Por Nicole Adler
Em meio a uma cena independente que busca se reorganizar para além das estruturas tradicionais, o selo Alterego surge como uma proposta que vai além do lançamento musical e se afirma como um espaço de articulação coletiva. Idealizado por integrantes da banda Quedalivre e por uma rede de profissionais da área, o projeto reúne dezenas de artistas de diferentes regiões do país sob uma lógica colaborativa que aposta na profissionalização de todas as etapas da produção — do som à comunicação.
Esse movimento se materializa também nos novos lançamentos que o selo passa a articular, como o álbum “seres urbanos”, da Quedalivre, que condensa o primeiro ciclo da banda em um registro marcado pela tensão entre shoegaze e metal alternativo, transformando vivência em linguagem sonora. Além disso, há o single “Cabeça”, da Manco Capac, que inaugura uma nova fase do grupo ao aprofundar a psicodelia e o experimentalismo, equilibrando atmosferas etéreas e estruturas mais acessíveis da canção pop.
O papel de um selo na cena independente
Tradicionalmente, o selo musical é entendido como uma estrutura responsável por viabilizar a carreira de artistas, atuando em frentes como produção fonográfica, distribuição, divulgação e gestão de lançamentos. Historicamente ligado às gravadoras, o selo funciona como um intermediário entre o artista e o mercado, organizando processos e ampliando o alcance das obras.
No entanto, na cena independente contemporânea, esse conceito tornou-se mais fluido, com a descentralização dos meios de produção e circulação, e os selos passando a assumir formatos diversos. Assim, eles podem operar desde funções específicas, como comunicação ou booking, até modelos mais amplos, que integram diferentes etapas da cadeia musical sob uma lógica própria.
Em entrevista, Victor Basto, administrador do selo, aponta que essa dificuldade de compreensão é recorrente, especialmente porque cada selo opera a partir de um ecossistema próprio. “Hoje em dia, o selo é uma coisa um pouco confusa, né? Eu acho que todo mundo que é ligado e vê não consegue entender muito bem o que é um selo exatamente, porque cada um faz uma coisa”, afirma o artista. Ao comentar a proposta da Alterego dentro desse cenário, ele completa: “A gente é mais um coletivo no sentido de produção. A gente faz um pouco de tudo, seria um pouco na onda do que as gravadoras maiores fazem, só que mais compacto”.
Dessa forma, um aspecto central da proposta do selo está na tentativa de profissionalizar a cena independente, enfrentando uma lógica ainda muito marcada pela informalidade. A partir de uma atuação coletiva, a iniciativa busca integrar conhecimentos técnicos de diferentes áreas — como produção musical, design e comunicação — para estruturar melhor os projetos e ampliar suas possibilidades de circulação.
“De certa forma, o coletivo vem numa de botar realmente pra frente o que a gente tem como conhecimento técnico em prol das bandas, pra profissionalizar os projetos”.
Victor Basto (Selo Alterego)
Assim, o selo já começa a se consolidar como um ponto de conexão entre diferentes núcleos da cena independente, reunindo mais de 25 bandas espalhadas por diversas regiões do Brasil. Ao articular artistas de estados distintos, desde o eixo carioca até cidades como Florianópolis, a Alterego amplia o alcance dessas produções, favorecendo a circulação e criando uma rede que tem ultrapassado os limites geográficos.
Os ‘seres urbanos’ da Quedalivre
O último lançamento do selo foi o álbum “seres urbanos”, da banda carioca Quedalivre. O disco funciona como um registro do primeiro ciclo do grupo, reunindo composições que surgiram desde os primeiros shows até o amadurecimento da banda após meses de apresentações e experimentações. Com uma sonoridade que transita entre o shoegaze e o metal alternativo, o trabalho constrói uma estética marcada por contrastes, incorporando elementos da vivência urbana como eixo conceitual e sensorial das faixas.
A banda é formada por Lore Naias (guitarra e voz), Victor Basto (guitarra e voz) e João Mendonça (bateria) e vem se consolidando na cena independente a partir de uma abordagem marcada por experimentação e intensidade sonora. Suas composições, em português, atravessam temas cotidianos e existenciais, refletindo um processo criativo coletivo que se desenvolve tanto nos estúdios quanto na vivência de palco, onde o grupo vem ampliando sua presença no circuito underground carioca.

Um dos pontos centrais de seres urbanos está na incorporação da estética DIY como fundamento não apenas de produção, mas de linguagem. O álbum nasce de um processo independente, em que as limitações técnicas se transformam em escolha estética e em afirmação de autonomia criativa.
Como explica Victor Basto, essa lógica parte da recusa de um modelo industrial e da aposta na viabilidade do fazer coletivo: “Seria no sentido de não ser uma coisa industrial. Por exemplo, parte do disco eu produzi aqui em casa, sabe? Com a interface, gravando no computador aqui, e é isso. Então, é sobre ser possível além do núcleo executivo de gravadora e de um patrocínio gigante.”
Dessa forma, fechando esse primeiro ciclo, seres urbanos se apresenta como um trabalho que sintetiza processo, vivência e experimentação sonora da Quedalivre. Com produção conduzida de forma independente por João Mendonça e Victor Basto, o álbum foi produzido ao longo de cerca de seis meses e reúne faixas como “acaso”, “fungo”, “narciso”, “escapismo”, “lado animal” e “EUTANASIA”, entre outras que compõem esse arquivo vivo da trajetória inicial da banda. Entre camadas de guitarras, ruídos e texturas eletrônicas, o disco consolida a identidade do grupo, ao mesmo tempo em que aponta desdobramentos futuros.
Dentro da “Cabeça” da Manco Capac
Formada no Rio de Janeiro, a Manco Capac é uma banda independente que vem se destacando na cena alternativa por desenvolver uma linguagem própria a partir da psicodelia. O grupo — composto por Ricardo, no baixo; João, na guitarra; e Renan, nos efeitos eletrônicos — transita entre o rock experimental, o pop psicodélico e referências da música brasileira e internacional dos anos 60 e 70, construindo uma sonoridade marcada por contrastes entre o melódico e o abstrato, o orgânico e o sintético.
O single “Cabeça”, que chega às plataformas no dia 15 de abril, é um dos próximos lançamentos do selo Alterego. A faixa marca um novo momento criativo do grupo, aprofundando sua pesquisa dentro da psicodelia e da música experimental, ao mesmo tempo em que reafirma uma identidade sonora própria. Combinando arranjos atmosféricos, texturas etéreas e uma abordagem que transita entre o orgânico e o sintético, a banda mantém o diálogo com o universo onírico já presente em seu trabalho anterior.

Como define o integrante João, o single surge como “a representação de um novo momento criativo da banda, indo pra uma direção diferente do EP ‘Bom Jantar’, mais no formato pop de rádio, mas mantendo as influências e personalidade primordiais da Manco Capac”, ainda dentro de um processo em construção “que é algo que ainda estamos descobrindo”. Nesse movimento, o “pop” passa a dialogar com referências mais contemporâneas, como explica Ricardo: “Acho que nessa música o ‘pop’ vem de um lugar mais atual, inspirado em sonoridades mais recentes, anos 2010 pra cá, no hip hop”, sem abandonar o caráter experimental e psicodélico.
Esse movimento também se reflete nas transformações de linguagem que a banda passa a explorar a partir do novo single. Há uma incorporação de novas técnicas e formas de criação, sem abrir mão de um princípio central que guia o projeto desde o início. Como aponta Ricardo, “Acho que na linguagem entram técnicas novas e formas novas de fazer as coisas. Acho que a essência que permanece é a ideia de fazermos o melhor que podemos e aprender algo novo no processo e nos moldar conforme a ele”, indicando um processo criativo aberto e em constante reformulação. Assim, “Cabeça” se apresenta como um primeiro passo dentro de um percurso maior, ainda em desenvolvimento, sugerindo que as mudanças inauguradas agora fazem parte de uma expansão mais ampla das possibilidades sonoras da Manco Capac.
