Chemsex, prazer e saúde mental: Dr. Lucas Rocker analisa estudos apresentados na AIDS 2026

Portal Inhaí
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Por Vinicius Francisco

A discussão sobre chemsex na AIDS 2026 não começou com uma ordem para abandonar as drogas. Começou com outra pergunta: que lugar a substância passou a ocupar na vida de quem a usa?

Durante a cobertura da conferência no Rio de Janeiro, entrevistei o infectologista Lucas Rocker, que também participava do congresso realizado pela International AIDS Society (IAS). Entre as apresentações que mais chamaram sua atenção estava o Project IMPACT, pesquisa que investigou se o cuidado em saúde mental poderia ajudar a reduzir o consumo de estimulantes e situações de exposição ao HIV.

Chemsex é o uso intencional de substâncias antes ou durante o sexo para facilitar, prolongar ou intensificar a experiência. O termo não é um diagnóstico e não significa, por si só, dependência, perda de controle ou necessidade de tratamento. O Project IMPACT analisou uma situação mais específica dentro desse universo: homens gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens, que não viviam com HIV e apresentavam transtorno relacionado ao uso de estimulantes.

Realizado nos Estados Unidos, em Boston e Miami, entre 2017 e 2024, o estudo acompanhou 121 participantes. Entre as substâncias consideradas estimulantes estavam a metanfetamina, a cocaína em pó e o crack.

Todos receberam inicialmente duas sessões de aconselhamento voltadas à prevenção do HIV. As conversas tratavam de situações concretas, como relações anais sem preservativo em períodos nos quais a PrEP não estava sendo utilizada de maneira consistente, inclusive durante o consumo de estimulantes.

Depois dessas duas sessões, os participantes foram divididos em dois grupos. Um permaneceu apenas com o aconselhamento inicial, chamado de atendimento padrão pelos pesquisadores. O outro recebeu, além desse atendimento, oito sessões de ativação comportamental, uma estratégia da terapia cognitivo-comportamental.

Na prática, a ativação comportamental ajuda a pessoa a identificar atividades, relações e projetos que perderam espaço em sua vida e a reconstruir, gradualmente, outras fontes de prazer e realização. Segundo Rocker, cerca de 95% dos participantes do IMPACT relataram perda de interesse em outras atividades. Quando a substância se torna uma das únicas formas de obter prazer, conexão ou desinibição, simplesmente ordenar que alguém interrompa o consumo não resolve o que existe ao redor dele.

“Não se trata simplesmente de dizer para a pessoa parar de usar drogas, mas de ajudá-la a construir uma vida que seja novamente capaz de oferecer prazer e significado sem depender exclusivamente da substância”, afirma Rocker.

Após 12 meses, o grupo que recebeu as oito sessões de ativação comportamental apresentou uma taxa 71% menor de episódios relatados de sexo anal sem preservativo e sem uso consistente da PrEP, na comparação com o grupo que ficou apenas com o aconselhamento inicial. Quando esses episódios ocorreram durante o uso de estimulantes, a taxa foi 74% menor.

Nos quatro meses anteriores à última avaliação, o grupo da intervenção também registrou um número 87% maior de dias sem consumo de metanfetamina, cocaína ou crack.

Esses percentuais comparam as taxas observadas nos dois grupos. Não significam que 71% dos participantes deixaram de fazer sexo, nem que o estudo tenha registrado uma redução de 71% nos diagnósticos de HIV. O que a pesquisa mediu foram comportamentos relatados pelos participantes e a frequência de dias sem uso das substâncias.

Para Rocker, o principal resultado não está em transformar a abstinência em única medida de sucesso. Está em mostrar que prevenção do HIV, saúde mental, sexualidade e redução de danos podem fazer parte do mesmo cuidado, desde que as necessidades de cada pessoa sejam respeitadas.

Quando o uso começa a pedir cuidado

Os resultados do Project IMPACT não autorizam tratar todas as pessoas que praticam chemsex como dependentes ou incapazes de decidir sobre a própria vida. Essa distinção é central para Lucas Rocker.

“O simples fato de usar uma substância durante o sexo não significa, por si só, que exista um problema concreto”, afirma.

Crédito: Vinicius Francisco

Na prática clínica, o médico procura entender se a pessoa ainda consegue controlar ou interromper o consumo e se a substância começou a comprometer sua autonomia. Abandono de atividades importantes, conflitos nas relações, faltas no trabalho, perda do emprego, dificuldades financeiras e mudanças intensas de humor estão entre os sinais de alerta.

A avaliação também deve incluir perguntas sobre violência, situações de maior vulnerabilidade e experiências sexuais que, posteriormente, a pessoa percebe que não gostaria de ter vivido. Outro ponto é saber se o consumo está interferindo na prevenção combinada do HIV, como a continuidade da PrEP, o uso de preservativos, a testagem e o acompanhamento de saúde.

No caso da metanfetamina, Rocker alerta que o uso frequente e prolongado também pode estar associado a alterações de memória, atenção, julgamento e capacidade de tomar decisões. O cuidado, portanto, não deve partir de uma condenação ao chemsex, mas do sofrimento, dos prejuízos e da perda de autonomia relatados por cada pessoa.

O peso do estigma sobre a saúde mental

Rocker também chama atenção para um contexto que costuma desaparecer quando o debate se limita à droga. Segundo ele, dados do estudo All of Us, publicados em 2025 a partir da análise de quase 270 mil participantes, indicaram maior prevalência de diagnósticos de saúde mental entre pessoas LGBTQIAPN+ em comparação com pessoas que não fazem parte da comunidade.

Para o infectologista, parte dessa diferença pode ser compreendida pela teoria do estresse minoritário. A identidade LGBT não é a causa do sofrimento psíquico. O problema está na exposição contínua à violência, à rejeição e à discriminação.

“Vivemos em uma sociedade ainda marcada por estigma, preconceito e discriminação, que podem gerar estressores crônicos ao longo da vida”, explica.

Essas experiências podem ser internalizadas e afetar a forma como alguém se relaciona consigo, com outras pessoas e com as próprias fontes de prazer. Em alguns casos, as substâncias passam a funcionar como uma tentativa de enfrentar o sofrimento, buscar conexão ou diminuir inibições, inclusive durante o sexo.

O SUS já tem uma rede, mas ela precisa conseguir acolher

Para Rocker, intervenções como a do Project IMPACT poderiam ser incorporadas aos serviços brasileiros, desde que não fossem reduzidas a uma consulta isolada ou à recomendação para interromper o uso.

O Sistema Único de Saúde possui uma rede de atenção à saúde mental formada, entre outros equipamentos, pelos Centros de Atenção Psicossocial, os CAPS. Existem também unidades voltadas ao cuidado relacionado ao álcool e a outras drogas, conhecidas como CAPS AD.

A existência desses serviços, no entanto, não resolve sozinha o problema. Segundo o infectologista, eles precisam ser mais acessíveis e atrativos para pessoas LGBT e para quem usa substâncias. Isso exige profissionais preparados para escutar relatos sobre sexualidade e drogas sem constrangimento, julgamento ou ameaça.

O acompanhamento poderia envolver psicólogos, psiquiatras, infectologistas, profissionais de enfermagem, assistência social, saúde sexual e redução de danos. Rocker também defende investimento permanente em educação continuada e a participação de educadores de pares, pessoas capazes de aproximar os serviços das comunidades a partir de experiências, linguagens e realidades compartilhadas.

Ele ressalta ainda a necessidade de valorizar esses profissionais, com melhores condições de trabalho, remuneração e atualização técnica.

“Não podemos esperar que o paciente se adapte ao serviço; o serviço é que precisa ser capaz de se adaptar às necessidades do paciente”, afirma.

No Quênia, o cuidado com o trauma entrou no tratamento do HIV

Outra apresentação acompanhada por Lucas Rocker na AIDS 2026 mostrou como o cuidado em saúde mental pode produzir efeitos que ultrapassam o consultório de psicologia.

A pesquisa apresentada por Mildred Mudany, da Help REACH Africa, avaliou, no Quênia, a Accelerated Resolution Therapy, uma psicoterapia breve voltada ao cuidado de pessoas que viveram experiências traumáticas. O estudo piloto reuniu 60 participantes de populações-chave e treinou 24 profissionais para aplicar a intervenção.

Os resultados mostraram redução de 55% nos sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, de 47% nos sintomas de depressão e de 42% nos sintomas de ansiedade. Também foram observadas melhoras em indicadores relacionados ao acompanhamento do HIV.

A pesquisa partiu de uma realidade na qual trauma, estigma, violência e discriminação podem afetar tanto a saúde mental quanto a continuidade do tratamento.

“Cuidar da saúde mental não deve ser visto como algo separado do cuidado do HIV, mas como parte importante da própria resposta à epidemia”, diz Rocker.

A sociedade também faz parte dessa resposta

Saí da entrevista com Lucas Rocker com uma pergunta que também precisa chegar à sociedade: por que, quando sexo e drogas aparecem na mesma frase, nossa primeira reação ainda costuma ser o julgamento, e não o cuidado?

Chemsex não é uma experiência única. Algumas pessoas usam substâncias durante o sexo sem relatar prejuízos ou perda de autonomia. Outras começam a abandonar atividades, enfrentar problemas no trabalho, perder vínculos, vivenciar situações de violência ou deixar de utilizar estratégias de prevenção do HIV. Tratar todas essas experiências da mesma maneira não protege ninguém.

A sociedade também precisa entender que estigma não é prevenção. Vergonha e medo podem silenciar quem precisa falar sobre o que está vivendo e afastar pessoas da PrEP, da PEP, da testagem, da redução de danos e do cuidado em saúde mental.

O Brasil tem o SUS, os CAPS e uma política de prevenção combinada reconhecida internacionalmente. Mas uma política pública só existe de verdade quando as pessoas conseguem acessá-la e se sentem seguras para contar, sem medo de punição ou constrangimento, como vivem sua sexualidade e sua relação com as substâncias.

As pesquisas apresentadas na AIDS 2026 mostram que o cuidado em saúde mental não pode entrar apenas quando a vida já está em crise. Ele precisa estar presente na prevenção, no tratamento do HIV e nos serviços que atendem pessoas LGBTQIAPN+ e pessoas que usam drogas.

A ciência apresentou caminhos. Agora, cabe aos gestores, aos profissionais de saúde, aos comunicadores e à sociedade transformar esse conhecimento em cuidado acessível, sem moralismo e sem deixar ninguém sozinho.



Por Midia Ninja

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