Gustavo Virissimo lança o álbum autoral “Reflexos”, encontro entre a música brasileira e o jazz contemporâneo

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Por Clarice Nilles

Se o circuito da música instrumental e seus apreciadores estão abertos a novidades e criações autorais, a nova geração já está aí, com belíssimos caminhos sonoros para apresentar. É esse o entusiasmo que temos ao ouvir Reflexos, álbum de estreia do guitarrista, compositor e produtor musical Gustavo Viríssimo. Nascido em Novo Hamburgo e radicado em Porto Alegre, com apenas 24 anos de idade, é o primeiro da família a se dedicar às artes.

Neste trabalho, já em circulação, Gustavo conseguiu reunir, de maneira magistral, sofisticados musicistas brasileiros e internacionais para acompanhar seu primeiro projeto como arranjador, com nomes como, para citar alguns, Giovanna Mottini, Marcelo Vaz, Lucas Fê e Dionísio Souza — três membros da banda gaúcha de “perifajazz” Kiai —, além do baixista cearense Michael Pipoquinha e do guitarrista norte-americano Adam Ratner. O álbum foi mixado por Antonio Flores e masterizado pelo gaúcho Marcos Abreu, profissional de áudio referência no Brasil, recentemente falecido, em julho deste ano.

Com fortes influências de Hermeto Pascoal, Guinga e Filó Machado, o álbum Reflexos recebeu esse título porque cada composição se origina — ou é reflexo — de um momento e de uma experiência particular da vida do artista, marcada por amizades e encontros em torno da música. Incorporando a voz como elemento tímbrico, presente não apenas nas canções, mas também nos arranjos das músicas instrumentais, Gustavo surpreende com uma abordagem centrada na improvisação. Lançado em junho deste ano, com show no Espaço Cultural 373, em Porto Alegre (RS), o trabalho, em sua completude, conduz a uma viagem sonora dinâmica, repleta de brilhos e emoções, que pede ouvidos atentos e revela uma magia especial quando apresentada ao vivo.

Essa percepção pode estar associada ao fato de o álbum ter sido gravado no estúdio Casa de Música Tec Áudio, por meio de uma grata parceria com o sócio Marcelo Corsetti, em encontros limitados a poucos dias de gravação. Variando de dois a seis takes para registrar cada faixa, essa limitação remete a um aspecto do jazz norte-americano dos anos 1960, quando era comum realizar gravações de modo que o improviso, o erro e a magia do encontro fizessem parte da criação final presente no fonograma.

Totalmente independente, realizado por meio da confiança e da aposta de todos que participaram, Reflexos apresenta composições que vão de 3 a 9 minutos, reunindo oito faixas que exploram diferentes ritmos brasileiros e internacionais, passando pelo frevo, baião, samba e jazz contemporâneo, com alguns momentos de canção e tendo a música instrumental como eixo central.

Fizemos um faixa a faixa para conhecer a história por trás de cada som.

Frevo para Belle (feat. Michael Pipoquinha)
“Foi incrível encontrar alguém tão virtuoso, impactou muito”, diz Gustavo sobre a participação especial do mestre Michael Pipoquinha, que conheceu durante um show em Porto Alegre. “É um frevo, algo que a Belle dizia, havia muito tempo, que queria. O tema é focado nas cordas, com harmonia e melodia que deixam espaço para a banda improvisar.”

Como Atriz e Ator
“Letra do parceiro de várias canções, amigo e colega de faculdade Xico Chagas, que escreveu observando o meu relacionamento romântico da época e pensando em como duas pessoas envolvidas acabavam, em algum momento, fingindo ser algo diferente do que são ou sentem.”

Into the Air (feat. Adam Ratner)
“Fiz um curso on-line com o Adam Ratner e, depois, quando ele veio a Porto Alegre, uma grande amiga, Giovanna Mottini, que também participa do álbum, nos apresentou. Ficamos amigos, tivemos afinidade musical, e eu o convidei para participar dessa música. Tentei compor uma música brasileira na harmonia, mas com influência do jazz tradicional norte-americano no groove, com uma pegada backbeat.”

Boca do Coisa Ruim
“Uma vez comentaram que essa música era uma mistura de brasilidade com bebop, e achei uma análise interessante. Pensei nela como uma homenagem ao Guinga, com um violão mais dissonante. Foi gravada em quatro takes, e coisas que, na época, me incomodariam, hoje entendo que fazem parte. Como a aceleração do tempo da música: não foi algo especificamente planejado. Veio de um erro, que também está nessa energia de tocar junto, olho no olho, na hora, sem ensaio.”

Solidança (feat. Kiai)
“Triste e lenta, com uma densidade que se sustenta. O som veio até mim, como acontece em muitas composições: eu escuto e escrevo. Foi feita em coautoria com os violonistas e compositores Hugo Kauã, do Maranhão, e Vinicius Marinho.”

Reflexos Sobre o Fim (feat. Kiai)
“Seria o ápice do álbum, por isso também o título semelhante. Compus quando estava pensando sobre a vida, com certa melancolia e raiva dos ‘fins’. Hoje estou compondo de um jeito bem diferente, mais simples, mas a virtuosidade que busquei nessa música representa um momento e caracteriza como eu estava na época dessa escrita, na universidade. É especial por isso também.”

Jean
“Fiz em homenagem ao meu pai. É alegre e adorável como ele. Conta com um solo sensível de flauta de Dudu Morlin e uma percussão criativa de Bruno Coelho, que também tocam em outras faixas. E aqui aparece um coro ‘do nada’: quem canta são amigas musicistas de quem sou fã — Letícia Roennau, Elisa Terra e Belle Mottini.”

Simbiótica (feat. Giovanna Mottini)
“A Giovanna participa dessa música na composição, tocando violão e cantando. Fizemos pensando em uma dupla de Brasília de que gostamos muito, Pedro Martins e Daniel Santiago. A voz aparece não apenas como um veículo para cantar a letra, mas também como uma parte importante na exploração de texturas dentro dos arranjos.”



Por Midia Ninja

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