Ventura Profana: por que todo cuidado é pouco?

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Por Júlia Clarindo

Ventura, do latim, é o que ainda está por vir — raiz de “bem-aventurança”, a palavra que a tradição bíblica usa para traduzir as bênçãos do Sermão da Montanha: bem-aventurados os pobres de espírito, os mansos, os que têm fome e sede de justiça. Profana, também do latim, é o que segue do lado de fora do templo, o que nunca foi separado para o sagrado. No próprio nome artístico, Ventura Profana parece condensar o que sustenta toda a sua obra: pegar a promessa evangélica e recusar deixá-la presa dentro dos muros de um templo que nunca teve lugar para travestis.

A teóloga argentina Marcella Althaus-Reid, primeira mulher a ocupar uma cátedra na Universidade de Edimburgo em 160 anos de história da instituição, chamava de “decente” toda teologia que finge não escolher nenhum corpo, mas que, sob a superfície dessa neutralidade, sempre elegeu o branco, hétero, de classe média. Ser indecente, para ela, era o gesto de expor essa escolha e reconstruir a fé a partir de quem tinha sido deixado de fora dela. Ventura pratica essa indecência quando desmonta a palavra “Senhor” até encontrar, atrás dela, o senhor de engenho; ou quando troca esse Senhor por Deize, um Deus que atravessa a própria transição de gênero ao lado de quem o invoca.

Nascida em Salvador, em 1993, e criada em Catu, no interior da Bahia, Ventura Profana é pastora numa tradição e abiã, ainda por nascer, no candomblé. Transita entre multilinguagens artísticas, que já passaram por espaços como o MASP, a Bienal de São Paulo, a Serpentine, em Londres, e a Pinacoteca. Na música, o registro mais recente é o álbum Todo Cuidado É Pouco.

J: Sua estética e sua oratória vêm da vivência missionária. Como foi o processo de começar a questionar a estrutura racista e patriarcal das próprias escrituras que te formaram?

V: Eu sinto que, obviamente, talvez a estética e a oratória venham antes do processo em si. Eu nasci dentro da igreja, nesse contexto, e, por muito tempo, essa era a única verdade que eu conhecia. Havia uma série de fatores que me faziam amar aquele espaço, inclusive a possibilidade de me relacionar com a criação, seja através da música, do louvor, seja através do teatro dentro das igrejas. Essas condições, sobretudo quando você nasce em territórios onde a cultura e a arte não estão tão presentes enquanto política pública, fazem com que a igreja acabe ocupando esse espaço, esse lugar onde você pode se relacionar com a criação. O carinho por essa possibilidade de produzir e criar vem antes dos meus questionamentos.

Os questionamentos chegam a partir do momento em que eu começo a reconhecer que a minha presença só é benquista quando eu negocio aquilo que, mais tarde, vou entender como inegociável e que é a maior força da minha vida, aquilo que me possibilita ser quem eu sou: a minha liberdade e a minha travestilidade. O fato de eu ser uma pessoa trans, uma dissidente de uma dinâmica heteronormativa, me coloca à parte. Me afasta da igreja. Me empurra para um lugar de condenação. Então eu abandono aquilo que a gente pode entender como um casulo, como uma fortaleza, e vou habitar a terra dos condenados, de certa forma. Porque, dentro dessa dinâmica, a igreja funciona quase como um abrigo: ela abriga as pessoas, mas, ao mesmo tempo, as obriga a possuir uma conduta equivalente a uma interpretação bíblica.

Hoje eu percebo que existem milhares de formas de interpretar um texto, qualquer texto, e, a partir da Bíblia, é possível produzir diversas interpretações. A grande problemática é que as tradições cristãs que chegam até o Brasil têm um interesse escravocrata, e a teologia vai atender a esse interesse. Qual o objetivo? Controlar pessoas. Esvaziá-las de si, de suas autonomias, de seus desejos, formar pessoas completamente suscetíveis à manipulação. É um processo daquilo que eu entendo como escravização espiritual. Elas passam a ser servas do Senhor. Que Senhor é esse? O que esse Senhor deseja? Ele deseja tudo o que essas pessoas têm.

J: Por que a subversão da palavra, como trocar o “Senhor” pela travesti e colocar Exu no evangelho, se tornou o seu método central?

V: Palavra é uma tecnologia de linguagem. Meu primeiro incômodo é com a palavra “Senhor”. Quando a gente pensa historicamente quem eram os senhores, a gente tem plena convicção de que está falando de senhores de latifúndios: homens brancos, cisgêneros, heterossexuais, responsáveis por organizar um sistema brutal, baseado na violência racial. Era muito complicado para mim me relacionar com Deus, porque a primeira palavra que você aprende a falar, quando nasce na igreja e vai orar, é Senhor.

Existe uma urgência de buscarmos outros significados, outras palavras para aquilo que queremos reconhecer como Deus. Não é justo que Deus seja um Senhor, porque um Senhor é responsável pela barbárie. O que eu digo é: Deus não pode ser aquele que nos liberta e, ao mesmo tempo, o nosso algoz. Não faz sentido. Quando penso no Evangelho Jesuíno, que é pautado na liberdade, na liberação, na construção de um corpo distante do cativeiro e da condenação, isso nada tem a ver com a palavra do Senhor.

Eu, Ventura, prefiro me conectar com a vida em si. Quando penso em Deus, o significado maior de Deus, para mim, é a vida. Por isso faz sentido esse jogo quase de lavagem de palavras. Deize é como se fosse esse Deus depois de um processo de transição; um Deus que, em vez de nos condenar por sermos travestis, por sermos pessoas trans, experimenta o processo de transição junto com a gente.

Palavras existem para ser disputadas, para ser lapidadas. A gente precisa garantir que a nossa comunicação seja cirúrgica, seja lasciva. É importante tomar algumas palavras para si e, ao mesmo tempo, é importante destruir muitas outras.

J: Você é pastora numa tradição e abiã, ainda por nascer, em outra. O que significa carregar ao mesmo tempo a autoridade de quem já foi consagrada e a humildade de quem está apenas começando, dentro do mesmo corpo?

V: Eu sinto que a coisa mais linda que existe é você ter um caminho de aprendizado pela frente. Enquanto abiã, eu me sinto muito feliz por não saber e ter a oportunidade de aprender. É um território que me ensina a não me cobrar, porque existe uma cultura do saber tudo, de que precisamos ter todas as respostas. E essa não é a verdade. Existem milhares de respostas, inúmeras formas de fazer a vida acontecer.

Eu acho que ser pastora me ajuda a ser uma abiã melhor, porque consigo entender o peso e a responsabilidade da liderança — isso me dá mais respeito e empatia pelos meus mais velhos no candomblé, pelas pessoas que estão acima de mim na hierarquia. E, por pertencer também a um lugar de aprendiz, eu não preciso ocupar o lugar de quem detém todas as respostas. Tenho certeza de que não sei de nada. Posso entender muito bem determinado território e, ao chegar em outro, não saber nem como andar. Essa obrigatoriedade do super saber é um grande problema. No final das contas, é muito melhor não saber das coisas, para ter a oportunidade de aprender, do que fingir para si que sabe e perder a chance de verdadeiramente saber.

Eu amo Candomblé e tenho sido muito transformada nele justamente por essas experiências. Eu tenho me reencontrado, de certa forma.

J: Hoje, seu trabalho está no MASP, na Bienal, na Serpentine de Londres, na Pinacoteca. O circuito de arte hegemônico tende a transformar artistas dissidentes em novos ídolos idealizados. Como você faz para que o mercado de arte não te transforme em um produto?

V: Todo artista precisa se conectar muito bem com a dúvida que move o seu trabalho. Qual a grande questão, o grande propósito do seu trabalho e da sua vida? Quando você tem consciência disso, sabe como se blindar dentro de um sistema brutal, que por vezes parece ser, e é, maior e mais poderoso que você. Você precisa guardar bem o seu tesouro, ter delineado o que é inegociável.

Para mim, a primeira coisa inegociável é que eu não vendo a minha vida pela arte. E, quando falo em vida, falo de muitas coisas: minha saúde mental, física, emocional, espiritual. Nenhuma dessas áreas é menos importante que o meu trabalho. Quando reconheço que o trabalho está ameaçando essas áreas, eu me retiro, custe o que custar.

Ao mesmo tempo, o artista precisa viver uma relação de sintonia radical com o que o próprio trabalho fala. O meu trabalho me conduz na vida e no mundo; às vezes, encontro respostas para as minhas inquietações de hoje dentro de processos que fiz há anos. É um campo minado, que requer muita cautela nas negociações, talvez por isso o nome do meu último trabalho seja “Todo Cuidado é Pouco”. Porque, por mais cuidadosa que você esteja, esse cuidado ainda é pequeno diante da demanda que o mundo provoca em nós. Não existe fórmula. A gente compartilha rotas de fuga, mas os caminhos estão sempre se transformando. Como diria a Kátia de França, você tem que sustentar a sua pisada. Se a sua pisada não se sustenta, amor, você vai cair.

Não estou disposta a negociar a minha paz de espírito. E, se faltar lugar para mim, eu acredito na minha habilidade de invenção: vou inventar um lugar onde eu possa caber, ou melhor, onde eu possa me espalhar, onde eu possa existir na minha totalidade, com liberdade. Me incomoda não poder falar sobre as coisas que a gente verdadeiramente pensa por medo de não ser compreendida. Às vezes, a gente não vai ser unânime, e você precisa sustentar muito bem aquilo que você é nesse mundo.

V: Tem uma experiência que me marcou muito: eu nunca achei que pudesse surfar. Eu olhava para o meu corpo e não sentia uma conexão direta com o surf. Até que, uma vez, morando no litoral, uma amiga foi para uma aula e me chamou. Na hora de sair de casa, pensei: foda-se, vou para a aula de surf.

E isso tem a ver com acesso, também. Eu me criei em Olaria; para sair de lá e surfar, eu teria que pegar um ônibus lotado, um trem, cruzar a cidade inteira até a Barra ou o Recreio. Não é muito prático para a gente. Mas foi uma das experiências mais lindas que já vivi: conseguir estabelecer uma relação de intimidade com as águas e o vento ao mesmo tempo, e com o próprio corpo. Você tem que estar ali, remando, e, na hora que sente que é o momento de levantar, vai justamente para onde está olhando. O que conduz a prancha é a direção para a qual você olha e para onde coloca o seu corpo.

Isso me ensinou a desejar viver o novo, o inesperado, o que surpreende. Sinto que tem um trabalho comigo mesma que é o de não me endurecer: não deixar de desejar, ficar confortável com a mudança, com o desconhecido. Eu desejo continuar criando, porque é isso que me oxigena, que me sustenta nesse mundo.

Um dos grandes riscos da vida é você se tornar uma caricatura, ficar perdida no personagem: “eu sou essa pessoa, eu faço isso, não posso fazer aquilo porque sou isso”. Essas categorias que a gente inventa para si mesma precisam ser implodidas, exorcizadas. Isso requer coragem, requer sacrifício. Talvez fosse mais confortável não ter ido surfar, porque era o que eu acreditava ser impossível. E eu fui. Esse gesto de coragem, esse “vamos lá e foda-se”, às vezes, isso é sagrado.

A memória daquele dia está no meu corpo e me inspira. Toda aquela história do que seja eterno enquanto dure permanece comigo.

Eu odeio o medo que paralisa, acho que é um dos piores sentimentos que podem nos afligir. Eu tento lutar contra ele, me lançar mesmo. Porque, uma vez que a gente está lá, descobre outras facetas: que pode falar, pode escrever, pode ser tímida e também extrovertida. A gente pode dançar entre esses polos. Ter mais generosidade com quem somos e com o que está ao nosso redor é a chave.



Por Midia Ninja

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