A cantora e compositora Alhocca mergulha em suas raízes em seu mais novo trabalho, o álbum visual “Rainha”, já disponível em todos os apps de música. O disco reúne oito faixas enraizadas na rica diversidade da música popular brasileira e a narrativa visual desdobra-se em cinco videoclipes – que serão disponibilizados no YouTube – que pintam o cotidiano afetivo de uma casa de mulheres, tendo como pano de fundo uma feijoada comunitária que reúne mãe, filhas e amigos. O trabalho retrata a caminhada que parte da ancestralidade materna e culmina na coroação pessoal e na autoiluminação.
A identidade sonora do disco traduz-se em uma união de ritmos afro-brasileiros e regionais com uma estética contemporânea. A instrumentação tradicional dialoga diretamente com guitarras, synths marcantes e linhas de baixo, criando arranjos que equilibram tradição e modernidade. Ao longo da obra, a artista percorre gêneros como baião, pagode, samba, repente, afrobeat e forró pé-de-serra, construindo uma assinatura musical autêntica.
O processo criativo
A construção do álbum começou de forma espontânea. Durante uma viagem de carro pelo interior de Minas Gerais ao lado do marido, o casal decidiu escutar faixas aleatórias na rádio para descobrir novos artistas. Quando ouviu um repente no meio da programação, a artista sentiu a provocação de testar o gênero, nascendo ali as rimas iniciais de “Mulher Virando Cobra“. A composição ficou guardada até que, de volta à rotina, nasceu “A Preta Chegou” com uma estrutura pensada originalmente como cantiga de roda em looping, mas que naturalmente pediu o arranjo de um samba.
“E, a partir daí, a gente percebeu que havia a possibilidade de fazer um álbum de brasilidades, onde a gente pudesse expressar nossas ancestralidades e as sonoridades mais brasileiras”, declara Alhocca.
O repertório abre com “Mainha a me guiar”, um baião vibrante que honra os aprendizados maternos e encerra com bênçãos em iorubá. Em seguida, o pagode “Desculpinhas”, gravado em parceria com a sambista Dhi Ribeiro, traz um tom bem-humorado de celebração à amizade e à autonomia. O samba ganha espaço em “A preta chegou”, canção que trata de renascimento e despedida de ciclos desgastados. O tom ganha densidade em “Mulher Virando Cobra”, um repente afiado amparado por guitarras distorcidas que evoca a metamorfose do poder feminino. Na faixa-título “Rainha”, um afrobeat introspectivo com arranjos de trompas simboliza a tomada de controle do próprio destino. Como bônus, temos o forró “A lua espia”, o Amapiano “Loba” e o Macumbeat “Sonho Ancestral” que fecha o repertório oferecendo esperança em um novo mundo.
O processo de criação exigiu da cantora um estudo atento sobre os grandes mestres do gênero para estruturar as faixas, usando referências que vão da essência dos brincantes à estética de grupos ícones como o Fundo de Quintal. Para ela, abordar pertencimento e as múltiplas nuances da beleza feminina serviu como uma verdadeira escola de maturidade musical e pessoal. “Então, esse foi um álbum que me fez aprender muito e evoluir muito como artista, e ainda trouxe uma camada a mais pro meu trabalho que eu acho que é fundamental para que as pessoas possam me conhecer”, pontua.
Acessibilidade
Outro pilar central de “Rainha” é a acessibilidade, garantindo que os videoclipes venham acompanhados de tradução em Libras, audiodescrição e legendas. A motivação veio dos tempos de graduação em Dança, ao conviver com um colega de turma surdo. A experiência a fez questionar as barreiras na difusão da arte e a necessidade de buscar saídas criativas para alcançar públicos diversos.
“Quando eu tive a oportunidade de ter Libras, audiodescrição e legendas nesse projeto, eu fiquei emocionada, porque é algo que, pra mim, é importante. Porque essas pessoas, e diversas pessoas, consomem de formas diferentes, e é um caminho da gente se desafiar a ser criativo nas nossas criações e nos nossos fazeres artísticos para alcançar novas pessoas e de formas diferentes. Então, pra mim, foi uma grande oportunidade e, se eu puder, vou fazer sempre”, declara a artista.
Produzido com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC), do Distrito Federal, Alhocca espera ver as canções fazendo parte da vida das pessoas de forma leve, servindo tanto para dançar quanto para confortar o coração através das mensagens que espalhou pelas faixas. “Quero que esse álbum seja tão natural quanto a luz do dia, que as pessoas possam se envolver da forma como eu me envolvi fazendo essas músicas. Eu coloquei frases que me ajudam a seguir adiante em algumas partes do trabalho e acho que compartilhar isso, tem valor, porque em algum momento compartilharam comigo e eu estou aqui, firme e forte”, finaliza.
Faixa a Faixa:
1. Mainha a me guiar
Um baião vibrante que é um tributo à força matriarcal. A voz de Alhocca ecoa aprendizados ancestrais, honrando a mãe que guia suas filhas pelos caminhos do Brasil. A faixa é um farol de resistência e amor, encerrando com bênçãos em iorubá para proteção e sorte. Uma abertura poderosa que estabelece o tom sagrado e familiar de toda a jornada.
2. Desculpinhas (part. Dhi Ribeiro)
Encontro explosivo de vozes em um pagode contagiante. Alhocca e sua inspiração, Dhi Ribeiro, declaram seu desejo de viver a caixinha de surpresas da vida. A letra é um repertório hilário de “desculpinhas” para fazer apenas o que se quer, numa energia de tarde de feijoadas e caipirinhas com samba que não tem hora para acabar. Pura celebração da autonomia e da amizade.
3. A preta chegou
Samba de despedida e renascimento. Aqui, Alhocca diz adeus a relações que não servem mais, abrindo espaço para uma vida mais brilhante. A força vem da conexão com os orixás e antepassados, criando um hino sobre não ter medo de ser forte e seguir em frente. É a beleza de recomeçar, realizar sonhos carregando o amor próprio como maior herança.
4. Mulher virando cobra
Repente enérgico e cortante como uma lâmina. A faixa cria um conto folclórico moderno onde a mulher, direta em suas palavras, se transforma em chama e poder. As rimas são rápidas e afiadas, apoiadas por guitarras distorcidas, num aviso sonoro: “não mexe comigo”. É a metamorfose em força pura, uma declaração de poder inquestionável.
5. Rainha
Afrobeat introspectivo que é um diálogo entre o eu do passado e o presente. A artista questiona sua jornada, a certeza do caminho e o preço de ser quem é. A resposta é um soar de trompas triunfais: ela atravessa como dona de seu destino, indiferente às línguas alheias. O título não é dado, é conquistado. A coroação final de uma epopeia pessoal.
Bônus: A lua espia
Presente para os ouvintes: um forró pé-de-serra dançante e relaxante. Fala sobre valorizar o tempo simples, o bem-estar e um “amor gostoso” que nasce de dentro para fora. É um convite para curtir a vida com leveza, sob o olhar sereno da lua.
Bônus: Loba
Presente para os ouvintes: um Amapiano com muito sotaque brasileiro na percussão e no contrabaixo. A letra descreve uma bela moça brasileira que se destaca por seu poder pessoal e presença impactante.
Bônus: Sonho Ancestral
Presente para os ouvintes: neste Macumbeat o que se sobressai são as palavras de resistência, consciência e esperança. É uma faixa para envolver o ouvinte na sensação de pertencer a algo maior. Um chamado para se entender com o passado como uma possibilidade para um futuro feliz.
Sobre Alhocca:
Alhocca é cantora, compositora e performer afrocentrada com formação em dança com 36 músicas autorais lançadas desde 2023 e 22 videoclipes produzidos de forma autônoma e 5 pelo FAC (que estreiam no YouTube em 28 de agosto de 2026). Sua arte é um manifesto de autonomia preta e feminina. Vencedora em 2024 do Festival Cine de Expressão (Melhor Videoclipe do Centro-Oeste com “Sem Tempo pra Brincar”) e em 2025 do 8º Prêmio Profissionais da Música (Criação Centro-Oeste POP). EP “Malvada Filosofia” com versão live session aclamada. Passou pelos palcos dos festivais Favela Talks, BBDW, Festival Consciência Negra e da renomada casa de show Infinu. Idealizadora e produtora do evento “O Baile Começa Aqui”. Seu trabalho tem sido destacado em veículos como SomTemporâneo e exibido na TV Câmara e TV Futura, consolidando-a como uma voz urgente de sua geração. Atualmente em produção de álbum visual com recursos do Fundo de Apoio à Cultura (FAC).
