- Quando começou a escrever de forma literária?
- Em qual momento começou a pensar em publicar e a se entender como autor?
- Como tratar paisagens feridas foi publicado durante a pandemia. Como foi esse processo?
- Você já conhecia o mercado editorial antes de publicar seu primeiro livro?
- Qual é a maior dificuldade para fazer literatura no Brasil?
- O que diria para quem quer se tornar escritor?
- Qual é a importância do lugar onde você nasceu para a sua literatura, que, inclusive, é o título de um dos seus livros?
- Em que projeto está trabalhando atualmente?
Por Kaio Phelipe
Escritor e artista visual, Rafael Amorim é autor de Como tratar paisagens feridas (Garamond, 2021), com o qual venceu a 4ª edição do Prêmio Rio de Literatura, Matrimônio (Margem Edições, 2021) e Santíssimo (Urutau, 2023). O autor faz da Zona Oeste do Rio de Janeiro o ponto de partida de uma escrita que investiga as complexidades do cotidiano. Combinando prosa e poesia, há um aspecto de permanente deslocamento em sua literatura.
Em entrevista para a Mídia Ninja, Rafael Amorim relembra o início da relação com a escrita, fala sobre o impacto da publicação de seu primeiro livro durante a pandemia, comenta os desafios de fazer literatura no Brasil, os primeiros autores da comunidade LGBTQIA+ com quem teve contato e reflete sobre a importância do lugar onde nasceu para sua criação. O escritor também adianta detalhes de Fruta ainda quente de sol, livro ainda inédito que considera a obra que sempre quis escrever.
Quando começou a escrever de forma literária?
É muito difícil dar um passo atrás para tentar entender o que eu chamava de escrita e o que eu considerava escrita literária ou mesmo poética.
A memória mais antiga que eu tenho, pensando na escrita como gênero textual, é durante o ensino fundamental, em alguns concursos de redação incentivados por uma professora de literatura chamada Rôssi Alves, que hoje é uma superpesquisadora do subúrbio carioca. E isso é muito curioso, pensando em como nossos caminhos se encontram hoje e como se encontraram naquele momento em que eu era aluno dela.
Nunca cheguei a ganhar nenhum concurso desses, mas é a primeira lembrança que tenho de quando precisei elaborar a escrita e chamar de alguma coisa.
Eu sempre gostei muito de ler. Então, antes de me entender como escritor, eu sempre me entendi como leitor, e isso foi o que fez toda a diferença, e é o que me faz pensar em estética literária até hoje.
Em qual momento começou a pensar em publicar e a se entender como autor?
Talvez eu tenha demorado a me autolegitimar como autor. Foi só com a publicação do meu primeiro livro, e acho que só entendi isso porque ganhei um prêmio.
Durante o processo de escrita do próprio livro, passei por muitos momentos de insegurança no que eu estava criando, já que ele é um livro híbrido, entre prosa poética, poesia e conto. Nesse processo, ainda não me entendia como escritor ou autor de algo, me via só experimentando.
A partir do momento em que o livro foi publicado e as pessoas começaram a ler, comecei a entender que fazia sentido me colocar como escritor. Saber que alguém estava lendo e ser impactado pelo retorno de quem me lia me deixava mais confortável no lugar de escritor.

Como tratar paisagens feridas foi publicado durante a pandemia. Como foi esse processo?
Acho que a pandemia aumentou a relação das pessoas com as redes sociais e, à medida que isso aconteceu, aumentou também a relação das pessoas com a literatura. De certa forma, o livro só circulou porque existia uma audiência muito massiva em várias redes sociais.
Acho que Como tratar paisagens feridas é um livro do tempo dele. Talvez, se fosse publicado hoje, ele teria uma outra cara, uma outra tônica.
Particularmente, tenho tentado aprender a conviver com ele. É um livro que já tem seis anos de publicação, e eu gosto e desgosto dele em medidas diferentes. Tenho aprendido, ou tentado aprender, a reconhecê-lo como um processo daquele momento.
Foi importante que ele tenha ganhado um prêmio e que tenha sido publicado naquele momento. É o que eu poderia oferecer naquele contexto. Se fosse hoje, ele teria uma outra forma. É um livro muito pessoal, cheio de vontade de falar umas poucas e boas, sabe, mas com pouco lugar para a ficção, e tenho me interessado muito mais em pensar de maneira ficcional.
Você já conhecia o mercado editorial antes de publicar seu primeiro livro?
Não conhecia nada do mercado editorial até a publicação de Como tratar paisagens feridas. Eu conhecia poucas pessoas que haviam sido publicadas, até mesmo por editoras independentes. Eu não fazia parte de um círculo muito próximo de autores. Talvez tivesse um ou dois amigos que já tivessem publicado algo, mas ainda tinha um distanciamento do que eu via como possibilidade.
A partir de 2021, tive mais contatos com outros autores, mas continuava sem saber como funcionava o mercado editorial. E também não tinha repertório em relação a prêmios, não era algo que estava no meu horizonte.
A ideia de um prêmio voltado para a literatura e a ideia de conquistá-lo me colocavam em um lugar de suspensão, era muito distante.
Até hoje eu não entendo exatamente o que é literatura queer. Tenho um certo incômodo com a palavra queer enquanto categoria estética. O que é que caracteriza uma literatura queer? É o autor ou a narrativa? São tensionamentos que me interessam pensar, ainda que a partir de incômodos.
Mas o primeiro contato, sem sombra de dúvidas, foi lá no final da primeira década dos anos 2000, com Nelson Luiz Carvalho e O terceiro travesseiro. Acho que descobri esse livro em blogs ou comunidades do Orkut. Eu não sabia nada sobre literatura homoerótica ou homoafetiva. Ainda que eu tenha lido recentemente e entendido algumas problemáticas dentro dele, O terceiro travesseiro foi um marco no tipo de literatura que passei a consumir depois dele. Ele é um marco fundamental não só para mim, mas para uma geração de leitores interessados em pensar a dissidência na literatura.
Mas tem um outro exemplo que gosto muito, que talvez seja o segundo livro que li dentro desse guarda-chuva que seria a literatura queer, que é Rato, do Luís Capucho, que, para mim, já coloca a literatura em outro patamar. Porque não tem só uma preocupação com a narrativa, mas também pensa em forma e na camada dos personagens. O Luís tem uma facilidade muito grande de falar de afeto a partir de um lugar do cotidiano. Ler Rato no final da adolescência me possibilitou também pensar no cotidiano como narrativa, e é o que venho fazendo até hoje.
Qual é a maior dificuldade para fazer literatura no Brasil?
Eu não sei se tenho uma resposta muito objetiva, mas a gente ainda carece de recursos e incentivos. Quando pensamos em uma literatura produzida fora dos centros geográficos e simbólicos, é ainda mais difícil.
Entender como está sendo falado para as gerações mais jovens que elas podem escrever um livro, como isso está sendo passado, também é um ponto importante.
Não existe um único modo de literatura, e não vou ser reducionista ou nostálgico e falar que a geração atual trocou os livros pelas telas, porque acho que não faz mais sentido falar sobre isso. Estamos pensando em outras possibilidades e formas de experimentação.
Então, acredito que o incentivo à escrita e os recursos para que ela se realize são alguns dos grandes problemas a serem discutidos, resolvidos, etc.
O que diria para quem quer se tornar escritor?
Para acreditar no processo e entendê-lo como parte fundamental do que pode ser um livro. E também para experimentar mais e pensar o livro para além da publicação. Acho que esse é o conselho que eu gostaria de ter escutado de alguém. Outro conselho que acho importante e que me dou hoje é: vai ver o mundo, e não só no sentido geográfico. Vai encontrar as pessoas, pesquisar, ler, criar repertório e se relacionar com quem já escreveu o tipo de literatura que você quer escrever.
Qual é a importância do lugar onde você nasceu para a sua literatura, que, inclusive, é o título de um dos seus livros?
Santíssimo é a gênese de tudo o que eu escrevi até hoje. O mundo que eu conheço é desenhado a partir do subúrbio e de Santíssimo. É mais do que um território imensamente complexo. É o lugar onde aprendi a ser gente e, consequentemente, a me colocar por escrito.
Santíssimo, o livro, né, não tem nenhum poema sobre o bairro em si, mas me interessava pensar em um jogo de palavras e pensar no significado do que é ser santíssimo, e escrever um livro com referências ao cristianismo, misturar isso com as memórias de uma criança viada na periferia e no subúrbio, as experiências de trânsito na cidade para conseguir viver sua sexualidade com o mínimo de dignidade… Não é um livro sobre o bairro, mas foi escrito a partir do bairro, de dentro dele.
Em que projeto está trabalhando atualmente?
Ainda não havia falado sobre isso publicamente. Em relação à literatura, é um próximo livro de poemas, mas que tem algo de híbrido também… meio ficção, meio outra coisa. Espero publicar ainda esse ano. Ele tem muito a ver com O Sertão carioca, que é um livro de 1936 e que narra de forma bem minuciosa uma parte da Zona Oeste.
Mas, dessa vez, diferente de Santíssimo, o livro novo trabalha mais exclusivamente as relações dentro da Zona Oeste.
O título é Fruta ainda quente de sol. Ainda não tem editora e é um livro que venho revisitando bastante. Acho que é o livro que eu sempre quis escrever e o livro que nasci para ter escrito.
