
Por Guilherme de Souza
Para Adanilo, Oeste Outra Vez é um faroeste brasileiro que explora a complexidade da masculinidade e da violência. Ambientado em um cenário único, o filme acompanha personagens que recorrem à violência para resolver seus conflitos, mas, ao mesmo tempo, a narrativa abre espaço para momentos de humor e até de doçura, criando um contraste interessante com a brutalidade de suas ações.
Na trama, Adanilo interpreta Domingos Brabo, grande companheiro de Antônio (Daniel Porpino). Os dois são matadores de aluguel contratados por Durval (Babu Santana) para resolver uma disputa com Totó (Ângelo Antônio). “Meu personagem exemplifica essa nova geração de homens, que já está se tornando tóxica e agressiva”, comenta Adanilo. “Domingos pode até parecer um pequeno sopro de esperança, mas já está imbuído de ideias perversas e torpes sobre relações.”
As gravações aconteceram no sertão goiano, na região da Chapada dos Veadeiros, o que ajudou a compor a ambientação de um universo masculino em decadência. “É um grande exercício de linguagem, que mistura a estética e os temas do gênero em um contexto nacional. O filme tem uma linguagem muito particular, com atuações nada expansivas, tudo muito seco, monocórdico”, diz. “Tensionar o faroeste, abrasileirar isso, trazer para os nossos temas, nossos sotaques, nossos tons… Acho que esse é um dos grandes trunfos do filme. O Érico Rassi, diretor e roteirista, conseguiu, com sucesso, reunir vários machos tóxicos, inaptos e disfuncionais para uma conversa”, completa.
Para Adanilo, a possibilidade de viver realidades que normalmente não experimentaria é um dos aspectos mais fascinantes do cinema. “Foi tudo muito massa. Estar ali, acampando por três semanas na beira de uma lagoa na Chapada dos Veadeiros, foi uma experiência que jamais teria vivido de outra forma, um desafio que encarei com todo o amor do mundo.”

O cinema brasileiro
Nos últimos anos, o cinema nacional vem explorando gêneros menos convencionais e reafirmando sua capacidade de inovação. De acordo com Adanilo, Oeste Outra Vez faz parte desse movimento. “Estamos vivendo um momento muito bonito, muito forte no cinema, e este filme vem para reforçar a nossa grande capacidade de produção audiovisual”, afirma o ator.
Ele cita outras produções recentes que demonstram essa diversidade e força do cinema nacional. “Recentemente, fiz parte de uma ficção científica, O Último Azul, que esteve em Berlim. Agora temos Oeste Outra Vez, com esse gênero tão distinto, e, no ano passado, tivemos o incrível drama biográfico Ainda Estou Aqui, que fez um enorme sucesso e nos colocou em outro patamar dentro da lógica de mercado imposta pelo Oscar e pelos festivais.”
Adanilo reforça que essa potência do cinema brasileiro também se reflete na produção amazônica, que tem se destacado nos últimos anos. “Temos feito um cinema de muita qualidade na Amazônia. Estamos exportando profissionais, dando conta das nossas existências de uma maneira muito bonita. Mas parece que a gente vive sempre tendo que se provar. Esses filmes estão aí justamente para mostrar que temos qualidade, talento e excelência técnica de sobra”, defende.
O ator também destaca a importância de reconhecer o cinema brasileiro como um setor estratégico. “Precisamos valorizar e entender as dimensões disso. O audiovisual é um espaço onde podemos nos enxergar, nos questionar, ver nossas histórias sendo contadas por nós mesmos.”

Na TV
Marighella (2019) foi o primeiro grande trabalho de Adanilo e um marco inicial na visibilidade de sua arte. Alguns anos depois, já com várias obras no currículo, a novela Renascer (2024) foi mais um salto para sua presença no cenário artístico. “Eu acho que, como em outros momentos, a novela foi uma virada. Cada um desses papéis é uma furada de bolha, um degrau a mais na caminhada”, reflete o ator.
Interpretando Deocleciano na primeira fase da novela, Adanilo sentiu de perto o impacto de um papel na TV aberta. “Óbvio que fazer uma novela das nove, tão importante como Renascer, num papel tão bonito, faz muita diferença. Muita gente assistiu, gostou e se interessou. Nunca tinha feito nada com tanto alcance. É um público imenso, diverso, espalhado por todos os lugares do Brasil”, comenta.
Atualmente, ele encara um novo desafio na TV: a novela das sete Volta por Cima. “É a primeira vez que faço uma novela inteira. São dez meses no ar, outra dinâmica, outra abordagem da linguagem”, explica. Para ele, cada novo trabalho traz aprendizados, mas também um significado especial. “Como pessoa indígena da Amazônia, sinto que cada coisa que faço tem um sentido ainda maior. Ainda há poucas pessoas indígenas nas produções audiovisuais brasileiras, então isso traz uma responsabilidade extra.”

Festivais e novos caminhos para o cinema brasileiro
Contemplado com uma Menção Honrosa no Festival de Cinema de Gramado por sua atuação em Noites Alienígenas (2022), Adanilo também passou por festivais como Cannes e, mais recentemente, Berlim. “Me sinto muito feliz de fazer parte disso e muito agradecido, porque tenho consciência de que isso só é possível graças a outros profissionais indígenas, amazônicos e brasileiros que vieram antes de mim”, comenta.
Ele reconhece que festivais são uma validação importante do trabalho, mas também reflete sobre outras formas de reconhecimento. “Óbvio que esses grandes eventos são uma chancela, mas não pode ser só isso. O que são essas outras lógicas que nos tornam mais independentes como realizadores audiovisuais?”, questiona.
Para Adanilo, o desafio maior é garantir que o cinema chegue ao público certo. “Me interessa muito que a gente consiga dialogar de fato com as pessoas. Como faço para que os filmes que eu faço cheguem ao povo que me interessa? O povo do meu país, do Norte, da Amazônia. As pessoas estão assistindo ao que eu faço? Tudo isso faz parte do mesmo movimento. Ganhar um Oscar, por exemplo, é um grande bônus, mas o que realmente importa é como a gente se prestigia e se assiste.”
Origens e novos projetos
Para Adanilo, a paixão pela atuação surgiu de forma inesperada. Em 2011, estudava Rádio e TV em Manaus, quando um professor sugeriu que ele fizesse um curso de teatro para melhorar sua desenvoltura diante das câmeras. “Eu tinha vontade de ser apresentador de programa jovem de TV, e até então nunca tinha ido ao teatro ver uma peça”, conta.
Foi ao assistir a uma apresentação do grupo Teatro Experimental do SESC (TESC), que satirizava a política e o cotidiano de Manaus, que percebeu um novo universo à sua frente. “Fiquei encantado, porque eu não fazia ideia de que existiam tantos atores profissionais em Manaus”, diz Adanilo.
A transição para o audiovisual veio naturalmente. Em 2014, Adanilo atuou em seu primeiro curta-metragem, seguido por outros em 2015 e 2016. Com esses trabalhos, passou a ser notado fora do Amazonas e se mudou para o Rio de Janeiro. Em 2017, gravou o filme Marighella, dirigido por Wagner Moura.
Além da atuação, Adanilo também se destaca como diretor e roteirista. Após a circulação de seu curta Castanho em festivais, ele já prepara sua próxima obra, A Nova Sensação da Amazônia. Outra aposta para o futuro é Omágua-Kambeba, um longa-metragem que retrata o povo Omágua-Kambeba em três momentos distintos da história. “Os trabalhos que eu crio e realizo sempre vão girar em torno desse universo indígena, amazônico e periférico”, conclui.