Dá pra importar soft power?

Portal Inhaí
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O Brasil está na moda (de novo). Do funk ao cinema, do nosso modo de vida à presença nos grandes fóruns da governança global, garantimos outros 15 minutinhos de fama. Fenômenos como o #brazilcore, a mobilização em massa em perfis internacionais como o do Oscar, ou o oceano de gringos se derretendo nas redes mostram nossa capacidade única de gerar estéticas, memes e engajamento. Mas, acima de tudo, refletem uma reputação sólida, a validação da nossa cultura e a centralidade que o país conquistou no debate global.

Em um cenário geopolítico conturbado, marcado por novas tensões, disputas e ameaças extremistas, a capacidade de construir pontes torna-se um ativo ainda mais valioso. Criar e manter estruturas de poder que garantam a soberania nacional é o grande desafio das nações emergentes no século XXI. É aí que a vocação cultural brasileira se sobressai. Na ausência de um hard power incisivo, é nosso soft power que garante um lugar de destaque à mesa internacional.

Vamos deixar de lado a síndrome de vira-lata e o velho hábito de esperar a validação externa para reconhecer nosso próprio valor. Trago aqui outra questão: o que podemos aprender com a dinâmica da nossa própria “exportação simbólica”? Como essa imagem projetada lá fora pode resgatar a nossa autoestima da porta para dentro? Afinal, dá pra importar soft power?

Quando o Brasil fala para o mundo, somos inevitavelmente uma unidade: diplomática, estética e cultural. Nesses palcos, não somos reféns da polarização interna e, por isso, assumimos a complexa e bonita tarefa de traduzir os “vários Brasis” em uma coisa só.

É justamente nessa tradução que o campo progressista encontra seus maiores gargalos de comunicação. Em primeiro lugar, permanecemos presos a uma agenda reativa, gastando energia para apagar incêndios e combater ameaças à medida que elas surgem. Em segundo, enfrentamos uma enorme dificuldade para comunicar indicadores e conquistas sociais sem soar cínicos, professorais ou desconectados da realidade imediata da população.

Sob o diagnóstico de que a percepção pública do brasileiro anda significativamente mais negativa do que os indicadores justificam, a plataforma Brasileiragem aposta no momentum da projeção internacional para reativar o orgulho nacional. A partir de dados, conquistas e símbolos comuns a todos os brasileiros e em parceria com organizações e criadores de diversos territórios, Brasileiragem mostra o #Brasilquefazmelhor em uma narrativa coordenada, que reposiciona o Brasil no imaginário dos brasileiros.

A saída (ou a entrada) passa por nomear constantemente os pontos de convergência dos brasileiros, as verdades culturais que circulam independentemente do espectro ideológico. Como o nosso senso de comunidade, a culinária, a simpatia, a resiliência e a criatividade, patrimônios esses que não pertencem a nenhum partido.

Quando escolhemos olhar para o que temos em comum, desarmamos a lógica de um inimigo a ser combatido e abrimos espaço para uma construção mais propositiva. O engajamento nasce da capacidade de vislumbrar sonhos conjuntos e de comemorar conquistas reais antes de correr para a próxima crise.

A boa notícia é que traduzir pautas complexas para uma linguagem cotidiana exige competências que são inatas ao brasileiro. Somos especialistas em produzir cultura popular, ou melhor, pop. Em gerar engajamento, mobilizar afetos e criar peças culturais altamente identificáveis.

Agora é hora de aproveitar esses holofotes internacionais para reacender a Brasileiragem aqui dentro. Se há algo que o Brasil pode aprender com o Brazil, é que o segundo é fruto do que o primeiro faz melhor.

Fefê Villaça é consultora de conteúdo que costura pesquisa cultural e tecnologia. Atua no encontro entre política e entretenimento, em organizações e empresas de diversos setores.



Por Midia Ninja

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