Por Vinicius Francisco
Lideranças Guarani e Kaiowá de Mato Grosso do Sul denunciam ameaças, agressões e possíveis assassinatos após o segundo turno das eleições, realizado no domingo (25). A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) contabilizou mais de 30 denúncias de violência durante o processo eleitoral e acionou órgãos federais para investigar os casos.
Na quinta-feira (29), a casa da rezadeira indígena Ñandesy Roberta, de 90 anos, foi incendiada na aldeia Jaguapiré, em Tacuru (MS). A Apib afirma que o fogo foi criminoso e destruiu também instrumentos sagrados utilizados em rituais Guarani e Kaiowá.
Casa da rezadeira indígena Ñandesy Roberta, de 90 anos, foi destruída por um incêndio na aldeia Jaguapiré, em Tacuru (MS), na quinta-feira (29).
Crédito: Reprodução/Redes sociais
Em Tacuru, mensagens que atribuíam ao voto indígena a vitória de Lula circularam logo após o resultado eleitoral. Em um dos áudios, um homem sugere envenenar a água que abastece comunidades indígenas. O prefeito Rogério Torquetti (PSDB) confirmou que o autor é um servidor municipal, mas contestou que a ameaça fosse dirigida especificamente aos indígenas. O funcionário foi afastado, e o Ministério Público Federal (MPF) deu prazo de 48 horas para a prefeitura prestar esclarecimentos.
Em Coronel Sapucaia, também em Mato Grosso do Sul, há uma denúncia de atropelamento intencional de um indígena. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) relatou à Agência Brasil possíveis assassinatos na região, mas as circunstâncias das mortes e sua eventual relação com as eleições ainda estão sendo investigadas.
Durante uma reunião da Comissão da Amazônia e dos Povos Originários e Tradicionais da Câmara dos Deputados, Sônia Guajajara denunciou as ameaças e criticou a oposição de parlamentares a projetos de proteção dos territórios indígenas.
“Como que a gente pode aceitar que um grupo que não aceita o resultado eleitoral venha ameaçar e matar indígena dentro do próprio território?”, questionou Sônia.
Em nota divulgada em 27 de outubro, os ministérios dos Povos Indígenas, dos Direitos Humanos e da Cidadania e da Igualdade Racial informaram que atuavam em conjunto para pedir a investigação das denúncias. A Funai acionou a Polícia Federal, e o ministro Eloy Terena anunciou uma força-tarefa para reunir as informações recebidas de diferentes estados.
A deputada federal Célia Xakriabá (PSOL-MG) afirmou que a violência contra os povos indígenas não começou com as eleições. Ela relacionou os conflitos à disputa pela terra e ao avanço do marco temporal, além de relatar conversas com a deputada Alice Portugal (PCdoB-BA) para organizar uma comitiva parlamentar aos territórios ameaçados.
“Não existe democracia se os territórios indígenas estiverem sendo violentados. Não existe floresta de pé com sangue indígena no chão”, declarou Célia.
Um post compartilhado por Célia Xakriabá (@celia.xakriaba)
A parlamentar também mencionou a situação dos Maxakali, em Minas Gerais. Entre 7 e 15 de outubro, incêndios destruíram cerca de 65% da terra indígena, no Vale do Mucuri, atingindo roças, nascentes e áreas de vegetação. A destruição foi documentada pela Mongabay Brasil, mas não há confirmação de que os incêndios tenham motivação política.
Parte das denúncias divulgadas nas redes já passou por checagem. Em Naviraí (MS), o MPF descartou motivação política e étnica em um caso apresentado como ataque a indígenas. As imagens eram de um conflito interpessoal e circularam fora de contexto. A Mídia Indígena tem orientado o público a acompanhar fontes ligadas aos territórios e a verificar as informações antes de compartilhá-las.
Na quinta-feira (29), a Apib enviou uma carta ao presidente Lula pedindo proteção imediata às comunidades ameaçadas, investigação dos assassinatos denunciados e a demarcação de 73 terras indígenas que, segundo a entidade, aguardam assinatura presidencial. A articulação, que apoiou a reeleição de Lula, também quer participar das decisões sobre a política indígena no próximo governo.
Fonte: Mídia Ninja.
