Aposta do novíssimo post-rock brasileiro, projeto Cães de Prata lança álbum inédito insubordinado à canção

Portal Inhaí
6 Min Read


Num contraponto geográfico, Mateus, que vive em São Paulo desde 2023, compôs as oito faixas que formam Um Ano aos Estilhaços (ouça por completo aqui) justamente em suas temporadas em Maceió. Esse distanciamento possibilitou que o álbum respirasse outros ares além dos paulistas, com as canções vestindo, de alguma maneira, “uma roupa formada por essa mudança de espaços”, ele diz.

Aterrado, mas com momentos mais livres, Um Ano aos Estilhaços ouça e veja o visualizer aqui expande-se por diferentes fases, alternando ruídos e texturas, delicadeza e intensidade, traduzindo uma rota de ansiedade, “quase depressiva, mas que encontra uma saída”, reflete Mateus.

As duas primeiras músicas — “Um Ano aos Estilhaços” e “Dez de Espadas” — abrem o álbum sob uma atmosfera de crise, situação que as demais canções buscam solucionar. Essas tentativas culminam na última delas — “Cavalo desde ontem” —, cujo verso final — “nem só podemos morrer” — conclui a obra com uma perspectiva menos densa, “numa sensação de alívio, deixando tudo às claras”, ele pondera.

A amplitude d’A Cães de Prata não se projetou somente nas perspectivas craqueladas do eu lírico de Um Ano aos Estilhaços. O perfil de produtor musical de Mateus veio à tona novamente, repetindo o que já havia se dado no álbum anterior d’A Cães de Prata, Cassius e Sonny, lançado em 2023. “Quando lancei ‘Nocaute’, meu primeiro álbum, em 2021, fiquei restrito à composição, dirigindo uma produção coletiva com cada um dos músicos, mas, no trabalho seguinte, comecei a explorar mais o lado da produção em si, botando a mão na massa mesmo”, ele completa. “Neste de agora, participei da produção de todas as canções, além de ter assinado parte dos arranjos de ‘Um Truque’, ‘Dez de Espadas’ e ‘Fumaça’”.

Capa de “Um Ano aos Estilhaços” por Paula Raro

Iniciada em Maceió e concluída em São Paulo, a produção musical de Um Ano aos Estilhaços é assinada coletivamente por Mateus, em parceria com Allen Alencar (Casa Embura — SP), Felippe “Chase” Pereira (azul azul/Tropical Estúdio — AL) e Joaquim Prado (Tropical Estúdio — AL). Somente a faixa “Gás dos Outros” traz João Viegas (Raça/Bola Pesada — SP) na produção. A mixagem e a masterização são da multiartista Anna Vis.

“Segui por uma lógica de invenção, virando a canção pelo avesso, sabe? Gosto de pensar nos takes mais espontâneos, do que pode acontecer na música ao esticarmos esses limites”, continua Mateus. “Os demais produtores me ajudaram muito nessa construção também. Allen [Alencar] sacou o uso não convencional que eu queria dar pra guitarra. O Felipe [‘Chase’ Pereira] me conhece há muito tempo, me ajudou a entender as canções e evitar que elas ficassem modorrentas. O João [Viegas] fez a direção vocal, criou um ambiente confortável, enquanto o Joaquim [Prado] fez a captação da performance, numa fotografia minuciosa e precisa de um álbum com começo, meio e fim. Sinto que essa captação foi fundamental para que o álbum desenvolvesse este arco completo”, celebra o artista.

Ele também destaca o trabalho de mixagem e masterização feito por Anna Vis, que, nas palavras dele, é uma pessoa “obstinada pelo som”. E completa: “Temos essa experiência compartilhada, de caçar o que é melhor para cada estética. Acho que ela compreendeu o espaço sonoro que propus no álbum e foi atrás disso, música por música”. Outro ponto que merece atenção é a capa do álbum, extraída da imagem original “Cornucópia de Vidro”, da artista visual portuguesa Paula Raro. O pedaço de vidro que estampa Um Ano aos Estilhaços foi escolhido pelo seu ar misterioso, que devora a curiosidade apenas ao ser mirado.

Fugindo das possibilidades de docilizar a canção, Um Ano aos Estilhaços se posta na lista de lançamentos nacionais de 2026 como um sopro fresco a se inspirar no rock atual. Os diálogos temáticos e estéticos abertos pel’A Cães de Prata com Television, Arnaldo Antunes, Fagner, Zé Ramalho e Gang of Four estão ali, mas não se restringem somente a isso.

A imagem de Um Ano aos Estilhaços é sua própria metáfora: cacos espalhados pelo chão, refletindo distintos anseios de Mateus. Mas, quando absorvidos sob um mesmo prisma de escuta, soam coesos. Segundo Mateus, este álbum “traz uma unidade estética que pode fazer deste disco uma porta de entrada para o meu trabalho, que as pessoas podem escutar e gostar”.



Por Midia Ninja

Share This Article
Nenhum comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *