De Berlim ao Alemão: Cia. REC apresentou a força de Lavagem no Sesc Pompeia

Portal Inhaí
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Por Vinicius Francisco

“Uma semana eu estou em Berlim. Na outra, estou dentro do Complexo do Alemão no meio de uma operação policial.”

A frase de Tuany Nascimento, artista da Cia. REC e uma das criadoras de Lavagem, ajuda a traduzir parte das contradições que atravessam a companhia e o próprio espetáculo, apresentado entre os dias 20 e 23 de agosto no Sesc Pompeia, em São Paulo.

Em cena, seis artistas dividem o espaço com baldes, água, sabão e espuma. Alan Ferreira, Hiltinho Fantástico, Katiany Correia, Rômulo Galvão, Tony Hewerton e Tuany Nascimento

O gesto cotidiano de lavar se repete até deixar de ser banal. Os corpos são molhados, cobertos e atravessados por imagens que remetem a trabalho, êxodo, rituais, renascimento, desigualdade e resistência.

Crédito: Christopher Mavric

A pergunta que paira sobre a obra é simples apenas na aparência: o que precisa ser limpo?

A sujeira de uma casa? Os rastros da história? As marcas da desigualdade? As hierarquias que determinam quem serve, quem é servido, quem pode circular e quem permanece preso a um lugar social?

Em Lavagem, realidade e fantasia se misturam. A espuma cria beleza, mas também pode esconder. As bolhas constroem por alguns instantes um universo de sonho que contrasta com uma realidade onde a mobilidade social continua distante para grande parte da população.

Para Tuany, aquilo que aparece no palco está diretamente ligado à própria história.

“Quando penso nas minhas vivências, no meu território e no trabalho, acho que Lavagem é memória de muita coisa que eu vi e vivi. Quase tudo da minha história está dentro dele.”

Algumas cenas a levam de volta à infância e às lembranças da mãe trabalhando como faxineira.

“Tem cenas que me remetem muito a coisas que vivi com a minha mãe, de fazer faxina na casa de outras pessoas e depois voltar para dentro da favela. Esse trajeto atravessava a minha infância.”

Para ela, a repetição dos movimentos também carrega a memória de um trabalho exaustivo e da tentativa constante de seguir em frente.

“Essa tentativa de se reerguer, de renascer a partir de um trabalho repetitivo e exaustivo, são coisas que ficam da minha essência dentro do espetáculo.”

Crédito: Arquivo pessoal

Um corpo negro coberto por espuma branca. A origem de Lavagem também parte das experiências dos próprios artistas da companhia. Segundo a diretora Alice Ripoll, foi Alan Ferreira quem trouxe a primeira imagem que começaria a dar forma ao espetáculo.

“Ele falou: ‘Estou imaginando uma cena de um corpo negro com uma espuma branca’.”

A imagem abriu caminho para outras memórias. Alan trouxe histórias de mães, avós e outras mulheres da família que passaram parte da vida trabalhando com limpeza. Ao mesmo tempo, surgiu uma contradição histórica: a associação racista entre corpos negros e a ideia de sujeira.

“Esse foi o pontapé inicial”, explica Alice.

A partir dali, outras camadas foram construídas coletivamente. A ideia original é de Alan Ferreira e a criação de Lavagem é assinada por ele ao lado de Hiltinho Fantástico, Katiany Correia, Rômulo Galvão, Tony Hewerton e Tuany Nascimento.

Alice explica que esse processo coletivo faz parte da própria maneira de trabalhar da Cia. REC.

“A gente nunca trabalhou de uma maneira em que eu crio uma coreografia e ensino para eles. A criação acontece muito a partir das coisas que eles estão trazendo.”

Para a diretora, isso permite que cada artista preserve sua individualidade dentro do coletivo.

“Eles não estão ali reproduzindo a coreografia de uma coreógrafa. Estão se expressando através daquela movimentação.”

Uma companhia que nasceu do desejo de continuar

A história da Cia. REC começou há mais de 15 anos, depois que Alice passou a dar aulas de dança para jovens por meio de uma ONG no Rio de Janeiro.

Crédito: Christopher Mavric

Quando aquela parceria terminou, eles decidiram continuar juntos.

Não havia patrocínio, turnê internacional ou um projeto pronto esperando pelo grupo.

“Eu tinha vontade de pesquisar direção e eles tinham vontade de dançar. A gente teve um afeto muito forte e o desejo de continuar juntos”, conta Alice.

Vieram as primeiras criações, os festivais brasileiros e, posteriormente, uma trajetória que levou a companhia a importantes espaços internacionais, como o Centre Pompidou, na França; Kunstenfestivaldesarts, na Bélgica; Wiener Festwochen, na Áustria; Kampnagel, na Alemanha; e Zürcher Theater Spektakel, na Suíça.

Alice, no entanto, rejeita uma narrativa simplificada de superação.

Ela reconhece que sua formação e sua origem social são diferentes das trajetórias dos artistas com quem começou a trabalhar.

“Eu não nasci na favela. Venho de outro contexto e tive uma formação mais tradicional em dança contemporânea. Não dá para dizer que foi simplesmente um grupo que veio da favela e fez esse caminho sozinho, porque as dificuldades seriam muito maiores.”

A diretora cita ferramentas que fazem diferença na possibilidade de circulação de um artista, como falar inglês, saber elaborar projetos e conhecer determinados códigos do circuito cultural.

“A gente não pode fechar os olhos para isso. Ainda existe esse abismo.”

Circular pelo mundo não apaga a desigualdade, esse abismo aparece de maneira concreta na trajetória de Tuany. Moradora do Complexo do Alemão, ela conta que viajar pelo mundo através da dança significa alcançar lugares que durante muito tempo pareciam impossíveis.

“Para quem vem do território de onde eu venho, às vezes pensar em sair do próprio estado já parece muito. Quando você percebe que está saindo do seu país através da arte, é realizar sonhos que pareciam impossíveis.”

Mas sair também significa voltar.

“Quando volto para a minha favela com uma mala cheia de histórias, conhecimento e culturas diferentes que conheci pelo mundo, consigo ser um exemplo palpável para quem está ali.”

Tuany não transforma essa conquista em uma narrativa de meritocracia.

“Eu ainda sou invisibilizada em alguns lugares. Ainda sinto a desigualdade gritar do meu lado quando estou no meu país e, principalmente, quando estou fora dele.”

Uma dessas barreiras aparece no próprio idioma.

“Eu ainda não falo inglês fluentemente porque não tive esse conhecimento dentro das escolas no ensino fundamental e médio.”

É nesse contexto que ela resume uma das principais contradições de sua trajetória:

“Quando a gente fala de um artista periférico que está circulando o mundo, ele ainda não venceu.”

Para Tuany, conseguir uma oportunidade é diferente de ter condições para construir uma carreira.

“O artista que está dentro da favela precisa sobreviver para esperar as coisas acontecerem. E sobreviver não permite necessariamente que ele vivencie a arte de forma plena.”

Ela conhece bailarinos que precisam escolher entre continuar estudando dança e aceitar outros trabalhos para colocar comida na mesa.

Tuany dança desde os cinco anos, mas só aos 25 conseguiu viver profissionalmente da arte.

Foram 20 anos. Hoje, ao conversar com jovens de sua comunidade, ela insiste na importância da formação.

“Conhecimento ninguém tira de você.”

E completa:

“Você pode ter uma oportunidade e vivê-la uma vez só. É o estudo contínuo, do corpo, do intelecto, da técnica e do emocional, que vai te garantir continuar ali.”

Reconhecimento internacional, estrutura precária no Brasil. A dificuldade de permanência não está apenas na trajetória individual dos artistas.

Segundo Alice Ripoll, apesar da extensa circulação internacional, a Cia. REC não possui patrocínio permanente. São as apresentações e turnês que ajudam a manter o grupo.

“Na Europa, quando eu falo que a gente não tem um patrocínio constante, eles ficam: ‘mas como assim?’. A conta não fecha.”

Alice afirma que a REC chega a apresentar seus trabalhos mais vezes fora do Brasil do que dentro do próprio país.

Lavagem é um exemplo emblemático.

O espetáculo já atravessou diferentes países e chegou até o Japão, mas, segundo a diretora, nunca foi apresentado no Rio de Janeiro, cidade onde foi criado.

“Você vê que loucura. Foi para muitos países, chegou até o Japão e nunca conseguiu ser apresentado no Rio.”

Para Alice, a situação revela um problema estrutural da dança no país.

“Para qualquer companhia de dança é uma luta muito grande conseguir continuidade e circular pelo Brasil.”

Os bastidores do espetáculo 

Manter  uma companhia em circulação já é um desafio, colocar Lavagem em pé exige uma operação própria. Quem acompanha esse processo de perto é Joana D’Aguiar, diretora de produção do espetáculo.

Crédito: Arquivo pessoal

“Produzir esse espetáculo, como produzir qualquer coisa da companhia, sempre é um desafio porque tem muita demanda. Aqui é muita água, uma lona gigantesca, muito balde, muita gente para cuidar”, conta.

Lavagem não foi pensado para a estrutura convencional de um palco. Isso exige que a equipe se adapte a cada espaço por onde passa.

“Em geral, a maioria dos espaços que a gente chega não tem estrutura. A gente não está no teatro convencional, não está no palco italiano, então é sempre um desafio.”

Joana se define como “a novata” dentro de uma companhia que trabalha junta há muitos anos. Para ela, a força da produção está justamente no caráter coletivo.

“Tem uma parceria muito grande entre todo mundo nessa coisa do fazer acontecer. Está todo mundo sempre muito junto e querendo realmente fazer acontecer.”

No Brasil, essa união ganha ainda mais importância.

“É sempre tão difícil produzir qualquer coisa e a gente se apresenta tão pouco aqui que, quando tem essa oportunidade, todo mundo agarra muito. A gente faz acontecer junto.”

Para Joana, isso não torna o trabalho menor, mas o torna mais possível.

“O trabalho de produção como um todo é muito complicado, é pesado, mas fica mais fácil quando todo mundo faz junto, nesse espírito de companhia mesmo. É muito trabalho, mas fica com mais leveza.”

A passagem pelo Sesc Pompeia foi uma dessas poucas oportunidades de o público brasileiro encontrar um trabalho que já percorreu diferentes partes do mundo.

Ao assistir a Lavagem em São Paulo, a força visual da água e da espuma chama atenção imediatamente. Mas, conforme os movimentos se repetem, o ato de lavar passa a carregar outras dimensões.

Crédito: Sergio Fernandes

Há beleza, mas também exaustão. Há sonho, mas também trabalho. Há corpos cobertos pela espuma e histórias que se recusam a desaparecer.

Talvez seja justamente aí que a trajetória da Cia. REC encontre a potência de Lavagem: artistas que atravessam fronteiras sem apagar os territórios de onde vêm e transformam suas experiências em linguagem artística.

De Berlim ao Alemão, do Japão a São Paulo, os quilômetros percorridos são muitos. Mas algumas distâncias sociais ainda permanecem muito maiores.

Próximos passos da Cia. REC

A temporada de Lavagem no Sesc Pompeia terminou em 23 de agosto. Quem quiser acompanhar novas apresentações da obra pode seguir a Cia. REC nas redes sociais @companhiarec e nos canais oficiais da companhia. 

A próxima parada internacional confirmada será com Adorno, novo espetáculo da Cia. REC, no KYOTO EXPERIMENT 2026, no Japão.

Adorno | Alice Ripoll / Cia. REC

17 e 18 de outubro de 2026
KYOTO EXPERIMENT 2026
Kyoto Prefectural Citizens’ Hall ALTI
Kyoto, Japão



Por Midia Ninja

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