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As redes Sociais estão menos Sociais: e o que isso tem a ver com IA e desinformação?

O avanço da IA e dos algoritmos amplia a desinformação e desafia a qualidade do debate público em tempos eleitorais O post As redes sociais estão menos sociais: e o que isso tem a ver com IA e desinformação? apareceu primeiro em Mídia NINJA.

Por Maria Paula Almada e Rodrigo Carreiro, Diretores-executivos do Aláfia Lab*

A circulação de desinformação, a ampliação de discursos de ódio nas redes e o avanço das plataformas de IA generativa têm exercido um impacto profundo na qualidade do debate público e dos próprios processos eleitorais. E é nas redes sociais que esse fenômeno é mais visível: plataformas como Instagram, TikTok, Kwai e Facebook romperam barreiras e são hoje o principal locus de discussão pública. O problema é que, apesar do que o nome pretende entregar, as redes estão cada vez menos sociais.

Recentemente, a pesquisadora americana Danah Boyd, conhecida por ter sido uma das pioneiras nos estudos sobre redes sociais no mundo, publicou um artigo argumentando que essas plataformas deixaram de ser ambientes majoritariamente de conexão pessoa a pessoa para se tornarem espaços com conexões dominadas por conteúdo gerado por empresas, profissionais e influenciadores. Mas o que isso tem a ver com desinformação e inteligência artificial?

As IAs generativas se tornaram ferramentas perfeitas para esse público produtor de conteúdo. Fáceis de usar, acessíveis, baratas e com alta capacidade de adaptação ao que os algoritmos das redes exigem do ponto de vista do alcance — esses são elementos que ajudam a explicar o sucesso desses serviços. A IA já faz parte da dieta informacional dos brasileiros. Pesquisa do Aláfia Lab mostra que quase 10% da população brasileira já utiliza ferramentas de IA para se informar — um percentual que tende a crescer rapidamente nos próximos anos e que já é maior que o índice de pessoas que mencionam jornais impressos como fonte de informação, de 9,5%.

Quando esse universo se choca com o fenômeno da desinformação em tempos eleitorais, o cenário é desanimador. A desinformação segue amplamente presente no cotidiano informacional da população. Mais da metade dos entrevistados — 55% — afirma encontrar fake news na internet frequentemente ou sempre. E política e eleições aparecem como os temas mais associados à circulação de notícias falsas, mencionados por 43% dos respondentes. Isso significa que os usuários de redes sociais estão cada vez mais consumindo informação por meio de IAs, em ambientes recheados de armadilhas de desinformação, e participando de uma esfera de discussão pública contaminada por esses conteúdos.

De 2025 para cá, houve uma intensificação significativa do uso político da IA generativa, acompanhada pelo aperfeiçoamento acelerado dessas tecnologias. Hoje, em muitos casos, já é extremamente difícil distinguir conteúdos sintéticos de conteúdos reais. O Observatório de IA nas Eleições, desenvolvido pelo Aláfia Lab em parceria com a Data Privacy Brasil, mostra uma tendência de não sinalização do uso de IA nas peças publicadas, a predominância de deepfakes de candidatos, a disseminação de desinformação, a campanha negativa, entre outros usos. É um cenário que borra as fronteiras do que é orgânico e apresenta mais desafios que soluções para os eleitores brasileiros: dos 413 casos de uso de inteligência artificial mapeados entre 1º de janeiro e 15 de agosto de 2026, 80% manipularam imagens e/ou falas de pessoas públicas.

Os espaços sociais são responsáveis pela nossa troca de informações, exposição de opiniões, choque de ideias, conversas, aquisição de informação etc. Ou seja, é onde a opinião pública é formada. Se esses espaços estão, por um lado, perdendo o horizonte social e deixando de ser oportunidades de conversação real, mas, por outro, as pessoas passam cada vez mais horas online, então que tipo de conteúdo elas estão consumindo? Olhar para o modo como as dinâmicas das plataformas são estruturadas — chamando aqui a atenção para o próprio design — pode ser um dos caminhos para respondermos a essa pergunta.

Os regimes de visibilidade dos conteúdos, ou seja, aquilo que será ou não visível (“entregue”) aos usuários, são governados por critérios estabelecidos unilateralmente pelas grandes empresas de tecnologia. São elas que detêm o poder de controlar a esfera pública hoje. O desenho das plataformas, isto é, o modo como o conteúdo é apresentado e a facilidade entre o ato de “visualizar” e o clique em “compartilhar”, estimulam e facilitam a viralização dos mais diversos conteúdos. Soma-se a isso a lógica da segmentação algorítmica, em que as plataformas, por meio de critérios opacos, estabelecem quais conteúdos alcançarão mais pessoas e quais terão seu alcance reduzido.

Toda essa dinâmica, que fomenta a “desordem informacional”, somada ao crescimento das IAs e à profissionalização da geração desse conteúdo, estabelece uma relação direta com o aumento da desinformação — um fenômeno muito mais complexo e nocivo do que o simples espalhamento de notícias mentirosas ou fake news absurdas.

Maria Paula Almada

Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Facom/UFBA). Realizou estágio-doutoral na School of Public Affairs and Administration, Rutgers University (EUA) e estágio de pesquisa no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Atualmente é pesquisadora associada ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

Rodrigo Carreiro

Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela UFBA, mestre pela mesma instituição e especialista em Jornalismo e Convergência Midiática. Atuou durante 10 anos como assessor de comunicação e professor universitário. Atualmente é pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

Fonte: Mídia Ninja.

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