Por Júlia Clarindo
Em um corredor gélido de metrô, Anna é tomada por um delírio de pura Possessão, contorcendo-se grotescamente e expelindo seus fluido em um expurgo de libertação. Elisabeth Sparkle desaba no chão do banheiro após a injeção da Substância fluorescente. O ativador rasga sua carne; ose olhos se dilatam; o corpo é tomado por convulsões violentas. Já Carril, eternamente tida como A Estranha, é anunciada rainha do baile em uma armadilha cruel e tem sangue de porco derramado sobre si, de forma bruta e visceral. Três corpos diferente, uma mesma origem: o abjeto.
Em 1993, ocorreu uma virada na forma de ler essas cenas, quando a pesquisadora australiano Barbara Creed lançou Th Monstrous-Feminine: Film, Feminism, Psychoanalysis. Até então, a crítica feminista discutia o terror falando de vítimas — a que corre, a que grita, a que morre primeiro. Creem perguntou outra coisa: e se o monstro, não a vítima, for o papel reservado à mulher no gênero? Para ela, o corpo por trás da criatura costuma ser feminino, sobretudo materno, reprodutivo, sexual, raramente masculino.
Ela também inverte uma leitura clássica de Freud. Para ele, o pavor que o homem sente em relação à mulher nasce do medo da castração; a mulher é vista como quem tem uma falta. Creem lê o oposto: o terror vem da mulher-castradora, capaz de tomar e anular a masculinidade de quem se aproxima. Não à toa, o mito da vagina dentada aparece em mitologia de diferente contentes, do Extremo Oriente ás lenda urbanas americana.
Para sustentar a ideia da mãe-castradora, Creed recorre a Julia Kristeva e ao conceito de abjeção. Kristeva descreve o tornar-se sujeito como um corte: a criança precisa se separar à força do corpo da mãe para conseguir dizer “eu”. Só que esse pedaço expulso nunca rompe de vez o vínculo com quem o expulsou. Ele fica alternando, meio dentro, meio fora. O medo mais antigo do horror, segundo Creed, não é morrer. É a hipótese de perder novamente ose próprio limites e de dissolver-se naquele não-eu sem forma. A mulher-castradora é o retorno do pedaço de nós mesmo que tivemos de expulsar para virar gente.
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O Xenomorfo de Alien (1979) é o exemplo mais direto. Antes de virar monstro, ele é mãe. Gera vida sozinho, sem pai, sem precisar de mais ninguém. É a mãe arcaico de Creed, a fusão original que o cinema não larga do osso. A bruxa nasce do mesmo medo, só que trocando reprodução por poder: uma mulher com controle demais sobre o próprio corpo e a próprio cabeça, como em A Bruxa (2015). Nenhum desses arquétipo desaparece, porque o terror funciona nesse ciclo: ele convoca o abjeto, mostra ao público e, no fim, manda embora, matando o monstro e fechando de novo a fronteira entre o normal e o monstruoso.
Trinta anos depois, na edição revista de 2023, Creed muda de ângulo e passa a procurar ose filmes em que essa lógica emperra. Em Titane (2021), a protagonista funde metal e carne, mas usa esse corpo impossível como arma, não como maldição a carregar. Já em Ginger Snaps (2000), virar loba não pune ninguém; é apenas um poder que a garota aprende, aos poucos, a dominar. Para Creed, isso é reapropriação. A mulher recupera o próprio corpo abjeto e o volta contra quem sempre o tratou como um monstro.
Nos melodrama hollywoodiano dos anos 1940 e 50, o monstro não precisa nem aparecer na cena: basta a mulher perder a cabeça em casa para se tornar uma ameaça. A loucura faz ali o mesmo trabalho que garras e dentes fazem no terror cru. Polanski leva isso ao limite físico em Repulsa ao Sexo (1965). Mão saem literalmente das paredes para agarrar a protagonista trancada em casa, sozinho com a próprio cabeça. Mudam-se ose cenário, passam-se as década, mas a personagem é sempre a mesma: a mulher cuja subjetividade é tratada, desde a primeira cena, como fonte de instabilidade.
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O caso real de Ed Gein ilustra esse mecanismo de outra forma. O assassino americano inspirou tanto Leatherface, de O Massacre da Serra Elétrica, quanto Norman Bates, de Psicose. Gein tinha uma relação doentio e fundida com a mãe dominador, Augusta. Depois que ela morreu, passou a exumar corpos de mulheres e costurar roupas com a pele delas, numa tentativa literal de vestir a mãe. Ainda assim, o resultado na tela é sempre o mesmo: o monstro, mesmo inspirado em um homem, só aparece quando veste um corpo feminino.
Em 2026, o terror de baixíssimo orçamento Obsessão virou fenômeno mundial ao mostrar Bear, um jovem que usa um artefato esotérico para forçar a amiga Nikki a amá-lo. Parte da crítica comemorou o filme por transformar a incapacidade masculina de aceitar a rejeição no verdadeiro vilão, sem moralismo e sem culpar a vítima. Mas a maioria das resenhas passa batida por um detalhe: quando o desejo se realiza, é a próprio Nikki que se torna uma figura inumano, sem vontade próprio. O filme tenta denunciar o perseguidor e, ao dar forma visual ao horror, recorre novamente ao corpo feminino para materializar o monstro.
Do Xenomorfo de Alien ao Leatherface, a construção se recicla: o vilão declarado pode mudar a cada ano, mas o corpo emprestado ao monstro permanece o mesmo.
Fonte: Mídia Ninja.
