Por Vinicius Francisco
Uma carta de cientistas brasileiros em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ultrapassou 15 mil assinaturas. Articulado pela Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) e outras 12 entidades nacionais, o manifesto reúne pesquisadores, professores e estudantes preocupados com o futuro da ciência e da educação no país.
A meta inicial era reunir 10 mil assinaturas, mas a adesão superou as expectativas. Entre os participantes estão 8.604 doutores, 1.971 doutorandos, 1.568 mestres, 1.497 professores e 1.248 mestrandos. USP, UFMG, UFRJ, Unicamp e UFSC aparecem entre as universidades com maior participação.
O texto começa pela história de quem faz ciência no Brasil. Muitos dos pesquisadores estudaram em escolas públicas, receberam bolsas e foram os primeiros de suas famílias a chegar à universidade. Ao lembrar essa trajetória, os autores reconhecem o papel do investimento público na formação de profissionais e na produção de conhecimento.
“Não falamos de cima: falamos de dentro”, afirma a carta, que defende a Constituição de 1988, a liberdade de imprensa, a autonomia universitária, a educação pública e o Sistema Único de Saúde (SUS).
O manifesto também recupera episódios do governo Jair Bolsonaro. Entre eles estão a exoneração do então diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), em 2019, após a controvérsia sobre os dados de desmatamento; os ataques às universidades; e a promoção de medicamentos sem eficácia comprovada durante a pandemia de Covid-19. O texto ainda lembra os questionamentos sem provas à segurança das urnas eletrônicas, que antecederam os ataques de 8 de janeiro de 2023.
A presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Nader, recorda que a desconfiança em relação às vacinas e aos tratamentos científicos teve consequências para a população. Para ela, a experiência da pandemia ajuda a explicar a preocupação dos pesquisadores com uma possível retomada dessas políticas.
O médico e professor Alberto Ramos, da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), também manifestou essa preocupação. Com cinco décadas de atuação profissional, ele afirmou, em vídeo, que teme “voltar a ver crianças morrendo” caso Flávio Bolsonaro reproduza as políticas de saúde do governo de seu pai.
Ramos relembrou a criação do SUS, a ampliação da vacinação e o acesso a medicamentos por meio da Farmácia Popular. Citou a proposta orçamentária apresentada pelo governo Bolsonaro para 2023, que previa reduzir os recursos do programa de aproximadamente R$ 2,5 bilhões para R$ 1 bilhão, um corte de cerca de 60%. Em comparação, o orçamento aprovado para 2025 foi de R$ 4,2 bilhões. O professor mencionou ainda a redução da extrema pobreza, que atingiu 3,5% da população em 2024, segundo o IBGE.
A relação entre política e saúde também foi abordada pelo infectologista Álvaro Furtado da Costa, @dr.alvarocosta, que declarou voto em Lula em uma publicação no Instagram. Médico que atua no cuidado de pessoas vivendo com HIV, ele lembrou que o acesso à prevenção e ao tratamento não depende apenas das descobertas científicas.
“A ciência abriu possibilidades, mas foram as políticas públicas que fizeram a prevenção e o tratamento chegar às pessoas”, afirmou.
Álvaro destacou que a resposta brasileira ao HIV foi construída ao longo de décadas, com a participação de movimentos sociais, profissionais de saúde, pesquisadores e gestores. Para ele, manter esses avanços exige financiamento, fortalecimento do SUS e respeito aos direitos humanos.
O infectologista criticou projetos de extrema direita que, segundo ele, substituem evidências por preconceito e enfraquecem a prevenção. Chamou atenção especialmente para as pessoas que deixam de ser consideradas quando políticas públicas são interrompidas ou perdem prioridade.
“O retrocesso também acontece pelo apagamento de pessoas e de suas necessidades”, alertou.
Ao explicar seu voto, Álvaro pediu que os eleitores observem a trajetória e as propostas dos candidatos, sobretudo seus compromissos com o acesso à saúde e a dignidade da população.
Um post compartilhado por Alvaro Costa | Infectologista (@dr.alvarocosta)
Vinícius Soares, presidente da ANPG, compartilha a preocupação com um possível retorno do bolsonarismo ao governo federal. Ele aponta o risco de novos ataques às universidades, de perseguição a pesquisadores e de enfraquecimento da capacidade científica do país.
“Estamos em uma encruzilhada histórica”, afirmou.
A carta também recorre à história de Canudos, narrada por Euclides da Cunha em Os Sertões, para discutir como discursos autoritários transformam determinados grupos da população em inimigos. Os autores relacionam essa prática à perseguição a professores, indígenas, imigrantes e pessoas pobres, usados como alvos de discursos de ódio.
Outra preocupação é a desigualdade no acesso a direitos. O manifesto questiona as prioridades de um país em que aplicativos de apostas chegam à população antes de serviços básicos de saúde e critica os ataques às cotas raciais nas universidades. Defende ainda investimentos na produção de vacinas, na formação de pesquisadores e no desenvolvimento de tecnologias próprias, especialmente em áreas como inteligência artificial, energia e saúde.
Para Francilene Garcia, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), a eleição envolve questões que ultrapassam o financiamento de universidades e laboratórios. Ela relaciona o resultado das urnas às oportunidades das próximas gerações, à redução das desigualdades e à capacidade do Brasil de produzir conhecimento.
“O Brasil precisa seguir avançando, não retroceder”, afirmou.
Apesar de declarar apoio a Lula, a carta deixa claro que os signatários não abrem mão do direito de cobrar e criticar seu governo. O posicionamento eleitoral, segundo o texto, não significa concordância irrestrita com suas decisões.
O manifesto termina com uma referência ao poeta João Cabral de Melo Neto, autor do verso “um galo sozinho não tece uma manhã”. A mensagem acompanha o convite para que outros profissionais participem da mobilização e levem a discussão sobre ciência, educação e democracia para além das universidades.
A carta segue aberta a novas assinaturas de pesquisadores, professores, estudantes e demais profissionais da educação e da ciência.
Leia a carta na íntegra e acesse o formulário de assinaturas.
Fonte: Mídia Ninja.
