Ginástica ainda é para poucos? O desafio de democratizar o acesso ao esporte no Brasil

Portal Inhaí
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Por Joaquim Morais

Em agosto, Brasília sediou pela primeira vez na história o Campeonato Brasileiro Adulto de Ginástica Artística, principal competição do calendário nacional. A capital federal só havia recebido o Troféu Brasil, uma etapa menor, em 2025, e ficou 15 anos fora do circuito de competições adultas de elite antes disso. No ginásio Nilson Nelson, 93 atletas disputaram medalhas, representando apenas 14 clubes do país inteiro. É esse número, mais do que o feito histórico de Brasília, que resume o problema desta cenário: mesmo numa modalidade em que o Brasil é potência olímpica, o caminho até o alto rendimento segue concentrado numa meia dúzia de endereços

Quem consegue pagar a entrada

Entre os clubes que historicamente dominam o pódio nacional estão nomes como Flamengo, Pinheiros, Minas Tênis Clube e Grêmio Náutico União, todos ligados a clubes sociais particulares, com estrutura, treinadores e aparelhagem de ponta. E, claro, mensalidade. Ser sócio do Minas Tênis Clube, Clube Paineiras em São Paulo, e no Grêmio Náutico União pode ser um grande impedimento para a maior parte da população brasileira, com valores mensais que ultrapassam meio salário mínimo. 

Na prática, isso significa que o primeiro filtro da ginástica brasileira não é talento, é renda e código postal. Quem não mora perto de um desses clubes, ou não tem como pagar por eles, fica de fora antes mesmo de pisar num tablado.

O dinheiro público existe, mas não resolve esse filtro

Existe apoio estatal direto a atletas como o Bolsa Atleta que paga de R$ 370 por mês, na categoria mais básica, até R$ 15 mil, na categoria Pódio, reservada a quem já tem resultado internacional consolidado. Em 2023, o programa investiu R$ 121 milhões, com recorde de 8.292 bolsas concedidas, e em 2024, passou de 9 mil atletas contemplados, com mais de R$ 160 milhões investidos.

Mas esse investimento sempre foi instável. Em 2018, o governo Michel Temer cortou 87% do orçamento do esporte. Em 2020, sob Jair Bolsonaro, o auxílio simplesmente não foi pago, e entre 2017 e 2021, o Bolsa Atleta como um todo caiu 17%. Mesmo nos anos de recorde, o valor da bolsa está longe de cobrir o custo real de formar um atleta olímpico no Brasil, estimado em até R$ 5 milhões ao longo de uma carreira, segundo a revista Exame, um número que só se sustenta, em países como Estados Unidos e Alemanha, com bolsas universitárias integrais e uma rede de clubes esportivos com financiamento estatal robusto. Nada disso existe no Brasil na mesma escala. Ou seja, o dinheiro público ajuda a segurar quem já está dentro do sistema, mas não paga a entrada de quem está fora dele.

A entrada que, uma vez, foi paga por uma prefeitura

É aí que entra a história mais citada quando o assunto é desigualdade de acesso na ginástica brasileira. Guarulhense, filha de uma empregada doméstica, Rebeca Andrade, hoje a maior medalhista olímpica da história do esporte brasileiro, começou a treinar aos cinco anos no projeto Iniciação Esportiva, da prefeitura de Guarulhos, depois que a tia, funcionária do ginásio municipal Bonifácio Cardoso, a levou para um teste com a treinadora Mônica Barros dos Anjos. Chegou a andar duas horas a pé até o treino quando faltava dinheiro para transporte.

O programa existe desde 1992, e hoje atende cerca de 800 crianças e adolescentes, entre iniciação e alto rendimento, em várias modalidades além da ginástica. E Rebeca não foi caso isolado, outras ginastas formadas ali como Júlia Cerqueira, Mariana Oliveira, Bruna Perandré, Marina Silva e Priscila Cobello, também chegaram à seleção brasileira. Em outras palavras, quando a barreira de entrada foi removida por uma política pública municipal, o resultado não foi uma exceção isolada, foram várias atletas de nível olímpico saindo do mesmo ginásio.

Porém, mesmo essa exceção tece um limite, segundo relatos de pais e mães de atletas do projeto, o programa não oferecia vale-transporte nem alimentação antes da pandemia, mostrando que mesmo dentro de uma iniciativa pública pensada para ampliar acesso, os custos indiretos de treinar seguiam recaindo sobre famílias que, muitas vezes, não tinham como bancá-los, a entrada foi paga mas nem tudo o que vem depois dela.

Democratizar no papel, concentrar na prática

A Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) afirma que o calendário nacional de 2026 reforça “a política de democratização do acesso ao esporte, estímulo ao desenvolvimento regional e fortalecimento da modalidade em âmbito nacional”, distribuindo competições por diferentes regiões do país, e a chegada do Campeonato Brasileiro Adulto a Brasília entra nessa conta.

Mas voltando ao número que abriu esta matéria: 14 clubes. É esse o tamanho real do topo da ginástica brasileira hoje, apesar do discurso de descentralização. Descentralizar onde a competição acontece é uma coisa, descentralizar de onde vêm os atletas que a disputam é outra, e é nesse segundo ponto que o esporte segue devendo.

E agora?

A ginástica brasileira tem hoje uma das gerações mais vitoriosas da sua história, mas o caminho até ela segue filtrado por renda e geografia. Clubes particulares caros de um lado, investimento público insuficiente e instável do outro. A exceção de Guarulhos mostra o que acontece quando esse filtro é removido, ainda que parcialmente, não uma atleta, mas para várias pessoas. A pergunta que fica é por que esse modelo segue tão raro pelo resto do país, e o que muda, de fato, quando uma confederação diz que quer democratizar um esporte sem resolver o problema mais básico dele: quem pode pagar para treinar, e quem não pode.



Por Midia Ninja

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