A democracia não se encerra nas urnas. Ela se fortalece quando a vontade popular é respeitada, quando os direitos são garantidos e quando as escolhas da população se transformam em políticas públicas capazes de melhorar a vida de quem mais precisa.
O resultado das eleições é, portanto, um retrato das expectativas, das esperanças e dos projetos de futuro que mobilizam a sociedade brasileira. Como mulher negra, cria do Morro da Mangueira e presidenta de uma das escolas de samba mais tradicionais do Brasil, compreendo que nenhuma transformação verdadeira acontece sem a participação popular.
Uma comunidade não se constrói de cima para baixo. Ela se fortalece quando as pessoas são ouvidas, suas necessidades são reconhecidas e suas histórias passam a fazer parte das decisões que definem os rumos da sociedade. Foi com essa convicção que a Estação Primeira de Mangueira se posicionou publicamente a favor da reeleição do presidente Lula, tornando-se a primeira escola de samba a manifestar esse apoio.
Nossa posição não foi um gesto isolado, mas uma manifestação política fundamentada na defesa da democracia, dos direitos sociais e de um projeto de país que reconheça a importância das periferias, da população negra, das mulheres e dos trabalhadores.
Acreditamos que governar exige compromisso com a maioria da população, especialmente com aqueles que historicamente enfrentaram a exclusão e a ausência de oportunidades. Educação, saúde, moradia, cultura, trabalho e segurança não podem ser privilégios. São direitos fundamentais e precisam estar no centro das decisões de qualquer governo que se proponha a construir um Brasil mais justo.
A escolha de um projeto político também precisa considerar o lugar que as comunidades populares ocupam na construção do país. Durante décadas, as favelas foram tratadas a partir de suas carências, enquanto suas potências, seus saberes e suas contribuições permaneceram invisibilizados.
Nós, do samba, conhecemos essa realidade. Construímos cultura, movimentamos a economia, formamos gerações e preservamos a memória brasileira, mesmo diante do preconceito e da falta de reconhecimento. A Mangueira é parte dessa história de resistência. Nossa comunidade é feita de gente que trabalha, cria, educa, cuida e transforma a realidade todos os dias.
O período pós-eleitoral nos convoca a olhar para frente. A democracia exige respeito ao resultado das urnas, diálogo entre diferentes setores da sociedade e responsabilidade de quem foi escolhido para governar. O apoio manifestado pela Mangueira também representa uma expectativa: a de que os compromissos assumidos com o povo se traduzam em ações concretas, ampliando direitos, reduzindo desigualdades e criando oportunidades.
A história do samba nos ensina que a força coletiva é capaz de superar obstáculos e abrir caminhos. É essa mesma força que deve orientar a construção de um país onde ninguém seja deixado para trás e onde a participação popular não se limite ao voto.
Seguiremos defendendo a democracia, valorizando nossas raízes e reafirmando o protagonismo das comunidades. Porque um país verdadeiramente democrático não é aquele em que poucos decidem por muitos, mas aquele em que a voz de cada pessoa importa e em que o poder público está a serviço da população. É essa democracia popular, comprometida com a justiça social e com a dignidade humana, que precisamos fortalecer todos os dias.
Guanayra Firmino é a atual presidenta da Estação Primeira de Mangueira. Cria do Morro da Mangueira, iniciou sua trajetória aos 17 anos como vice-presidente da associação de moradores. Ela atua nos bastidores e na diretoria da Escola durante vários mandatos, e conduz a Verde e Rosa valorizando os talentos da comunidade.
Fonte: Mídia Ninja.
