Por Rayssa Candido
Cineasta, produtora e pesquisadora paraense, Priscilla Brasil constrói, há mais de duas décadas, uma trajetória dedicada ao cinema, à cultura e às narrativas amazônicas. Nascida em Belém, no Pará, em 1978, é doutoranda em Pós-Colonialismos e Cidadania Global no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, onde pesquisa imperialismo, eugenia e desenvolvimento.
Sua trajetória atravessa diferentes campos da produção cultural. Priscilla é fundadora da Companhia Amazônica de Filmes, produtora de cinema e música sediada em Belém e com 25 anos de história, e da Clandestina, produtora portuguesa dedicada a filmes sobre imigração contados por imigrantes. Também é fundadora e coordenadora da Escola Livre de Cinema da Amazônia, iniciativa que leva educação audiovisual gratuita e descentralizada a estudantes universitários e secundaristas em cidades da região, ampliando o acesso à formação e ao mercado audiovisual, além de capacitar novos profissionais em áreas como legislação, direitos e burocracia dos editais de fomento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e da Agência Nacional do Cinema (ANCINE).
Priscilla também teve papel importante na projeção do tecnobrega para além do Pará. Foi produtora executiva do icônico álbum “Treme”, de Gaby Amarantos, e responsável pela criação e organização de parte significativa da obra visual da cantora durante a primeira fase de sua carreira, contribuindo para levar um movimento surgido nas periferias de Belém para novos públicos. Nesse período, dirigiu trabalhos como o videoclipe “Xirley” e o musical “Gaby – Live in Jurunas”. Permaneceu no mercado da música até 2018, quando retornou definitivamente ao audiovisual.
Como diretora, roteirista e produtora, assina os filmes “As Filhas de Chiquita” (2007), “Paysandu – 100 Anos de Payxão” (2015), “No Vazio do Ar” (2022) e “Não Haverá Mais História Sem Nós” (2024). Atualmente, está em pós-produção com “The Immigrant Mall” e “Valentina”, em produção com “Local de Crime”, em pré-produção com “Rainha das Rainhas” e desenvolve uma série de filmes sobre a ocupação da Amazônia ao longo do século XX.
A cineasta também é convidada regularmente para palestras e masterclasses sobre cinema, meio ambiente e Amazônia em universidades de diferentes países, conectando a pesquisa acadêmica ao fazer cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, participou de atividades em instituições como Cambridge, King’s College London, Universidade de Tübingen, Sorbonne, University of Pennsylvania e Universidade Católica do Porto. Também foi convidada pela Organização das Nações Unidas (ONU) para participar de diferentes edições da Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas (COP), debatendo cinema, Amazônia e conservação.
É nesse encontro entre arte e pensamento crítico que surge “Não Haverá Mais História Sem Nós”, documentário luso-brasileiro dirigido por ela e coescrito com o historiador Raphael Uchôa. O filme estreia nos cinemas brasileiros em 10 de setembro e amplia o debate sobre a forma como a Amazônia e os amazônidas foram historicamente representados dentro e fora do país.
Mais do que um documentário sobre a floresta, “Não Haverá Mais História Sem Nós” se apresenta como um manifesto cinematográfico contra o apagamento histórico e a perspectiva colonial que, há séculos, constrói a Amazônia como um território vazio, selvagem e disponível à exploração.
O filme parte de uma pergunta central: quem conta a história da Amazônia? E o que acontece quando os próprios amazônidas reivindicam o direito de narrar sua história?
Entre Alemanha e Brasil, dois cineastas amazônicos mergulham nas entranhas do processo histórico de invenção e exploração da floresta como um suposto Jardim do Éden inesgotável. Em meio ao discurso contemporâneo de preservação ambiental e ao crescente greenwashing, o documentário revela como antigas estruturas de poder continuam presentes na maneira como a Amazônia é imaginada, consumida e representada pelo Brasil e pelo mundo.
A obra confronta a ideia de um “vazio demográfico selvagem”, segundo a qual a floresta seria um território sem história, sem habitantes e sem voz própria. Ao colocar os amazônidas no centro da narrativa, o filme questiona uma visão que transforma pessoas, culturas e territórios em meros elementos de uma paisagem exótica.
O documentário articula cinema, história e pensamento crítico para propor uma mudança de perspectiva: não é possível contar a história da Amazônia sem ouvir aqueles que sempre estiveram lá.
“Não Haverá Mais História Sem Nós” é uma coprodução entre a produtora paraense Companhia Amazônica de Filmes e a portuguesa Clandestina Filmes, com apoio do projeto ECOAmazônia, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação e desenvolvido pela Universidade de Coimbra.
O filme teve sua estreia mundial no Bali International Film Festival, o Balinale, e sua primeira exibição brasileira no Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), em Goiás, em junho de 2024.
Agora, a chegada aos cinemas brasileiros, em 10 de setembro, ganha um significado especial ao acontecer poucos dias depois do Dia Nacional da Amazônia, celebrado em 5 de setembro. A estreia representa uma oportunidade para ampliar o debate sobre a floresta para além das imagens recorrentes de devastação, preservação e emergência climática.
