A Copa do Mundo mudou a forma como os brasileiros enxergam as bets?

Portal Inhaí
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Por Joaquim Morais

Durante a Copa do Mundo de 2026, a lógica parecia óbvia, seleção jogando, bet patrocinando, publicidade tomando conta do intervalo, do camisa 10, do estúdio. Mas os números do próprio governo mostram uma realidade que passou batida na euforia do torneio: a procura por bloquear o CPF em casas de apostas disparou justamente durante os jogos. 

Os números que ninguém esperava

Segundo dados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) do Ministério da Fazenda, entre os dias 15 e 28 de junho, maior parte da fase de grupos durante as duas primeiras semanas, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão recebeu 250 mil pedidos de bloqueio ou renovação de bloqueio. Isso dá uma média de mais de 17 mil solicitações por dia.

Para ter noção do tamanho do salto: no período de 11 a 25 de maio, antes da Copa começar, a mesma plataforma tinha registrado só 38 mil pedidos, média de cerca de 2.500 por dia. É um aumento de quase sete vezes ou 588% nas solicitações diárias, segundo o Poder360 e a Agência Brasil.

A Plataforma Centralizada de Autoexclusão foi lançada pelo governo federal em dezembro de 2025 e permite que qualquer pessoa bloqueie, com um único pedido, o próprio CPF em todas as casas de apostas autorizadas a funcionar no Brasil de uma vez só, em vez de ter que pedir bet por bet. Desde o lançamento, mais de 1 milhão de pessoas já aderiram à ferramenta.

Por que os pedidos de autoexclusão?

O mais interessante nos dados da SPA não é só o volume, mas sim a mudança no motivo. Em maio, antes da Copa, 43% dos pedidos de bloqueio citavam a perda de controle sobre o jogo como razão principal. Já nas duas primeiras semanas do Mundial, esse motivo caiu para cerca de 24% e outro assumiu a liderança: a prevenção do uso dos dados pessoais em plataformas de apostas, apontada por mais de 29% para quem pediu o bloqueio.

Ou seja, as dados indicam um aumento dos pedidos de prevenção durante o torneio. As razões desse crescimento ainda não foram detalhadas pelo governo.

A Copa do Mundo é um dos principais eventos esportivos para o mercado publicitário e concentra grande volume de patrocínios das empresas de apostas. E o mercado de apostas, legalizado desde a Lei 14.790/2023, sabe disso. Uma pesquisa da empresa de pagamentos Paysafe, divulgada antes do torneio, projetava que quase 1 em cada 5 pessoas interessadas no Mundial pretendia fazer sua primeira aposta online durante a competição.

O governo reagiu, tarde demais

A resposta pública só veio no meio do campeonato. A partir de 17 de julho de 2026, entraram em vigor novas regras publicadas pelo Ministério da Fazenda em conjunto com o Ministério da Justiça e Segurança Pública e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência. Novas medidas tornaram obrigatória a exibição de avisos como “jogue com responsabilidade” e “apostar pode causar dependência” em toda peça publicitária do setor, proibiram sugerir enriquecimento fácil e vetaram que comentaristas esportivos recomendem apostas específicas durante as transmissões.

O Ministério da Fazenda também abriu investigação sobre a publicidade de quatro empresas de apostas: KTO, Bet365, Bet Nacional e Esportes da Sorte, por suspeita de publicidade abusiva. A Cazé TV, uma das principais transmissoras digitais do torneio, chegou a anunciar que reduziria as ativações publicitárias de bets integradas ao conteúdo ao vivo, como menções orgânicas feitas por narradores e comentaristas durante o jogo.

Quem está do outro lado dos números?

Para Lucas Louback, gestor de incidência política e campanhas da ONG Bonde e coordenador da campanha “Brasil contra Bets”, o salto nos pedidos de autoexclusão escancara como a publicidade em torno do futebol ajudou a espalhar o problema, não é mais uma questão isolada de quem já tinha um vício reconhecido.

“Os dados são alarmantes e mostram o quanto a compulsão por bets tem se espalhado na vida de milhões de brasileiros”, afirma em entrevista à BBC News Brasil.

Os números também aparecem em histórias individuais, casos como o do engenheiro identificado como Bruno, que pediu autoexclusão cerca de dois meses antes da Copa e relatou ao g1 ter perdido R$ 122 mil apostando em futebol, chegando a evitar reuniões de família durante o torneio para não lidar com o assunto, dão rosto a uma estatística que, sozinha, já seria dura de engolir.

Vale lembrar: a autoexclusão é gratuita, pode ser feita pelo gov.br/autoexclusaoapostas e cobre apenas as casas de apostas regularizadas, sites ilegais, que também são parte grande do problema no Brasil, ficam de fora do bloqueio.

Legado da copa para além do futebol

A edição de 2026 foi a primeira disputada depois da regulamentação das bets no país. E se por um lado a publicidade das apostas tomou conta das transmissões, por outro os próprios números do governo mostram uma reação, parte significativa dela vinda de gente que nem apostava, mas queria se proteger antes que a exposição virasse hábito.

Fica a pergunta para depois da emoção da partida: as novas regras de publicidade, que só entraram em vigor no meio do torneio, vão segurar esse ritmo de exposição na próxima temporada esportiva, ou o próximo grande evento vai gerar outro pico de gente correndo para bloquear o próprio CPF?



Por Midia Ninja

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