Por Iuri Guilherme Santos Leite
Na música “Poente Cigana”, do Grupo Agreste (montes-clarense), tem um verso certeiro que diz: “Não chega a ser um pontinho preto no mapa, mas quando a gente se afasta, o coração pede pra voltar.” Essa música representa o sentimento de todos os montes-clarenses que têm suas raízes fincadas no chão rachado do Norte de Minas, mas que não vivem mais por lá.
As poucas e distantes memórias de uma infância, que não são só minhas, são de uma geração inteira, em que as Festas de Agosto, respectivamente, os Catopês, Marujos e Caboclinhos, eram uma tradição nas famílias. Quem tivesse a possibilidade assistia às festas ao vivo, na região central da cidade. Porém, a tradição não se resumia aos cortejos de rua. Era de costume, nas escolas, no mês de agosto, os alunos criarem seus próprios acessórios referentes aos grupos, com tinta, recortes e fitas coloridas. Não era apenas um passatempo, era educação e cultura como alternativa às mazelas sociais.

Há 185 anos, as Festas de Agosto de Montes Claros celebram a cultura popular, a tradição e a fé. Apesar de ainda não serem consideradas Patrimônio Imaterial da União, nem mesmo feriado municipal, nesse período, a cidade se torna o centro de uma das maiores manifestações culturais do Norte de Minas.
Os ternos de Catopês, Marujos e Caboclinhos saem às ruas sob um céu de fitas coloridas e o vibrado das caixas em couro, que anunciam a passagem das guardas que atravessam a cidade em cortejos. Um espetáculo para quem acompanha de perto. Para quem desfila, no caso, os congadeiros, é um momento de afirmação, um ato de resistência, memória e manutenção da ancestralidade que demarca a perseverança. Essa manifestação cultural é uma herança do povo negro, dos povos originários que habitavam a região. Dos trabalhadores que colocaram cada tijolo na construção de Montes Claros. É um festejo que, na sua raiz, foi construído pelo povo trabalhador, com outras faces, mas os mesmos que o mantêm vivo.
As Festas de Agosto de Montes Claros são o nosso orgulho, pertencimento. Essas palavras expressam um sentimento de pertencimento. Proporcionalmente, em grande escala, em abundância, assim como são as comidas típicas regionais, como o arroz com pequi, a carne de sol, o tropeiro, o suco de coquinho, a manga e mais.

Há poucos documentos que registram o surgimento das Festas de Agosto em Montes Claros e, respectivamente, dos ternos. Entretanto, a oralidade e a sabedoria do povo catrumano são a fonte mais legítima que existe. Quem vive a história conta sobre ela.
Esse registro tem como inspiração momentos de diálogo e escuta com o Mestre Zanza Júnior, Mestre do Primeiro Terno de Catopês de Nossa Senhora do Rosário de Montes Claros. Em suas falas, ele sempre traz para a reflexão uma característica fundamental, que é a diversidade dos povos, de seus saberes e de sua identidade, que as Festas de Agosto carregam.
Mestre Zanza Júnior não nos deixa esquecer a memória e o legado de seu pai, o saudoso Mestre Zanza, fundador da Associação dos Grupos de Catopês, Marujos e Caboclinhos de Montes Claros.
Catopês, Marujos e Caboclinhos são, por si só, um acontecimento. Esses ternos, que, apesar de serem notados por muitos somente em agosto, atuam o ano inteiro, por meio da Associação dos Grupos de Catopês, Marujos e Caboclinhos, com uma sabedoria ancestral e coletiva. Fundada em 1987 pelo Mestre Zanza, que nos deixou no ano de 2021, atualmente a associação é dirigida por Mestre Guga, do 1º Grupo de Marujada.
Mestre Zanza, nosso farol. Uma referência que deixou um legado irretocável, marcado pela autoridade dada pela história. A memória de Mestre Zanza é um norte, um lastro. É preciso outro texto só para falar sobre ele.
185 anos não é pouca coisa. No livro “Montes Claros: sua história, sua gente, seus costumes”, do médico, folclorista e historiador cultural montes-clarense Hermes de Paula, no capítulo “Festas de Agosto”, ele documenta: “A mais antiga notícia sobre o assunto é datada de 23 de maio de 1839, quando ‘Marcelino Alves pediu licença pra tirar esmolas para as festas de Nossa Senhora do Rosário e Divino Espírito Santo, que pretendia fazer nesta freguesia’. Nessa não se especificam as festas, mas, quando se comemorou a coroação de Dom Pedro II, em 8 de setembro de 1841, depois do cortejo ou passeata, com a efígie do imperador, foram permitidos vários divertimentos durante três dias: ‘Catopês, cavalhadas, volantis e quaisquer outros divertimentos que não ofendam a moral pública’.” Em termos de registros oficiais, esse é um dos principais dados que existem.

Esse livro é uma obra fiel sobre Montes Claros em toda a sua conjuntura histórica. Em 2025, a Editora Unimontes publicou uma nova edição, preservando a autoria do escritor. Está disponível para download gratuito no site da editora. Encerro esse parágrafo fazendo um convite para a leitura desse livro. É uma aula de história em detalhes sobre a cidade.
Um outro elemento curiosamente relevante é que, no surgimento dos grupos, apenas homens podiam integrar os ternos. Hoje, as mulheres são parte das guardas, inclusive em espaços de direção, como é o caso do Terno de Caboclinhos, liderado pela Cacicona Socorro. Bem como Janine Silva, mulher, catopezeira, que é uma liderança reconhecida da Associação e pelas comunidades. Ela foi uma das responsáveis pelo roteiro e pela pesquisa do documentário oficial produzido pela Associação, “Festas de Agosto em Montes Claros – Ritos, Tradição, Religiosidade e Ancestralidade”, lançado em maio de 2026.
Esse compromisso social que a Associação e os ternos assumiram, abrindo espaços para as mulheres, reflete a capacidade de quem acompanha o tempo, entendendo as mulheres como protagonistas. Antes da intelectualidade academicista e branca falar sobre feminismo, o povo de tradição já estava à frente do tempo.
As cores, as penas, as fardas e estandartes, os capacetes de fitas, o canto e as danças são características originais de cada grupo, com aspectos que conectam a regionalidade e a fé. Da mesma forma, constituem-se como uma expressão singular do congado, dos reinados e irmandades, identidade cultural no Brasil inteiro.
Esses festejos homenageiam Nossa Senhora do Rosário, historicamente reconhecida como protetora dos negros que foram escravizados e de seus descendentes. São Benedito, um santo de pele negra, também é uma figura de devoção às irmandades negras e afro-brasileiras. O Divino Espírito Santo, diferente das referências anteriores, representa o Espírito Santo, simbolizado por uma pomba branca.
A cultura de um povo é a maior riqueza que ele possui. Escolher invisibilizar e não investir é matar, propositalmente. Há quem tenha medo do povo empoderado de sua história. Essa invisibilidade são feridas abertas dos 350 anos de escravidão do povo negro. As Festas de Agosto de Montes Claros são as veias desse território, abençoado pela Serra do Mel, que sofre não pelo sol que brilha mais forte, mas pelo isolamento social, econômico e, sobretudo, político e coronelista.
A cultura é o que nos mantém vivos.
Não à toa, começo essa memória dizendo que, em agosto, Montes Claros se torna o coração do mundo, porque quem carrega a força do pequizeiro reconhece que é a cultura que nos mantém vivos.
É uma sensação que não se encerra quando o último terno desfila, mas enxerga, naquele instante, o orgulho de pertencer e a certeza de que ano que vem tem mais.
Vida longa às Festas de Agosto de Montes Claros, à Associação dos Catopês, Marujos e Caboclinhos. Máximo respeito aos que se foram, saúde aos que seguem firmes, levantando os mastros e trazendo brilho nos olhos dos norte-mineiros.
Iuri Guilherme Santos Leite é comunicador político e social e graduando em Marketing, com experiência em comunicação de movimentos sociais e assessoria parlamentar e institucional. Nascido em Montes Claros, no Norte de Minas Gerais, atualmente vive em Belo Horizonte.
