Por Alan Barros – Cobertura Colaborativa
Nesta quinta-feira (17), os maiores clubes do país se juntaram e publicaram um manifesto chamado “O fim do futebol brasileiro”. Flamengo, Palmeiras, Corinthians, Santos, Botafogo, Fluminense, Vasco, Grêmio e outros, junto com as federações de São Paulo e do Rio, colocaram o texto nas redes depois que o Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, disse em entrevista a um podcast que a vontade dele é acabar com as bets. O governo estuda proibir os cassinos online e apertar as regras das apostas esportivas.
Dá pra entender o desespero. Hoje, 13 clubes da Série A têm uma casa de apostas como patrocínio master, e essa conta gira em torno de R$ 1 bilhão. No manifesto, os clubes dizem que esse dinheiro chega também aos times menores e às divisões de acesso, e que nenhum outro setor conseguiria cobrir esse buraco de imediato.
Mas não, não será o fim do futebol brasileiro.
O futebol existia antes das bets
O futebol brasileiro existia muito antes das bets. Basta olharmos pra várzea, para o time do bairro que joga no domingo de manhã com a camisa patrocinada pelo mercadinho da esquina, quando tem patrocínio. Basta olharmos pros clubes do interior, as divisões de acesso, torneios que enchem o alambrado sem nenhuma câmera de TV. Foi assim por mais de cem anos, e o Brasil virou o país do futebol sem que ninguém precisasse apostar no celular pra isso.
Além disso, o futebol segue vivo onde as bets foram cortadas. Espanha e Itália já proibiram casas de apostas na frente da camisa, e na Inglaterra os próprios clubes da Premier League toparam tirar esse patrocínio a partir do fim da temporada 2025/26. Nenhuma dessas ligas acabou por isso.
Quem formou o futebol brasileiro
O que construiu o futebol brasileiro foi outra coisa. Foram clubes como a Portuguesa, que revelou Djalma Santos, bicampeão do mundo, Zé Roberto e Dener, que um olheiro viu com 11 anos num amistoso contra o Vila Maria, time onde ele jogava. Como a Ponte Preta, de Oscar, André Cruz, Juninho Fonseca e Luís Fabiano, que jogava nas ruas do Jardim Proença e chegou à Copa de 2010. Como a Juventus da Rua Javari, que passou décadas levando garoto pra Copinha.
Foto: Divulgação/São Caetano
Como o São Caetano, que saiu do ABC para ser vice brasileiro duas vezes e vice da Libertadores em 2002. Esses clubes eram a ponte entre a várzea e o resto do futebol. O menino jogava no bairro, alguém de olho via, levava pro teste, e a porta se abria. O clube pequeno formava, vendia e seguia vivo com isso.
O futebol brasileiro não acaba com o fim das bets. O futebol brasileiro acabou quando as peneiras deixaram de ter o peso que tinham. Acabou quando só quem tem dinheiro e empresário passou a conseguir entrar. Acabou quando entregaram os times nas mãos dos agentes. O futebol brasileiro acabou aí.
Quem vive o futebol de perto sente isso, dos pais que levam os filhos pros testes aos treinadores de base. A percepção é de que o talento sozinho já não abre a porta. O garoto sem agente fica do lado de fora, enquanto quem tem empresário entra pela frente, muitas vezes sem nem passar pelo teste.
Agentes mandam nos clubes?
E dentro do clube a lógica é a mesma. O jogador chega pela mão do agente e o clube passa a dever ao empresário pelo jogador que foi colocado ali. Tem comissão quando ele chega, quando renova, quando é vendido. Cada movimento do elenco tem alguém cobrando a sua parte, e o clube vai empurrando essa conta pra frente.
Ao clube que forma, a conta é ainda pior. Se antes a Portuguesa ou a Ponte faziam o jogador e viviam da venda dele, hoje o garoto, muitas vezes, já chega com um empresário que decide o caminho dele, e boa parte do que seria do clube fica pelo meio do caminho. O clube grande, por sua vez, prefere comprar pronto à esperar a base, porque é mais rápido e dá manchete. E quem ganha nas duas pontas é o intermediário.
O Corinthians mostra bem onde isso termina. No começo de 2025, o clube acumulava mais de R$ 200 milhões em ações movidas por empresários cobrando o que não foi pago em negociações dos últimos anos. Só o agente Giuliano Bertolucci cobrava cerca de R$ 78 milhões. Carlos Leite, outros R$ 65 milhões. André Cury, R$ 30 milhões. E hoje o mesmo Corinthians, junto com o São Paulo, atrasa salário e direito de imagem de jogadores e comissão técnica.
Esse mercado só cresce. Em 2025, as comissões pagas a agentes no mundo bateram o recorde de R$ 7,5 bilhões, 90% a mais que no ano anterior, segundo a Fifa. E é dinheiro concentrado: menos de 11% das negociações ficaram com 68,4% de tudo que foi pago. Os agentes brasileiros aparecem entre os cinco que mais receberam, com cerca de R$ 536 milhões. O Brasil, que antes exportava craque saído da várzea, agora exporta também intermediário.
Pois agora vem a pergunta. Como pagar o empresário e manter os altos custos, os altos salários? Como manter um time desse jeito? Como um clube que não tem dinheiro pra pagar as marmitas contrata um jogador de seis milhões?
A resposta está nos balanços. Em 2025, os 20 principais clubes do país faturaram R$ 15 bilhões, o maior valor da história. No mesmo ano, deviam R$ 16 bilhões, também o maior da história. Os custos com folha, logística e estrutura subiram 30% em um ano, e a alta das dívidas do dia a dia, que incluem o que se deve a agentes, fornecedores e outros clubes, veio principalmente das contratações. Só de juros e renegociação, foram mais de R$ 2,9 bilhões.
Enquanto isso, o Mirassol, com a 19ª receita da Série A e sem dívida no balanço, terminou o último Brasileirão em quarto e foi parar na Libertadores.
Quem paga o remendo
As bets apareceram justamente para tapar esse buraco. Foram o jeito que os clubes encontraram de manter de pé um modelo que já não parava. É o São Caetano de novo, só que em escala nacional: um dinheiro que vem de fora, sustenta uma folha que o clube não aguenta e, quando for embora, deixa a dívida.
E esse dinheiro tem origem. Em agosto de 2024, segundo o Banco Central, 5 milhões de pessoas de famílias do Bolsa Família mandaram R$ 3 bilhões pras bets via Pix, perto de um quinto do que o programa pagou naquele mês. Ou seja, parte do dinheiro que estampa a camisa do grande clube sai do bolso de quem menos tem. O mesmo torcedor que não consegue pagar o ingresso, que viu o filho ficar fora da peneira porque não tinha empresário, agora ajuda a pagar, aposta por aposta, o salário que o filho dele nunca vai ter.
O manifesto até reconhece que as apostas trazem problemas sociais e pede mais fiscalização. Mas trata o dinheiro das bets como se fosse o ar que o futebol respira, quando na verdade ele só mantém ligado um modelo que os próprios clubes criaram e nunca quiseram mudar. Será que o problema é realmente o fim das bets? Ou são os clubes, que já acabaram com o futebol há muito tempo e encontraram um meio de lucrar nas custas dos menos favorecidos?
Foto: Vagner Eduardo/Chega Mais FC
O futebol brasileiro vai continuar. Na várzea, no interior, no Canindé, no Majestoso, na Rua Javari, no menino que ainda joga no bairro esperando alguém passar e ver.
O que pode chegar ao fim é a desculpa.
Fonte: Mídia Ninja.
