Por Júlia Neves
Em um cenário global marcado por crises geopolíticas, retrocessos nos direitos humanos e ameaças ao financiamento de políticas públicas voltadas para as pessoas que vivem com HIV e Aids, Winnie Byanyima não hesita em apontar o dedo para as estruturas de poder que perpetuam a desigualdade. Diretora executiva do UNAIDS, a ativista ugandense tem sido uma das vozes mais incisivas na defesa de que a saúde não é um privilégio de mercado, mas um direito inegociável.
O jornalista e ativista Alberto Pereira Jr. participou da plenária de abertura da AIDS 2026 e, em colaboração com a Mídia NINJA, conduziu a entrevista com Winnie Byanyima durante a cobertura da Conferência Internacional, fomentando o debate sobre o futuro do combate à Aids, o impacto dos cortes de verbas internacionais, a força dos movimentos sociais e o papel do Brasil na linha de frente das transformações globais.
Winnie Byanyima — Eis a minha resposta: do ponto de vista científico, sim, é realista. Podemos alcançar isso porque temos a ciência. Temos todas as ferramentas de que precisamos, inclusive tecnologias de prevenção extraordinárias que estão por vir.
Politicamente, precisamos fazer as escolhas certas. Trata-se, portanto, de uma questão de escolhas políticas corretas, que se dividem em três áreas.
Primeiro, a solidariedade internacional para financiar a resposta. Ainda existem muitos países que não têm condições de custear seus programas de saúde e não possuem os meios para isso. A ajuda internacional entrou em colapso.
Os países estão tentando preencher essa lacuna. Não é fácil. Precisamos manter a assistência internacional e reestruturar a dívida, pois ela consome a maior parte dos recursos.
O segundo ponto diz respeito aos direitos. Se não tivermos força para proteger os direitos, as pessoas não se manifestarão.
Você sabe disso. Se você for preso, não fará o teste. Se for discriminado, humilhado, não continuará o tratamento. Os direitos humanos estão sendo deixados de lado. Precisamos avançar novamente na luta pelos direitos humanos para que as pessoas sejam atendidas.
O terceiro ponto é o acesso aos medicamentos inovadores para todos.
As empresas estão resistindo. Estão se recusando a licenciar a produção para todos os países e regiões, permitindo que produzam seus próprios medicamentos. Mas, se conseguirmos ampliar a produção desses novos medicamentos em larga escala, poderemos reverter a tendência de novas infecções, impedir mortes e acabar com a doença.
Portanto, trata-se de escolhas políticas, mas nós já temos a ciência.
Criou-se a impressão de que os países africanos mais pobres são totalmente financiados pela ajuda internacional. Isso não é verdade.
Na maioria desses países, em média, 60% da resposta ao HIV é financiada pelos próprios governos. Os 40% restantes vêm de recursos externos. Em primeiro lugar, portanto, esses países precisam continuar investindo mais recursos próprios. É difícil. Eles enfrentam restrições fiscais, como eu disse. Há um problema de endividamento, e ele não foi criado por eles.
A dívida multiplicou-se por quatro ou cinco devido a fatores externos, como a guerra na Ucrânia. A Ucrânia não fica perto da África. Fica muito longe. Mas, quando a guerra começou, as taxas de juros subiram. A COVID também provocou esse aumento. Assim, esses países passaram a enfrentar uma situação de endividamento.
Essa não é uma responsabilidade exclusivamente deles. Mas essa dívida precisa ser reestruturada para que possa ser paga de forma mais gradual, permitindo que sobrem recursos para a saúde. Portanto, parte da solução está no sistema internacional.
O sistema financeiro internacional é injusto. Quando um país africano recorre ao mercado para contrair empréstimos, pode pagar uma taxa de juros até oito vezes maior do que a cobrada da Alemanha. Isso é extremamente injusto.
Precisamos, portanto, equilibrar esse sistema financeiro internacional. Não se pode esperar que os países africanos financiem sozinhos sua resposta ao HIV, quando seus recursos estão sendo drenados por um sistema financeiro internacional injusto. Por isso, precisamos agir como comunidade internacional para liberar os recursos necessários para que a África possa ampliar seus investimentos. Ela já financia cerca de 60% da resposta. Esse percentual ainda vai aumentar.
Mas precisamos que a ajuda internacional continue, porque essa transição não acontece da noite para o dia.
Alberto Pereira Jr. — E o que o Brasil pode ensinar ao mundo?
Winnie Byanyima — Muita coisa. É por isso que continuo vindo ao Brasil. Acho que, nos últimos dois anos, estive aqui três vezes para aprender, me energizar e me inspirar. Este é o país onde o HIV foi tratado como uma emergência de saúde pública quando os antirretrovirais ainda estavam começando a ser disponibilizados.
O Brasil provou ao mundo que é possível alcançar o acesso universal aos antirretrovirais, produzindo e distribuindo esses medicamentos para toda a população. O país abriu caminho para que outras nações também tivessem acesso a eles. O Brasil lutou bravamente pela equidade no acesso.
O Brasil mantém quase 900 mil pessoas em tratamento. Não existe outro programa como esse. É o maior do mundo. Ele alcança as pessoas. Aqui, a pessoa é tratada como um ser humano, sem discriminação perante a lei. Assim, as populações-chave conseguem acessar os serviços.
Vocês têm os dados. Além disso, acompanham se todos os grupos raciais estão sendo contemplados. Sei que isso ainda representa um desafio, mas vocês conhecem o problema. Em outros países desta região, muitas vezes essas informações nem sequer são registradas.
Eu sei, por exemplo, que, no Brasil, as novas infecções têm diminuído de forma geral. Mas também sei que, entre pessoas negras, afro-brasileiras, elas têm aumentado. Vocês sabem disso porque monitoram os dados por grupos populacionais.
Se eu for para outro país, como a Colômbia, não consigo nem fazer essa análise, porque esses números simplesmente não existem.
Quando temos os dados, conseguimos identificar quem está adoecendo e quem está sendo deixado para trás. Sabemos, por exemplo, que muitos são afro-colombianos. Mas, sem números, não conseguimos dimensionar o problema. E, sem conhecer o problema, não podemos resolvê-lo.
Então, repito: é preciso construir uma resposta baseada em bons dados e evidências e seguir em frente a partir deles. É isso que queremos para o mundo todo. Há muito o que aprender aqui. Mas quero destacar um último ponto, talvez o mais importante.
Quando liderou a coalizão do G20, o Brasil priorizou a criação de uma aliança global para fortalecer a produção local e regional de medicamentos. E continua liderando esse processo, ajudando diferentes regiões, especialmente a África, a desenvolver sua própria capacidade de produção. O que poderia ser melhor do que isso? É um excelente exemplo de colaboração Sul-Sul e de liderança global para enfrentar os desafios da saúde.
O HIV é impulsionado pelas desigualdades.
É uma questão de injustiça. De desigualdades. Quando diferentes formas de desigualdade se sobrepõem, é aí que vemos os piores impactos.
Pelo que entendi dos seus dados, entre a população afro-brasileira há uma combinação de injustiça racial histórica, marcada por um longo legado de escravidão, pobreza e desigualdade econômica. Esses são dois eixos centrais.
E, se essa pessoa também for um afro-brasileiro gay, soma-se um terceiro eixo de desigualdade, relacionado à sexualidade e à identidade. Quando esses fatores se encontram, é nesse ponto que a vulnerabilidade se torna ainda maior.
Por isso, é preciso enfrentar essas desigualdades em todas as frentes: combater a pobreza e a desigualdade econômica, ampliar as oportunidades, garantir que os serviços de saúde funcionem para essas pessoas onde quer que estejam e enfrentar problemas associados à pobreza, como a violência, a violência sexual e outras formas de violência.
Creio que o governo brasileiro está ciente da necessidade de uma abordagem multissetorial. Conversei com o chefe de segurança das Nações Unidas, que me contou que, há cerca de duas semanas, foi divulgado o relatório anual sobre criminalidade. Ele explicou que os dados são desagregados por raça e gênero, permitindo identificar quem está mais exposto a determinados tipos de violência.
Fiquei muito triste ao ver que as mulheres afro-brasileiras, em termos numéricos, enfrentam as formas mais graves de violência. Mas conhecer o problema já significa ter dado um passo fundamental para resolvê-lo. Quando você sabe onde está o problema, sabe também por onde começar.
Sim, admiro o Brasil porque existe um compromisso em enfrentar as desigualdades. Há muitos anos acompanho os indicadores de desigualdade econômica em diferentes regiões, e a América Latina era a região mais desigual do mundo.
Mas, quando o presidente Lula estava no poder, foram implementadas políticas de proteção social, houve aumento do salário mínimo para um patamar adequado e ampliação do acesso universal à educação. Essas medidas fizeram do Brasil o país que mais rapidamente reduziu a desigualdade em toda a região.
Hoje, temos três grandes desafios na resposta ao HIV.
Uma delas é a solidariedade internacional para o financiamento. A segunda é aquela mesma: os direitos humanos. Os direitos humanos estão retrocedendo. Esse é o segundo grande desafio. O terceiro é o acesso a novos medicamentos. Em relação aos direitos humanos, precisamos mesmo voltar à forma como o movimento foi organizado no início.
E os líderes são sempre os que mais enfrentam os problemas. Por isso, queremos ver movimentos de homens gays, pessoas LGBTQ+, movimentos feministas, de mulheres, de mulheres afrodescendentes, de mulheres indígenas. Precisamos ver movimentos pelos direitos humanos.
Precisamos unir essas pessoas aos movimentos pela democracia. Porque essas pessoas que odeiam os outros por causa de sua identidade ou sexualidade também são contra a democracia. Elas andam juntas.
Portanto, os movimentos que lutam pela democracia, os movimentos que lutam pelos direitos de diferentes grupos precisam se unir novamente para pressionar. Porque os conservadores detratores estão conquistando o poder político. Eles estão conquistando o poder político. Estamos muito felizes aqui. Esperamos que sempre tenhamos uma liderança progressista. Mas precisamos apoiar uma luta política para restaurar a liderança progressista em nossos governos, a fim de retomarmos os avanços em direitos humanos.
Na ONU, vemos acordos firmados há 30 anos. Países que os assinaram há 30 anos agora dizem: “Queremos revogar a assinatura, não os queremos mais”. O que é isso?
Winnie Byanyima – Novamente, uma ótima pergunta. Você tem toda a razão. Quer dizer, quando pensamos no desafio dos direitos humanos, não se trata apenas de uma questão financeira. Quando dizemos “não criminalizem as relações entre pessoas do mesmo sexo”, devemos descriminalizá-las.
É apenas um pedaço de papel. Isso não custa nada. Mas eles se recusam. Portanto, é uma questão de mentalidade. Eles decidiram que essas pessoas não têm o direito de escolher quem querem amar. É uma mentalidade de dominação, de intolerância.
É uma mentalidade de superioridade, não de igualdade. E, portanto, as mentalidades precisam mudar. E é por isso que os movimentos são importantes. Os movimentos mudam mentalidades. Eles estabelecem normas, removem normas prejudiciais e as substituem por normas de solidariedade e de igualdade.
Sim, construir movimentos é muito importante. O que você faz é muito importante. Você realiza seu trabalho comunicando-se de forma muito poderosa através das redes sociais. Você é um reflexo da positividade de uma pessoa afrodescendente, um homem gay. Um homem que vive com HIV.
Winnie Byanyima — Vocês são uma nação multirracial que abraça a sua diversidade. Continuem a abraçar essa diversidade e a defender a igualdade. O Brasil tem sido, há muito tempo, um defensor da igualdade econômica, racial e de gênero. Continuem nesse caminho. Vocês são um exemplo brilhante. Eu chamei vocês de uma nação negra, e vocês são. Nós somos.
Ao reforçar que a luta por justiça social e saúde pública é um compromisso coletivo, Winnie Byanyima deixa um recado definitivo para quem constrói o ativismo todos os dias: o fim da epidemia de Aids só será possível com o protagonismo das vozes que sempre estiveram na linha de frente.
Confira a entrevista completa em vídeo no canal da Mídia NINJA no Youtube
