O Festival Bananada chega à edição de 2026 carregando mais do que um line-up — carrega a história de artistas que cresceram junto com ele. A banda Tuyo, Tulipa Ruiz e Felipe Cordeiro são três desses nomes: passaram pelo palco do festival em diferentes momentos da carreira e agora voltam em um ano que, para todos eles, já nasce histórico.
Viabilizado pela Lei Rouanet, com patrocínio da Petrobras e realização do Ministério da Cultura, o Bananada transformou esse investimento em algo mais amplo do que um festival de música.
O festival que formou quem hoje retorna
Quando uma banda sobe ao palco pela primeira vez, mal imagina que aquele momento pode se tornar parte fundamental do seu processo de formação artística. Isso se torna ainda mais evidente quando um artista ou grupo passa a marcar presença nas edições seguintes de um festival.
Em entrevista ao S.O.M, os três artistas não hesitam em descrever o Festival Bananada como uma das principais pontes para sua formação.
Para Lio, vocalista do Tuyo, a apresentação de 2019 foi um ponto de inflexão. “A atmosfera catártica nunca foi tão forte quanto naquela noite, e é difícil mensurar o quanto a gente se transformou a partir dali”, conta. A banda saiu de Curitiba com a expectativa de ampliar a audiência e encontrou algo diferente: “centenas de pessoas pareciam uma única criatura consoante, conectadas pelo sabor ambíguo universal que é estar vivo. Esse tipo de coisa muda a gente para sempre.”
Tulipa Ruiz enxerga o papel do festival com precisão: não como uma vitrine, mas como uma aposta. “A curadoria envolve acreditar em artistas pela consistência do trabalho até mesmo antes do reconhecimento do mercado”, afirma. “No meu caso, isso certamente contribuiu para ampliar a circulação da minha música e o reconhecimento do meu trabalho autoral.”
Felipe Cordeiro compartilha dessa leitura e acrescenta o olhar de quem observa a cena por dentro: “O Bananada tem uma curadoria inteligente, forte e realmente diversa. Por acontecer em Goiânia, também é diferente — tem uma sensibilidade descentralizada, e isso muda tudo.”
As memórias que ficaram
Peça a qualquer um dos três para descrever uma lembrança do festival, e as histórias chegam com detalhes que só o tempo guardou bem.
Lio lembra de uma edição de 2018, quando o Tuyo participou do show da cantora Bruna Mendez. “Fomos de carro de Curitiba até Goiânia numa viagem longuíssima e cheia de primeiras conversas sobre o que seria o Pra Curar, disco que executamos no show do ano seguinte.” O encontro forjou uma amizade que rendeu anos de parceria.
Tulipa carrega uma memória mais pessoal. Seu pai nasceu em Goiânia, mas saiu da cidade ainda bebê — e a primeira vez que voltou foi exatamente para assistir à estreia da filha no Bananada. “Ele ficou muito emocionado, e isso também emocionou todo o bando. Fizemos um showzão.”
Felipe guarda uma lembrança que atravessa gerações: o saudoso Miranda, apresentador histórico, anunciando sua entrada no palco na primeira apresentação. “Acho que o festival tem um público muito interessado em música brasileira e que fiz um público nele, pois, das vezes que voltei a Goiânia e a outras cidades, senti que tinha um público que vinha do Bananada.”
O que só um festival como esse consegue fazer
Festivais criam encontros que não aconteceriam em nenhum outro lugar. Os três têm exemplos precisos.
Tulipa encontrou João Donato no Bananada — e não foi um simples cruzamento de bastidores. Foi lá que estrearam a turnê que fariam juntos e lançaram o compacto gravado em parceria, com direção musical de Gustavo Ruiz e produção executiva de Fabrício Nobre. “O meu encontro com João Donato”, ela diz, sem precisar elaborar mais.
Lio lembra de outras histórias: “Primeira vez que vimos ao vivo O Novíssimo Edgar e ficamos embasbacados, backstage com a gente explicando pra Pabllo Vittar onde fica o camarim do Gilberto Gil.” A imagem diz tudo sobre o tipo de espaço que o Bananada ocupa: um lugar onde diferentes cenas se encontram e se reconhecem.
Felipe aponta o valor estrutural desse tipo de convivência: “Estamos realmente fazendo um trabalho de construção de uma cena mais ampla, que marca a música brasileira.”
2026: a colheita depois de anos de plantio
A edição deste ano tem um peso diferente para quem já esteve lá antes. O festival voltou após seis anos sem uma edição presencial — e quem acompanhou sua trajetória sente a dimensão do que isso representa.
“Quem acompanha a história do festival sabe que perseverar é o que fez essa edição de 2026 acontecer”, reflete Lio. “A maturidade para saber como insistir, de que maneira permanecer, foi se constituindo em nós, e o resultado dessa insistência com certeza deve ser motivo de grande celebração.” A sensação, ele descreve, é de colheita depois de anos de plantio.
Tulipa nomeia o sentimento com exatidão: “Um sentimento bonito de reconhecimento mútuo. Se um festival mantém uma curadoria aprofundada e continua convidando um artista em diferentes momentos da carreira, isso mostra que existe uma afinidade de pensamento, não apenas uma compatibilidade de agenda.”
Felipe chega a 2026 em um dos melhores momentos da carreira — recém-saído do Tiny Desk Brasil, com shows na China ao lado do pai, Manoel Cordeiro, e uma música na novela. E é justamente Manoel quem ele traz como convidado especial para a apresentação no festival. “Voltar pro Bananada, junto da volta do festival, é motivo de muita alegria. Essa edição já nasce histórica porque atende a uma demanda por festivais com mais curadoria — isso tem perdido espaço.”
Para Tulipa, uma palavra resume o que o Bananada representa: bananeira. Para Felipe, “sensibilidade brasileira de verdade”. Lio prefere uma imagem: a da banda sentada numa canga, entre os palcos, batendo papo com fãs, “sem vontade nenhuma de ir embora, mesmo muito cansados e já tendo tocado.”
Um festival que dá vontade de chegar cedo e ficar até acabar. Em agosto, Goiânia recebe de volta quem sabe disso de memória.
Serviço
Festival Bananada 2026
Data: 18 a 23 de agosto de 2026
Local: Goiânia (GO)
Mais informações: @festivalbananada
