Em “Tabuleiros em Flor”, composição de Manduka, expoente do rock nacional, Christine divide a faixa com Belliza Luar, cantora, compositora, violonista e arranjadora que vem se destacando na cena contemporânea da MPB. Em 2025, Belliza lançou seu primeiro álbum autoral, Água e Mãe, e foi vencedora do Prêmio Toca 2023 com a canção “Carnaval de Solidão”.

A faixa “Pra Lavar a Dor” conta com a participação de Ilessi, cantora, compositora e pesquisadora musical com seis álbuns gravados e uma trajetória que já passou por todas as regiões do Brasil, além de apresentações em países como França, Suécia e Inglaterra. Já “Meio Riso” traz composição assinada pelo cantor, compositor e instrumentista Paulo Ohana, em parceria com Monique Lima, ampliando o diálogo do EP com diferentes autores e intérpretes da música brasileira.

A produção musical do projeto é assinada por Elísio Freitas, que também participa dos arranjos e toca baixo. Christine Valença assume os vocais, o teclado e a autoria das faixas em que participa, enquanto Estevan Cipri fica responsável pela bateria e Rafael Paiva, pelas guitarras. Os arranjos vocais são de Bruno Danton, que também assina a mixagem, e a masterização fica por conta de Alexandre Rabaço. O EP foi gravado no Estúdio Frigideira.

Musicalmente, o trabalho se constrói a partir do encontro entre a voz de Christine, uma escrita marcada pela força poética e pela sensorialidade e uma produção que permite que cada faixa desenvolva sua própria atmosfera. O resultado é um EP de sonoridade orgânica e expressiva, no qual instrumentos, vozes e arranjos acompanham as diferentes nuances da travessia proposta por “Tempo Arranhado”.

1. Conceito geral

Pergunta 1: O possível título Tempo Arranhado traz uma sensação de marca, de algo que não passou em branco. Esse “arranhado” é algo que machuca, que deixou cicatriz, ou é a marca do tempo que traz maturidade?

O título, para mim, é mais uma espécie de provocação, um jogo de palavras que pode provocar uma sensação de estranheza. Afinal, o tempo é justamente aquilo que não podemos pegar, não pode ser parado, manipulado. Talvez, em alguma hipótese, no máximo arranhado, mas, mesmo assim, é mais uma imagem estranha do que algo concreto e nítido. Talvez fale de algo que você não pode ter — muito menos fazer. Talvez fale de um forte impedimento, algo abstrato, mas dessa ordem. O mundo contemporâneo, tecnológico, já nos dá muita coisa na nossa mão, e estamos fazendo muito pouco de bom com o que temos. Mas, sim, também diz respeito a alguma parte de mim que se machucou, que se traduz no título e, portanto, não consegue passar batido. Mas não sei se quero adentrar em muitos detalhes.

Como você visualiza esse conceito graficamente?

Jamais gostaria que houvesse algum tipo de referência gráfica ao conceito de tempo em termos de relógios, ponteiros, ampulhetas ou algo muito na cara. Isso seria válido caso já tivéssemos algo pronto e fosse algum tipo de referência subliminar. Na divulgação do EP, eu realmente não acharia interessantes muitas referências LITERAIS nem ao tempo, nem ao ato de arranhar. Inclusive, acho interessantes alguns elementos que fugissem de uma forma inteligente a esses aspectos e trouxessem uma ideia complementar, mas ainda não tenho claro o que seriam esses elementos visuais que trariam essa coerência, sem que fossem forçadamente outra coisa. Provavelmente, esses elementos teriam um aspecto mais melancólico ou suave.

(Algo mais rústico/texturizado ou algo mais melancólico/suave?)

Pergunta 2: O EP parece ter uma narrativa de dualidade. Começamos com “Arranhado” e terminamos (de acordo com a ordem do drive) com “Tabuleiros em Flor”. Você enxerga o EP como uma história de superação/cura? Você entende visualmente que é um projeto que sai da “sombra” e vai para a “luz”?

Acredito que o EP fale mais de um processo, um atravessamento, do que de um processo de cura em si. Não vejo que ele tenha elementos terapêuticos, mas ele fala de alguns aspectos de sonhos — creio que não sejam pesadelos —, mas sonhos um pouco mais sombrios e etéreos. Uma travessia por lugares escondidos, traumáticos, pouco vistos, algo que é um tabu. Mas um tabu mesmo, não um tabu sobre o qual a sociedade goste de falar, talvez.

Vejo o EP como algo que trata de três aspectos importantes da nossa vida humana: o delírio, o deleite e a duração. Todas as faixas acabam tocando nesses assuntos de alguma forma. A poética nessas faixas é muito forte, as letras são desconcertantes, têm lugares meio arquetípicos, mas que tocam em algumas verdades que não podem ser simplesmente faladas tão diretamente.

2. A atmosfera de cada faixa

Pergunta 3: Se você tivesse que dar uma cor (ou uma combinação de cores) e uma textura (ex.: concreto, água, cetim, espelho quebrado) para cada uma dessas faixas, quais seriam?

  • Arranhado: grafite metálico — algum objeto pontiagudo.
  • Holofote: chumbo, cinza-claro cromado e cor de sangue — chão de balada com garrafas quebradas.
  • Meio Riso: carmim terroso — cetim amassado, rasgado.
  • Pra Lavar a Dor: celeste lavado, lavanda — estilhaços e água corrente, pó de vidro.
  • Tabuleiros em Flor: madeira, hortênsias, orquídeas — cores fortes, pintura quente, derretimento, colagem, surrealismo.

Pergunta 4: Em trechos de “Holofote”, você menciona “dobrem suas apostas / máquinas pra calibrar” e fala sobre conversas que não fazem bem e indiferenças. Esse “holofote” simboliza a pressão do olhar do outro, a frieza da indústria ou a sensação de estar exposta em um jogo que você não controla? Como você traduziria essa tensão visualmente (ex.: luzes estouradas, sombras marcadas, estética de câmera de segurança ou algo mais abstrato)?

Acho que fala sobre tudo isso. Com certeza, aborda a questão da indiferença e de jogar a responsabilidade de alguma coisa séria para o outro, essa projeção do erro, da falha, principalmente do mundo masculino, que tem uma dificuldade muito grande em se assumir falho, desprovido de razão.

De fato, é uma canção que fala de uma situação real que vivi, mas que foi, na verdade, a soma justamente dessa indiferença, de um olhar muito cheio de apatia, que começa te rebaixando. Um olhar empobrecido quando uma mulher está começando nessa indústria e precisa passar por uma série de provações, de mostrar que é responsável, mostrar que é capaz, que é linda, radiante, confiante, positiva, aberta a sugestões, isso ou aquilo. Isso cansa, te leva rapidamente a uma estafa mental e emocional e, consequentemente, a uma amargura interior muito grande. Essa música me fez levar uma luz a esse lugar.

Com certeza, não vejo essa música com uma estética de câmera de segurança, mas acredito que brincar com a estética do teatro e dos holofotes, com suas miríades de cores e nuances, seja interessante.

3. Identidade e persona artística

Pergunta 5: Em “Meio Riso”, você cita elementos muito fortes como a lua, a mata fresca, o peixe e o anzol. São palavras extremamente sensoriais, magnéticas e cheias de dualidade. Se fôssemos traduzir essa música em um conceito estético para as suas fotos ou palco, você imagina algo mais noturno e místico (ligado à lua e à mata à noite) ou algo mais carnal, cru e focado no toque e na pele?

A música traz muito da pele e do toque, então iria para uma tradução mais crua.

Pergunta 6: Pensando nos figurinos e na estética visual dos clipes/fotos de divulgação: o seu estilo para a era “Tempo Arranhado” é mais minimalista e cru ou mais dramático e expressivo? Existem referências de moda ou de outros artistas que você quer trazer para esse projeto?

Acredito que podemos trabalhar com aspectos do backstage do teatro, do holofote perdido, essa linha do musical antigo, mas do final do espetáculo, da estafa, do fracasso, do interrompido, do material já se perdendo, se desgastando, do cetim se rasgando, do monólogo dito para poucas pessoas na plateia. Seria, sim, um minimalismo, mas expressivo.

Fonte: Mídia Ninja.

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