Giovani Cidreira: “Não sou artista de Instagram”

Portal Inhaí
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Por Kaio Phelipe

Nascido em Salvador e criado em uma fazenda no interior da Bahia, Giovani Cidreira teve na família e no ambiente em que cresceu suas primeiras referências musicais. O São João, a música nordestina, as canções que ouvia no rádio, as festas de terreiro e o samba chula que acompanhava na casa da avó, em Santo Amaro, foram suas primeiras formações. Ainda adolescente, já escrevia as próprias músicas, gravava fitas para vender aos colegas e compunha canções sob encomenda para amigos. Mais tarde, começou a participar de festivais em Salvador com uma banda, dando os primeiros passos de uma carreira que o consolidaria como um dos músicos mais interessantes e completos da cena musical contemporânea.

Em Coração disparado, seu último lançamento, Giovani se aproxima novamente de uma forma de fazer música que está na origem de sua trajetória. Gravado ao vivo, com voz e violão e diante do público, o álbum registra uma dimensão de seu trabalho que, segundo ele, só quem o conhece de perto costumava perceber. O álbum é a primeira parte de um projeto que terá uma continuação em estúdio, com novas canções e a participação de Luiza Lian.

Ao completar dez anos de carreira, ele conta que passou parte desse percurso tentando entender como se inserir em um mercado que parecia exigir dele uma adaptação a determinados modelos. Com o tempo, decidiu fazer o movimento contrário e, em vez de modificar sua música para caber nesses lugares, passou a construir seu próprio caminho. Hoje, fala sobre a carreira com mais segurança e sobre a importância de sustentar uma produção que não dependa da aprovação de quem nunca esteve disposto a escutá-lo.

Em entrevista para a Mídia Ninja, o músico fala sobre as referências que formaram sua escuta, a relação com a Bahia e com a obra de Ederaldo Gentil, a experiência de participar do Tiny Desk e os caminhos que o levaram a Coração disparado. Também reflete sobre os dez anos de carreira, as relações entre mercado e criação e a decisão de construir um percurso que não dependa da validação de determinados espaços.

Foto: Bruno Prada

Como era sua relação com a música antes de se tornar uma profissão?

Na minha família, nunca teve ninguém envolvido com a música ou com qualquer tipo de arte enquanto profissão. Mas eu cresci em um ambiente muito artístico.

Primeiro, eu nasci em Salvador e fui pro interior da Bahia. Lá, eu cresci em uma fazenda com meu pai, com minha mãe e meu irmão, e sempre recebendo muito da cultura da música nordestina, da música de rádio e do São João. O São João era uma coisa muito forte e me impactava bastante, era algo muito presente.

Na minha casa rolava festa de terreiro, festas com os triângulos, zabumba, acordeão. E na casa da minha vó, em Santo Amaro, também tinha muito samba, o samba-chula. Começava à noite e virava a madrugada. E eu, criança, assistia tudo aquilo. Aí vinha samba de caboclo e desciam os santos. Isso me marcou, entrou em mim de maneira muito profunda mesmo. E, desde pequeno, eu me identifiquei com esse ambiente cheio de musicalidade e liberdade.

E a minha família, apesar de a gente não ter nenhum entendimento profissional sobre isso e apesar de a gente ter sido muito pobre, observava em mim essa aptidão e sempre me ajudava. Lembro que, quando comecei a escrever versos, todo mundo da família se juntou para comprar meu primeiro violão.

A comunicação também era muito importante. Fui criado por mulheres e isso me deixava em um lugar de muito conforto. Minha mãe sempre falava para mim: “família é o lugar onde você pode ser quem você é sem se preocupar”. Então, sempre conversamos muito e sempre tive muita liberdade para me expressar. E adorava fazer teatrinhos dentro de casa, imitando a Verão Verão e os Mamonas Assassinas.

Quando eu tinha 13 ou 14 anos, voltei para Salvador e conheci um amigo sem querer. Lembro que vi um clipe do Los Hermanos na televisão, era “Todo carnaval tem seu fim”, e fui para a rua procurar esse disco. Um amigo falou que um cara tinha esse disco. Daí, eu fui na casa dele, ele me emprestou e ainda me deu uma vitrola quebrada. Dei um jeito de fazer a vitrola funcionar. Comprei as borrachas, consertei a parte elétrica, troquei a agulha. Comecei a colecionar muitos, muitos discos.

Mas, nesse momento, eu já estava fazendo música, já escrevia minhas próprias letras. Lembro que eu gravava fitas K7 no rádio que minha vó tinha e levava para o colégio para comercializar essas fitas. Alguns amigos me pediam músicas para as namoradas, para os namorados, e eu compunha músicas especialmente para aquelas pessoas.

A música sempre esteve ali, presente. Depois, comecei a participar de festivais com uma banda em Salvador.

Mesmo depois do Natura Musical, que foi quando eu saí de Salvador, continuou existindo a dúvida sobre o que eu faria com aquilo. Como a minha família precisava das coisas, eu ficava preocupado em ter um emprego convencional e poder ajudar de maneira mais efetiva.

Demorei para entender a música como profissão. Já tinha até um disco na minha mão. A minha realidade sempre me colocou em uma vida dupla.

Quando vim para São Paulo, ganhei prêmio, fiz a coisa toda rolar, a vida foi mudando e consegui ter alguma grana. Foi quando comecei a me aceitar como profissional.

Viver disso é uma coisa muito louca. Acho que sempre vai surgir alguma dúvida. Mas a música sempre esteve presente. Ter sido criado em um espaço de liberdade artística e onde eu conseguia me expressar sem preocupação fez toda diferença.

Foto: Bruno Prada

Qual é a importância da Bahia para o seu trabalho?

Eu tenho muita sorte. Eu acho que todo mundo que é baiano se sente um pouco assim. Acho que tem a ver com o fato de, durante muito tempo, a Bahia ter ficado isolada. É uma capital que deixou de ser capital, então a gente tem uma coisa de se bastar. A nossa cultura, o que a gente produz, se basta.

E tem uma excelência também, né? A gente tem uma tradição mesmo de grandes artistas da Bahia, da música que escoa para o Brasil inteiro. Isso acontece até hoje, existe uma tradição mesmo.

O Brasil começa na Bahia, né? Então, há fortes tradições, fortes ligações africanas, a coisa ainda rola muito nesse sentido, e eu tive a sorte de crescer nesse ambiente bem rico de cultura.

Salvador é uma grande universidade de cultura, de arte e é uma cidade também devastada pela alegria, como diria James Martins, um amigo meu, porque a cultura do Carnaval, do turismo, da coisa toda que se sobrepõe.

Eu me sinto parte de uma tradição de pessoas que batalham e que fazem arte desde sempre.

Quem foi Ederaldo Gentil e qual é a sua relação com a obra dele?

Ederaldo é um dos sambistas mais importantes da Bahia. Eu conheci Ederaldo porque, primeiro, eu ia às rodas de samba de Salvador.

Curioso que, adolescente, comecei a ir ao samba de Itapuã. Eu conhecia o filho do Paulo Diniz, que é um sambista que compunha com Ederaldo, como compunha música comigo também, e um dia ele mostrou essas músicas que o pai dele tinha escrito com Ederaldo e uma galera tinha gravado, Gal Costa, Simonal… Eu me identifiquei muito com aquela musicalidade de Ederaldo Gentil, porque ele era um sambista com uma estética jovem. E eu acho que isso tem a ver com o que se apresentou culturalmente nos anos 1970, que a Tropicália surgiu e criou-se essa coisa da MPB. O samba, a partir disso, ficou de fora da música brasileira. Eu tenho uma ideia de acreditar, às vezes, que a MPB foi criada para tirar o samba da música brasileira, de deixar tudo mais gourmetizado.

Eu me identifiquei também com a poesia ferina de Ederaldo, com coisas que só tinha visto os Racionais MC’s falarem, questões bastante sociais, de pertencimento.

Conheci sua obra quando era adolescente e não larguei mais a obra de Ederaldo, e isso fez toda diferença na minha vida. E comecei a observar que amigos meus consumiam a arte dele como pesquisa, em Salvador e também em São Paulo.

Eu não estava trabalhando em nenhum disco. E o mercado pede que você faça discos também. E alguém me falou que eu cantava Ederaldo o tempo todo e colocava as músicas dele direto, e que era até chato isso. E aí me deu o toque de fazer um disco cantando as músicas dele.

Achei que, sinceramente, quando rolou essa proposta, seria uma coisa tranquila, porque, sempre que eu vou cantar composições de outros artistas, eu desconstruo o trabalho que eu já conheço, até conseguir integrar em mim. Eu acredito que é assim que consigo fazer uma boa interpretação. E eu tinha muita tranquilidade de que conseguiria fazer isso com as músicas de Ederaldo, porque eu entendia o que ele estava falando e porque somos do mesmo lugar, da comunidade, do povo, de Salvador. E eu acho que eu era a melhor pessoa para colocar luz de novo no trabalho dele.

Infelizmente, Ederaldo morreu como vários compositores pretos, por conta de um preconceito da indústria e de gente que não sabe lidar com quem fala a verdade. O Ederaldo sofreu muito com isso e foi transformado em uma coisa maldita, da mesma forma que aconteceu com Luiz Melodia e Itamar Assumpção. Eu me identifico muito com eles e acho que, assim como eu sou, eles foram artistas de muita consistência e construíram algo muito maior.

Foto: Bruno Prada

Como foi participar do Tiny Desk?

Estava até falando com uma amiga sobre isso. Eu estava na Europa esses dias fazendo uma turnê e muitas pessoas me identificaram pelo Tiny Desk. É muito interessante saber que as coisas estão escoando. Isso também tem a ver com a musicalidade que a gente tem no Brasil. A gente produz muita música e, por isso, nosso país foi escolhido para ter também um Tiny Desk. Eu percebo que a nossa música está escoando mesmo.

Eu, minha equipe e todos os músicos envolvidos ficamos muito emocionados. Eu não sou um artista que está nas panelinhas, não estou nas concessões com a galera, não sou do tapinha nas costas. E aí a gente sempre fica pensando que quem vai estar relacionado a um projeto desse, com essa exposição, são outros artistas. E, dessa vez, não foi o que aconteceu.

Para mim, isso demonstra que, apesar de ter várias placas dizendo para eu parar e de várias dificuldades, meu trabalho está sendo bem feito. A ideia está sendo dada e eu estou sendo reconhecido como um músico que tem algo para dizer. Foi um momento muito importante para mim porque consegui ter uma confirmação de que estamos fazendo arte com consistência.

Foto: Bruno Prada

Para você, o que é o Coração disparado e o que o público encontra no álbum?

Esse disco é um desafio. Mais uma vez, eu tô me desafiando, porque é um disco gravado ao vivo, com público. Eu fiquei pensando que, no Brasil, teve uma cultura forte de música ao vivo na música sertaneja, no axé. A gente cresceu ouvindo o Acústico MTV.

Mas eu percebi que vários amigos e colegas não pensavam nisso de gravar um disco ao vivo. Eu pensei nisso porque muitos amigos, assistindo aos meus shows, onde eu tocava violão, falavam que nem sabiam que eu tocava assim e diziam que isso é forte, é bom e que chegava nas pessoas.

Então é como se fosse meu aniversário com o palco. O mais puro de mim no palco. É um desafio para mim também fazer um show voz e violão, sozinho com o público, e gravar um disco de músicas inéditas. São elementos suficientes para as coisas acontecerem de maneira errada. Mas eu também gosto disso.

Eu gosto de me desafiar e me colocar em lugares de experiência. Esse disco também vem para fazer isso e também para me aproximar mais das pessoas e do público. Eu não sou artista de Instagram. Eu preciso estar com as pessoas.

Pra fazer uma turnê hoje, com banda e uma série de coisas, é muito difícil. E eu pensei muito nisso, nessa circulação e em estar em todos os lugares. Estou interessado em conversar cada vez mais com as pessoas e trazer elas para mais perto de mim.

E também existiu a coisa da linguagem, de voltar para o violão, pensando em quando comecei a compor e pensando na estrutura tradicional de uma canção brasileira. Eu nunca parei de fazer. Mas muita coisa que eu vinha fazendo envolvia elementos de música eletrônica, que eu gosto muito, instrumentação e tal. E esse disco é um encontro com o Giovani do início e para registrar uma faceta minha que só conhece quem me conhece de perto.

Gravar um álbum ao vivo traz uma tensão maior?

Para o disco em estúdio e o ao vivo, você se prepara basicamente do mesmo jeito. Mas, em estúdio, você tem um tempo depois para arrumar. Muitas vezes, um disco de estúdio vai ganhando forma conforme você vai fazendo, juntando outras referências àquilo e criando um corpo.

Apesar de você ter várias certezas, várias coisas acontecem no estúdio. Há muitas pessoas envolvidas também, mesmo quando você grava sozinho. Você apaga, volta. Você tem essa possibilidade de mudar de ideia algumas vezes. No disco ao vivo, a gente não tem isso.

O que eu tive foi um tempo para pensar primeiro com o Rodrigo Gorky e com o Benke Ferraz o tipo de composição que a gente ia fazer e nas músicas que eu já tinha. E todas foram pensadas a partir do ao vivo. Quando decidimos fazer o disco, tudo foi pensado para o ao vivo, para o momento do play.

A atenção vai existir igual no dia da gravação, no pré e no pós. Depois tem que fazer capa, tem que fazer mix, assessoria e tal. Isso tudo também é importante, mas, no fazer artístico, são coisas diferentes. O ao vivo traz mais uma atenção. Quando você tem duas diárias para gravar, é mais fácil. O ao vivo é um take só. Por isso, acho que o ao vivo é mais tenso.

Pode dar uma merda e tudo pode acontecer, e tudo pode acontecer mesmo. E, sendo maravilhoso, tomara que tudo aconteça mesmo. Isso é a vida. O palco é o lugar onde eu consigo expor minhas maluquices e expor as pessoas também. O palco, para mim, é o momento da vida que não tem como voltar atrás. E eu queria registrar o que quer que fosse. Se desse uma merda do caralho, eu ia gostar de registrar do mesmo jeito. Eu fui para isso e foi para isso que eu fiz, para registrar uma performance.

E a performance na vida e na noite, tem dia que é bom e tem dia que é ruim. Eu teria ficado mais tenso se não soubesse que esse disco é o registro de uma performance. Nem tudo está certo, nem todos os acordes funcionam bem, nem todos os acordes foram dados de maneira correta, mas é sobre isso também.

Ao vivo e em estúdio, quem é músico sabe, tudo pode dar muito certo e muito errado. E as duas são difíceis.

Como foi trabalhar com Rodrigo Gorky e Benke Ferraz?

Foi muito maravilhoso, porque, inclusive, para chegar nesse repertório, ele me fez, por exemplo, fazer versões de várias músicas clássicas da MPB, como músicas de Nando Reis, músicas de Preta Gil, música de Adriana Calcanhotto, música do Lulu Santos, repertórios mais populares. Eu não entendia isso no começo, mas era para me colocar em um corpo mais tranquilo, e isso mexeu com a minha própria composição.

Foi um tipo de direção bem provocativa, que sempre me leva e me pede o limite do que eu não consigo fazer. E isso casa com a minha ideia de fazer arte, de desafio, de sempre me colocar em um lugar diferente, de colocar meu corpo na fogueira.

E o encontro com o Gorky também fez com que eu pensasse tudo esteticamente e trocasse figurinhas sobre incertezas, depois de gravar tantos discos com instrumentação e com muitas maquiagens e montagens. Nebulosa Baby e o disco do Ederaldo têm muito a ver com isso.

Ele me propôs que eu tirasse tudo e fizesse de outra forma. Foi muito importante porque eu estava mesmo procurando algo novo e fez com que eu despertasse um caminho para Coração disparado.

E com o Benke Ferraz eu estou junto desde 2018, desde Mix$take. Ele é meu parceiro. A gente tem uma afinidade ideológica, que é o principal da nossa relação. A gente tem uma parceria de produção que vai durar muito tempo. A gente se encontra em um lugar de muita identificação, não só em como fazer a música, mas pensando em formas diferentes de distribuição e como continuar fazendo isso sem precisar enganar ninguém, e para plataformas que realmente dão lugar para o nosso trabalho. Esse tipo de conversa junta a gente e isso nunca vai acabar.

Coração disparado vai ter parte II?

Isso! Vai ter, sim. Esse é um disco que chega em duas partes. A primeira, ao vivo, e a segunda, em estúdio.

A gente já começou a compor esse disco, eu e Benke. Inclusive, tem a música “Coração disparado”, que não está no disco ao vivo, mas vai estar no disco de estúdio. Uma ou duas músicas irão se repetir. Terá participação da Luiza Lian, que será de outra forma.

E ainda esse ano a gente vai entrar em estúdio para que, ano que vem, a gente consiga lançar a segunda parte do Coração disparado.

Isso também foi uma coisa muito pensada pelo Gorky, que lembrou de alguns trabalhos da Marisa Monte e dos Paralamas do Sucesso, que tinham uma parte ao vivo e um material de singles.

Como se sente ao completar 10 anos de carreira?

Eu acho que estou em um lugar mais confortável hoje. Eu sou alguém que vem da periferia e ainda tem vários estigmas que me perseguem, estão comigo e não vão acabar. Eu fiquei muito tempo pensando que existia um modelo certo de fazer as coisas. E, em determinado momento, até pensei em modificar a minha música, enquadrar ela, andar com certas pessoas.

Mas eu entendi que, se você não cresce no mesmo colégio daquelas pessoas, se você não tem o mesmo contrato social, não adianta nada. Vai dar merda. O jeito mais certo de fazer é o próprio jeito, criar o próprio modelo. É o que eu estou fazendo agora. O meu jeito de fazer é o jeito ao qual o mercado precisará se adequar para me ouvir. É a gente que gira essa roda.

Hoje eu estou muito mais confortável de não estar em certos lugares, de não tirar certas fotos, de não estar com certas pessoas. Eu achei que isso me faria falta, mas não faz.

Hoje eu fico feliz por ser reconhecido. E eu acho que é preciso ser reconhecido, olho no olho, por várias pessoas que eu admiro. Eu sinto que sou um artista de consistência, tenho um trabalho que não vai acabar amanhã ou depois. Eu sinto que vou ficar trabalhando e produzindo durante muito tempo da minha vida. E eu tenho muito orgulho disso, de ter minha cabeça erguida, de ter a música comigo sempre. E ninguém pode falar nada de mim. Eu me sinto muito mais confortável agora.

Muitas vezes, as coisas que eu digo no show me tiram de várias listas, de vários lugares, de festas, de premiações ou o que quer que seja. Mas isso não me incomoda mais, porque eu estou abraçando quem me abraça e esse é o mais importante. E ter essa clareza e essa alegria de que o que importa é a música bem feita, e isso eu vou continuar fazendo.

Uma vez, eu encontrei o Jards Macalé na saída de um show. Eu estava saindo e ele estava entrando. Quando ele entrou, todo mundo estava gritando o nome dele e ele fez um comentário: “Olha que viagem, garoto, as pessoas ficam gritando meu nome, mas ninguém nunca se importou com o que eu fiz.” Eu respondi: “Como assim?” Ele disse: “Vou te contar um segredo: você coloca um copo vazio todo dia no mesmo lugar, as pessoas começam a acreditar que naquele copo tem alguma coisa e elas começam a tomar aquilo.”

Então, eu entendi que esse é o meu caminho, parecido com o dele. As dificuldades existem e toda semana a gente pensa em desistir, mas existem outras coisas. Eu também não estou aqui só por mim, eu estou aqui também pela minha família, pelas pessoas que crescem no mesmo lugar que eu cresci, e isso, para mim, é muito mais importante. A música é uma ferramenta de modificação da nossa realidade.

Eu posso até parar de vender música algum dia, mas eu vou fazer música para sempre. Eu estou conseguindo criar a minha própria redoma e o meu próprio caminho, e isso é muito importante para que a gente não dependa de pessoas que não querem nos ajudar.



Por Midia Ninja

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