O que uma trend viral sobre os anos 80 tem a dizer sobre nós? A pergunta ficou martelando na minha cabeça depois que eu mesma participei de uma das trends mais populares deste ano: todo mundo com o feed tomado por fotos geradas por IA, simulando nossa versão em 1980. Milhares de pessoas usando tecnologias avançadas para reviver ou experimentar uma época em que ainda se usava relógio de pulso para ver as horas e as reuniões entre amigos e familiares eram movidas a conversas, e não a fotos tiradas estrategicamente, pensadas para uma postagem nas redes sociais.
Essa trend dos anos 80 não é um caso isolado de sucesso. Uma busca rápida em plataformas como Instagram, YouTube e TikTok, e você achará centenas de canais no Brasil e no mundo utilizando a IA para reviver décadas passadas. São perfis que reproduzem como eram as ruas, lojas, restaurantes, costumes e a vida. Todos com milhares de seguidores e comentários saudosistas de quem viveu e de romantização por quem não viveu. Nesse caso, existe até uma palavra para isso: anemoia, que significa “nostalgia por uma época que você nunca viveu”. Bom, esse tipo de sentimento sempre existiu. Woody Allen mesmo retratou isso muito bem no filme “Meia-Noite em Paris”, e não é novidade. O que chama atenção neste momento é a utilização das tecnologias mais avançadas para voltar a uma época sem grandes tecnologias acessíveis.
Tem uma ironia nisso tudo. A ferramenta mais sofisticada, treinada com bilhões de imagens, capaz de recriar qualquer rosto em qualquer década, está sendo usada pra nos devolver a fantasia de um tempo sem toda essa sofisticação. Não corremos atrás dos anos 80 revirando álbuns de fotografias ou usando uma câmera analógica. Corremos atrás deles com inteligência artificial, o símbolo máximo do presente acelerado do qual, aparentemente, estamos tentando escapar.
Essa vontade de desacelerar não fica só na tela. Cresce também fora dela, em encontros que proíbem, ou pelo menos desencorajam, o uso do celular. Segundo levantamento da Eventbrite, esse tipo de evento cresceu 567% no mundo entre 2024 e 2025, com a participação subindo 121% no mesmo período. São festas, jantares, rodas de leitura e encontros em que o objetivo declarado é simples: se olhar nos olhos, prestar atenção em quem está na sua frente e trocar a foto documentada pela conversa que só existe enquanto acontece.

A ficção fez isso antes e continua fazendo. A série Stranger Things transformou os anos 80 em fenômeno global e trouxe de volta walkman, luzes de Natal piscando em código secreto e trilha synth-pop pra uma geração que nunca discou um telefone de fio na vida. Não é caso isolado: séries ambientadas nos anos 60, 70 e 90 emplacam ano após ano, cada uma reconstruindo, com seu próprio verniz de nostalgia, um tempo que boa parte de quem assiste nunca viveu de verdade.
Para Cristiane Denik, arteterapeuta de base psicanalítica, a diferença entre a nostalgia de quem viveu os anos 80 e a de quem só viu aquilo numa tela existe, mas pesa menos do que parece: “Quem viveu tem uma memória biográfica, e quem não viveu constrói uma memória cultural, fruto da imaginação. Mas, na prática, essa diferença não modifica muito as experiências. Ambas são capazes de mobilizar imagens psíquicas semelhantes em termos de sensações.” Quem viveu lembra da TV, das músicas, das roupas. Quem nasceu depois acessa os mesmos símbolos por filme, série, TikTok e sente uma coisa muito parecida.
Sobre o porquê de isso ganhar tanta força agora, Cristiane vai direto ao ponto: “Talvez a nostalgia não seja da década de 1980, mas de um modo de experimentar a realidade.” Num mundo tão tecnológico quanto o nosso, as imagens do passado funcionam como contraponto psíquico, um jeito de acessar algo que parece mais simples, mais perto da origem. Isso não quer dizer que os anos 80 tenham sido, de fato, mais simples. “Há uma idealização nessa percepção, permitindo à pessoa usar a década de 80 como algo mais projetivo, em que ela se autoriza a colocar naquela memória coisas de que sente falta agora, no presente.”
Já sobre o risco de romantizar demais um passado que a IA agora ajuda a “provar” visualmente, a arteterapeuta é clara: “O problema acontece de fato quando o passado deixa de ser uma referência, um símbolo pra compreender o presente, e passa a funcionar como refúgio contra o presente.” Às vezes, o psiquismo precisa voltar simbolicamente a imagens do passado pra recuperar algo que ficou perdido. O problema não é olhar pra trás. É ficar lá. “Nem toda volta ao passado é fuga. Pode ser divertimento e elaboração.”
Volto a olhar para a minha foto de 1980, com aquele filtro granulado imitando uma câmera fotográfica analógica, e percebo algo simples: não sinto saudade dos anos 80. Sinto saudade de um jeito de estar no mundo que não exigia tanta performance. Talvez seja isso que a trend revelou, no fim: não uma década perdida, mas um sentimento.
Aline Calamara é jornalista, Gerente de Comunicação do Parque Tecnológico da UFRJ e especialista em IA para Marketing.
