A memória de Zélia Amador de Deus ganhou as ruas de Belém durante o Auto do Círio 2026. Uma das fundadoras da manifestação cultural, criada em 1993, a professora, artista e ativista do movimento negro foi homenageada em uma ala especial que reuniu familiares e integrantes do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), organização que também ajudou a fundar. Em uma edição dedicada à preservação do patrimônio material e imaterial, o cortejo celebrou o legado de uma mulher cuja trajetória atravessa a arte, a educação e a luta antirracista na Amazônia.
Nascida no quilombo de Mangueira, localizado no município de Salvaterra, na região do Marajó, no Pará, Zélia construiu uma trajetória marcada pelo comprometimento político com a defesa dos direitos da população negra, pelo reconhecimento dos territórios das comunidades quilombolas e pela promoção de uma educação antirracista. Professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), onde exerceu o cargo de vice-reitora e recebeu o título de professora emérita, foi uma das vozes fundamentais para ampliar o debate sobre as relações raciais nos campos acadêmico e educacional.
Sua atuação também ultrapassou os espaços universitários. Intelectual, artista, educadora e ativista, Zélia participou da fundação do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa) e contribuiu para o fortalecimento do movimento negro na Amazônia, tornando-se referência para mulheres negras, artistas e educadoras.
Uma homenagem a quem ajudou a criar o Auto do Círio
Ao falar sobre a importância de Zélia para o Auto do Círio, o professor e diretor de cortejo Ataíde Junior destacou a permanência de seu legado na memória do projeto. “Zélia é uma das fundadoras do Auto do Círio em 1993, então com o encantamento dela esse ano a gente traz uma homenagem bem especial com uma ala no setor específico pra ela que está dentro do cortejo, porque ela era o nosso patrimônio vivo e permanece viva na nossa memória”, afirmou.
A homenagem dialogou com o tema da edição de 2026, “Maria, Salvai e Guardai Nosso Patrimônio Sagrado e Nossa Fé”, que trouxe para o centro do cortejo a valorização do patrimônio material e imaterial de Belém. A proposta reuniu referências à arquitetura histórica da cidade e às práticas culturais que atravessam gerações.
Ao explicar a proposta da edição, Ataíde destacou que a preservação do patrimônio também envolve práticas culturais e conhecimentos transmitidos entre gerações, que mantêm vivos os saberes ancestrais.
Criado como projeto de extensão da Universidade Federal do Pará, o Auto do Círio reúne há mais de três décadas diferentes expressões artísticas e culturais nas ruas de Belém. Sua origem está relacionada à preocupação com a preservação do patrimônio material e imaterial, além de buscar chamar a atenção, de forma crítica, para as questões sociopolíticas e ambientais que atingem a sociedade em suas múltiplas dimensões.
Um legado que atravessa gerações
A influência de Zélia na formação de artistas paraenses também apareceu nos relatos de quem participou do cortejo. Leonardo Verçosa, professor e artista que se apresentou no Auto do Círio, relembrou os ensinamentos da professora durante sua formação acadêmica. “Zélia Amador de Deus foi minha professora de História da Arte, ensinou a gente a gostar da arte, ensinou a gente a ser artista, e nunca pisar em ninguém”, contou.
Ao recordar sua relação com a educadora, Leonardo destacou a importância que ela atribuía à diversidade humana e ao papel transformador da arte. “Ela dizia para a gente, o ser humano é de várias cores, a cor influi em tudo, vocês são os meus ídolos e vão em busca de seus horizontes através da arte.” Para ele, a presença de Zélia permanece nos ensinamentos transmitidos ao longo de sua trajetória. “Para mim ela não morreu, ela foi para uma ancestralidade ensinar os anjos”, afirmou.
Fonte: Mídia Ninja.
