Por Álvaro Amaral e Yasmim Ribeiro – Cobertura Colaborativa Círio de Nazaré 2026
No último dia 9 de outubro, sexta-feira, as ruas de Belém foram ocupadas por manifestações de diferentes naturezas, mas que encontraram no espaço público uma forma de expressão coletiva. Enquanto manifestantes se reuniam na Praça da República em um ato político em defesa da democracia e da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Centro Histórico da capital paraense se preparava para receber o Auto do Círio, cortejo artístico-cultural que integra as celebrações do Círio de Nazaré.
Após o encerramento do trajeto do ato, grande parte dos participantes seguiu em direção à Cidade Velha, onde acontecia o cortejo. O encontro desses fluxos de pessoas aproximou, nas ruas da capital paraense, diferentes formas de participação popular.
Em meio às mobilizações, a manifestação evidencia uma forma de participação coletiva sobre o papel das ruas e a importância de unir forças em momento de grande risco político. Entre expressões artísticas, símbolos de fé e reivindicações políticas, Belém reafirmou o espaço público como lugar de encontro, manifestação e disputa de sentidos.
Ato na Praça da República. Foto: Rayane Ferreira
Durante o ato, o político Paulo Rocha, do Partido dos Trabalhadores (PT), destacou a importância da mobilização popular no cenário político. Sua participação contribuiu para a discussão sobre o papel dos atos públicos na defesa da democracia e no fortalecimento da participação da juventude na política.
“Para a juventude, vocês estão reproduzindo a história da juventude no Brasil. Toda vez que as estruturas da classe dominante ameaçavam a liberdade, ameaçavam a democracia, sempre foi a juventude e os trabalhadores que se rebelaram contra essa escória. Por isso, companheiros e companheiras, juventude, temos que nos rebelar, temos que brigar, contra as injustiças, contra a indignidade, contra o autoritarismo, contra a falta de orçamento para a saúde, para educação, para segurança. Por isso, eu venho aqui, porque eu tenho história também nessa luta”, disse ele em seu discurso.
Paulo Rocha. Foto: Eliete Ramos / Jornalista
E entre as centenas de pessoas que faziam parte da multidão, estava presente a antropóloga Audrei Alencar. Partindo de uma visão em que a mobilização pode ser compreendida a partir de dimensões sociais e coletivas, a entrevistada aborda a importância de estar nas ruas como forma de reivindicação de direitos e participação na vida democrática.
Audrei Alencar fala: “Eu acho que é um momento extremamente grave, em que a democracia está sob risco, e muita gente não se dá conta disso. E aqui a gente tem a oportunidade de mostrar um pouco desse outro ponto de vista pra ver se as pessoas têm uma oportunidade, é um convite para a reflexão. Para que as pessoas possam entender, e quando digo às pessoas estou falando da maioria, que é minoria em direitos, mas não se dá conta disso. Um momento como esse é pra mostrar nossa união, e para além de mostrar, trazer uma reflexão”.
A defesa da democracia também passa pela garantia de direitos e pela proteção dos territórios tradicionais. Essa pauta ganha força na fala de Vanuza Cardoso, liderança do Quilombo do Abacatal, presente no ato, que relaciona a mobilização à resistência dos povos tradicionais, à defesa dos territórios e à manutenção dos direitos conquistados.
“Eu sou quilombola e não abro mão. Eu vou votar no presidente que deu mais demarcação quilombola. Nós estamos aqui em um ato de resistência, nós quilombolas, indígenas, o povo trabalhador e os estudantes. Não há nenhum partido que tenha mais garantias de direitos do que o do presidente Lula. Então, é nosso dever proteger os direitos que alcançamos até hoje. É o recado, nós não vamos aceitar que nossas terras sejam leiloadas, que sejam comercializadas por esse fascista que não tem nada haver com o Pará, com o Brasil e com os povos quilombolas”, destaca Vanuza.
Vanuza Cardozo. Foto: Álvaro Amaral
Os depoimentos destacam diferentes perspectivas sobre a importância da mobilização popular, com ênfase na defesa da democracia, na garantia de direitos e na proteção dos territórios tradicionais. Enquanto o ato político reuniu manifestantes em torno da Praça da República, na Cidade Velha, o Auto do Círio também ocupava as ruas de Belém, levando ao espaço público expressões artísticas e culturais que integram as celebrações do Círio de Nazaré.
Quando a urna encontra a fé
O Auto do Círio é um projeto de extensão da Escola de Teatro e Dança da Universidade Federal do Pará (ETDUFPA) que celebra sua 32ª edição. Todos os anos, o projeto une fé, devoção e cultura popular em um cortejo artístico que passeia por diversas linguagens, incluindo música, dança e performance.
Este ano, a festividade desfilou pelo centro histórico de Belém com o tema “Maria, Salvai e Guardai o nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé”, trazendo a luta pela defesa do patrimônio cultural e sagrado.
Foto: Álvaro Amaral
Kildren Pantoja Rodrigues é socioambientalista e ex-aluno da ETDUFPA, onde cursou cenografia, e veio para o desfile vestido de Ogum, o orixá da guerra e da batalha para as religiões de matriz africana. Ele revela que a beleza da festividade está nesse encontro entre crenças.
“Eu acho que o mais lindo do Auto do Círio é você ter os estudantes da Escola de Teatro e Dança, os artistas de rua, os artistas circenses e outras religiões que não são da Igreja Católica Apostólica Romana, mas que professam a sua fé pela Virgem de Nazaré. Todos vem nessa união, nessa comunhão, pra mostrar a fé por Nossa Senhora através da arte, através do teatro, através da dança e através da música. Então, isso é muito lindo, né, muito humano”, conta.
Kildren Pantoja. Foto: Álvaro Amaral
O cortejo do Auto do Círio saiu da Praça do Carmo após uma missa celebrada na Igreja do Carmo. Segundo informação apurada pelo DOL, a festividade mobilizou cerca de 500 artistas-devotos de Belém e outros municípios do Pará.
Nesta edição, o Auto do Círio prestou homenagem à Dira Paes, atriz e embaixadora do evento, e à professora Zélia Amador de Deus, liderança na luta contra o racismo na Amazônia, que faleceu no dia 8 de setembro deste ano, aos 76 anos.
Zélia Amador de Deus no cortejo. Fotos: @samucaproducoes
Em um período dividido entre fé e eleição, a rua se veste para lutar pelo que nos pertence, seja através da arte, da manifestação, da política ou da cultura. É o que conta o ator Igor Ibiapina, porta-estandarte do “Cordão do Pássaro”, um grupo folclórico e de teatro popular de Abaetetuba.
“A importância de estar aqui, acima de tudo, está na valorização da nossa cultura, da nossa sobrevivência e da nossa identidade em tempos tão difíceis para a nossa cultura, primeiramente pelas eleições, que estão sendo muito debatidas. É impossível não falar de cultura e não falar de política, principalmente dentro do Círio de Nazaré, que é uma festa ecumênica, que engloba política, cultura, e, acima de tudo, fé e religiosidade”.
Imagem Igor Ibiapina. Foto: Álvaro Amaral
“Participar desse evento é de uma importância pra história de Belém, do nosso estado e para a história da cultura amazônica”, finaliza.
Andressa Soares é professora de Educação Física, estudante de Cinema e Audiovisual, e atriz em formação. Ela conta que é preciso entender que participar do Auto do Círio vai além do gesto de vestir uma fantasia, representando um verdadeiro ato político.
“É muito importante a gente estar mostrando aqui a cultura de rua, o movimento popular e o risco disso aqui não existir mais, dependendo do 2º turno. Isso aqui pode simplesmente acabar daqui há dois anos ou daqui pro ano que vem. Então, é bom que as pessoas entendam que aqui não é só se fantasiar, aqui, querendo ou não querendo, também é um ato político. As pessoas têm que se conscientizar disso”.
Para uns, estar presente no evento também significa liberdade. É o caso de Ary Furtado, conhecido pelo nome artístico “Priscilla Drag” há mais de três décadas, mas que este ano decidiu se vestir de Lúcifer, o senhor dos caminhos portador de Luz.
Priscilla Drag e Andressa Soares. Foto: Álvaro Amaral
“O Auto do Círio é uma forma de você mostrar a sua arte, é uma forma de você mostrar aquilo que você sabe. Eu sou drag há 32 anos, mas o Auto é totalmente diferente do trabalho que eu exerço o ano inteiro. Então, aqui você pode ser quem você quiser. Eu não preciso ser uma drag, tanto prova que hoje eu estou com um personagem que muitos interpretam como masculino”, comenta.
De um lado, uma mobilização que encontra espaço para lutar por um lugar melhor. Do outro, uma tradição que une, todos os anos, a cultura popular, abraçando a essência de ser e existir no Pará, e a política dos nossos dias.
Em um momento de ataque à democracia do Brasil, em que a cultura está sob ameaça, tanto o ato de apoio ao presidente Lula quanto o Auto do Círio nos ensinam uma importante lição: a união segue viva, em uma luta não apenas para resistir, mas para existir.
Fonte: Mídia Ninja.
