Vocês podem achar que estou batendo na mesma tecla. Estou. Mas é absolutamente necessário seguir falando da importância da representatividade de mulheres nos espaços de poder e decisão — ainda mais nestes tempos conturbados, nos quais comprovamos que boa parte dos homens exerce “seus podres poderes” entre brindes, orgias e relações nada republicanas — porque uma sociedade mais justa depende diretamente de quem constrói as suas leis e executa as suas políticas públicas. Então, como não falar dessa relação tão injusta para nós, mulheres, em especial as negras, às vésperas das eleições que definirão o futuro de toda a nação?
No Brasil, a sub-representação de mulheres, mesmo sendo a maioria da população e de eleitoras, nos espaços de poder e decisão não é apenas um desequilíbrio demográfico; é uma falha estrutural que limita a eficácia do Estado. O que torna a eleição de mulheres — não apenas a eleição, mas também a indicação para as vagas do STF e demais estruturas — uma necessidade urgente para a formulação de políticas que alcancem a totalidade da população.
As mulheres, que historicamente são encarregadas do trabalho de cuidado, da gestão do orçamento doméstico e da busca por serviços básicos de saúde e educação, têm contato profundo com a realidade social. Quando essa perspectiva é cruzada com a experiência da mulher negra, que estatisticamente lidera os índices de vulnerabilidade socioeconômica, violência doméstica e precariedade no emprego, o conhecimento das lacunas do Estado é parte cotidiana da sua realidade.
Na lógica, quem mais vivencia as falhas do sistema é quem melhor reúne as condições de propor soluções estruturais. Aliás, trago comigo a vivência de que nós, mulheres negras, fazemos várias revoluções cotidianamente: resolvemos as questões com nosso entorno, na coletividade. Na falta de creche, é a vizinha que cuida do filho da mãe solo para esta trabalhar; é outro grupo que faz comida para vender e dividir os lucros, etc. Mas não é assim que queremos seguir vivendo e, por isso mesmo, é fundamental pensar no nosso voto.
Políticas públicas de transporte seguro, creches em tempo integral, saúde reprodutiva e combate à violência de gênero ganham contornos realistas e eficientes quando formuladas por quem compreende essas demandas na pele, beneficiando a sociedade como um todo. É a velha máxima de que, se a mulher está bem, toda a sociedade ganha.
A necessidade de renovação ética e representativa torna-se ainda mais evidente diante das crises institucionais que abalam a confiança pública. A centralização do poder político e econômico em círculos predominantemente masculinos perpetua as lógicas de favorecimento que acabam em escândalos de grande magnitude, como as recentes investigações envolvendo o Banco Master e figuras de destaque nas diversas esferas de poder do país. A repetição desses padrões de lideranças tradicionais reforça o esgotamento de um modelo político que prioriza a manutenção de privilégios financeiros em detrimento das demandas reais do povo brasileiro.
Somado a isso, o contexto político atual impõe severas ameaças às conquistas históricas das minorias políticas. O avanço de pautas ligadas à extrema-direita coloca em risco direitos fundamentais das mulheres, desde a autonomia do corpo até a proteção legal contra a discriminação no ambiente de trabalho. Esse retrocesso doméstico ganha contornos complexos com o cenário internacional, marcado pelo alinhamento ideológico e pela possibilidade de interferência política e retórica de governos estrangeiros de perfil conservador, como o trumpismo.
O apoio externo a movimentos reacionários locais fortalece narrativas que buscam criminalizar movimentos sociais e esvaziar políticas de igualdade de gênero e equidade racial.
Garantir a eleição de mulheres que de fato representam os nossos anseios, com centralidade nas mulheres negras, não é um ato de concessão ou mera diversidade estética. Trata-se de uma estratégia de defesa democrática e de sobrevivência institucional. Fortalecer essas candidaturas significa blindar o Estado contra o retrocesso de direitos, oxigenar a ética pública diante da corrupção estrutural e garantir que o orçamento e as leis do país passem a servir, finalmente, à maioria da população.
No Rio de Janeiro, meu lugar, não temos uma candidata ao governo do estado com possibilidades, mas temos a chance de eleger Benedita da Silva para o Senado. Será histórico e nos dará representatividade, pois não temos no Senado alguém que de fato defenda o nosso estado. Assim como no Rio, há excelentes candidatas ao Senado por vários estados do Brasil, a exemplo de Marina Silva e Tebet, em São Paulo, Áurea Carolina, em Minas Gerais, e tantas outras. Há também excelentes candidatas na disputa para a Câmara Estadual (Alerj) e Federal. Será um salto de qualidade para esses espaços, que estão abarrotados de figurinhas repetidas e privilegiadas ao longo das décadas.
Vamos fazer nossa parte: eleger mulheres incríveis para ajudar Lula na governança desse país. Essa é nossa melhor possibilidade de ter um país menos desigual e de seguir na luta para romper esse ciclo de exclusão dos espaços de poder, o que não é apenas uma questão de justiça numérica, mas uma pré-condição para que as políticas públicas federais, estaduais e municipais passem a refletir as pautas prioritárias da maior parte das cidadãs e dos cidadãos brasileiros. As pautas das mulheres.
Fonte: Mídia Ninja.
