‘Pedro Páramo’ e os murmúrios que atravessam a literatura e o cinema

Portal Inhaí
6 Min Read


Por Mauriceia Rocha

Este é um texto tardio sobre um filme lançado em 2024. Peço perdão a você que me lê pelo crime de não seguir o tempo impossível de ser seguido da internet. Me explico: o livro “Pedro Páramo” (1955), de Juan Rulfo, é de grande valor sentimental para mim e relutei, assim como quem nutre um amor platônico com medo de que se concretize, em ver o filme. Até que, recentemente, comecei a ler “Chão em Chamas” (1953), o primeiro e único livro de contos do autor, e me bateu a irresistível vontade de revisitar o universo de “Pedro Páramo”.

A adaptação cinematográfica, que recebe o mesmo nome, marca a estreia na direção de um longa-metragem de Rodrigo Prieto, reconhecido diretor de fotografia mexicano por trabalhos como “O Segredo de Brokeback Mountain” (2005), “O Lobo de Wall Street” (2013), “O Irlandês” (2019), “Assassinos da Lua das Flores” e “Barbie” (2023).

E te conto: ufa, não doeu assistir! O filme é bem honesto em relação à obra original, elucida pontos que estavam abertos sobre a história, e que nunca foram um problema para mim, e lida muito bem com a ausência de um narrador fixo e com uma narrativa não linear.

E vamos ser honestas? É injusto esperar que qualquer outra linguagem artística supere o romance que é considerado o marco inicial do Realismo Fantástico na América Latina, inspirando autores como o argentino Julio Cortázar e o colombiano Gabriel García Márquez. Gabo, inclusive, relatou que o escrito foi o guia estrutural de sua obra-prima “Cem Anos de Solidão” (1967), que é o livro do meu coração, ou seja, ainda não vi a série, também original Netflix, pelos mesmos motivos. Quem sabe um dia não volto aqui neste site com um texto sobre!…

A trama acompanha Juan Preciado, interpretado por Tenoch Huerta, em sua chegada à pequena cidade de Comala, buscando pelo pai que nunca conheceu, a pedido de sua mãe em seu leito de morte. Trata-se do rico proprietário de terras e tirano Pedro Páramo, interpretado por Manuel García-Rulfo, que, como denuncia o sobrenome, tem parentesco com o autor. Aos poucos, Comala e seus habitantes se revelam fantasmas que contam sobre heranças geracionais e poder.

Como pano de fundo histórico está a Revolução Mexicana, de 1910, conflito armado que tinha como objetivo derrubar a ditadura de Porfírio Díaz, em busca de justiça social e reforma agrária. A riqueza centrava-se nas mãos de empresas estrangeiras e alguns latifundiários, como no caso da família do próprio escritor, enquanto indígenas e camponeses viviam em extrema pobreza. Pedro Páramo é um coronel pré-Revolução Mexicana, que controla a fazenda Media Luna e que não bate de frente com os revolucionários, mas os financia para proteger seus interesses. Seus capangas mudam de posição política conforme quem governa para conservar seu poder local. Em 1914, liderados por Emiliano Zapata e Pancho Villa, um novo governo chega ao poder e promulga a Constituição de 1917, com leis trabalhistas como salário mínimo, oito horas de trabalho, expropriação de terras e reforma agrária. Porém, com o assassinato de seus líderes, o movimento enfraqueceu e a burguesia tomou o poder. A desilusão revolucionária reflete-se no vazio que se tornou Comala.

Outro ponto positivo que a produção cinematográfica carrega da obra é a fundamental relação entre vivos e mortos, que se confundem, se mesclam, borrando assim o véu do fim da existência. O que é chamado comumente de magia nada mais é do que cosmologia de povos não brancos, totalmente natural em seu dia a dia.

É comum em religiões de matriz indígena e africana que não exista separação entre mortos e vivos, com interações como conselhos, conversas, confissões, pedidos, desabafos, broncas, bênçãos, seja por meio do transe, do sonho ou de uma partilha de alimentos, por exemplo. Basta observar o Día de los Muertos, data importantíssima no México, com raízes profundamente astecas, maias e nahuas, em que se festeja com música, fartura e muitas cores a visita das almas aos vivos.

Como alguém que reverencia a ancestralidade negra na Umbanda, enxergo “Pedro Páramo” como uma ode ao culto ao humano, aos marginalizados, aos que carregam traumas geracionais, aos que não encontraram futuro, aos feridos pela violência e pelo poder, aos arruinados que ainda ecoam.

Falando em trocar com mortos, adoraria tomar um café com Juan Rulfo, que também foi roteirista, e saber o que achou de sua obra transposta para a sétima arte. Será que os murmúrios o matariam?



Por Midia Ninja

Share This Article
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *