Por Vinicius Francisco
A diretora executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, abriu a discussão política da AIDS 2026 defendendo que a resposta global ao HIV precisa ser reconstruída diante das transformações dos últimos anos. Em um discurso que percorreu direitos humanos, ciência, financiamento e acesso a medicamentos, ela afirmou que o maior desafio da atualidade já não é apenas desenvolver novas tecnologias, mas garantir que elas cheguem às pessoas com rapidez e equidade.
“O mundo mudou profundamente. E não vamos voltar ao que era antes”, afirmou.
Segundo Winnie, a comunidade internacional precisa abandonar a ideia de responder à epidemia do HIV com estratégias pensadas para um contexto que já não existe. “Precisamos construir uma resposta à AIDS para o mundo de hoje. Não para o mundo que gostaríamos que existisse.”
Apesar das tensões geopolíticas, ela lembrou que os Estados-membros das Nações Unidas aprovaram recentemente uma nova Declaração Política sobre HIV e AIDS. Para a diretora do UNAIDS, o documento demonstra que ainda há espaço para um compromisso internacional capaz de manter o objetivo de acabar com a epidemia.
“Temos um roteiro. Agora precisamos transformá-lo em realidade.”
Ao explicar por que considera este um momento decisivo, Winnie afirmou que os principais avanços na resposta ao HIV aconteceram quando governos, cientistas e comunidades enfrentaram diretamente as desigualdades que impediam milhões de pessoas de acessar prevenção, diagnóstico e tratamento.
“Cada grande avanço aconteceu porque enfrentamos a desigualdade de frente. Trouxemos para o centro aqueles que haviam sido deixados para trás por meio da ciência, dos direitos humanos e da solidariedade.”
Na avaliação da dirigente, esse legado está ameaçado. Ela afirmou que, pela primeira vez desde que o UNAIDS começou a acompanhar esse cenário, cresce o número de países que ampliam a criminalização de populações historicamente mais vulneráveis ao HIV.
“No último ano, mais países criminalizaram relações entre pessoas do mesmo sexo, e outros endureceram suas punições.”
Para ilustrar as consequências desse movimento, Winnie citou o Senegal, onde, segundo ela, serviços voltados às populações mais vulneráveis vêm sendo fechados em razão do medo e da perseguição.
“O medo substituiu a confiança. As pessoas desaparecem dos serviços de saúde, e o vírus continua se espalhando.”
A diretora do UNAIDS defendeu que a resposta à epidemia não pode ser dissociada da defesa dos direitos humanos. Segundo ela, organizações comunitárias, movimentos de mulheres, população LGBTQIA+ e defensores da democracia precisam atuar de forma articulada diante dos retrocessos observados em diferentes partes do mundo.
“Saúde, justiça de gênero e democracia avançam juntas. E também podem retroceder juntas.”
Ao lembrar o papel desempenhado pelas comunidades ao longo de mais de quatro décadas de enfrentamento ao HIV, Winnie afirmou que os avanços conquistados não nasceram apenas da ciência, mas também da mobilização social.
“Alguns têm dinheiro. Alguns têm poder. Nós temos pessoas. E temos a justiça ao nosso lado.”
A frase antecedeu uma das principais mensagens de seu discurso:
“Pessoas organizadas acabam derrotando o dinheiro organizado.”
Winnie reservou a parte central do discurso para discutir o acesso às novas tecnologias de prevenção do HIV. Ao homenagear pesquisadores, afirmou que os avanços científicos das últimas décadas só produziram impacto porque foram acompanhados por políticas públicas e pelo trabalho das comunidades.
“Quero homenagear os cientistas que trabalharam ao lado das comunidades para transformar descobertas em medicamentos que salvaram milhões de vidas.”
Em seguida, fez a principal cobrança da noite. Segundo ela, o mundo está desperdiçando uma oportunidade histórica ao avançar lentamente na oferta da prevenção de longa duração.
Há dois anos, lembrou, a Conferência Internacional de AIDS apresentou resultados que colocaram o lenacapavir entre as estratégias mais promissoras já desenvolvidas para a prevenção do HIV. Para Winnie, porém, a velocidade de implementação está muito abaixo do necessário.
“Deveríamos estar caminhando para 20 milhões de pessoas utilizando prevenção de longa duração, e não apenas dois ou três milhões.”
Ao responder às críticas de que essa meta seria ambiciosa demais, Winnie comparou a situação com a pandemia de Covid-19.
“Em apenas um ano após a descoberta de vacinas eficazes, 4,5 bilhões de pessoas receberam pelo menos uma dose.”
Para ela, a experiência mostrou que, quando existe vontade política, governos, indústria e organismos internacionais conseguem acelerar o acesso às inovações em escala global.
Foi nesse contexto que Winnie citou nominalmente o Brasil e a África do Sul. Segundo ela, os dois países participaram da produção do conhecimento científico sobre essas tecnologias, mas continuam enfrentando dificuldades para obter acesso em condições acessíveis.
“A África do Sul continua aguardando licenças para fabricar esses medicamentos. O Brasil negocia há mais de um ano e ainda não conseguiu acesso em condições acessíveis.”
Na sequência, dirigiu-se diretamente às empresas farmacêuticas. Ao comentar o desenvolvimento de um medicamento de aplicação mensal pela Merck, reconheceu o potencial da inovação, mas questionou a exclusão da América Latina dos acordos de licenciamento. Também cobrou da Gilead a ampliação do acesso ao lenacapavir.
“Como a América Latina ainda pode ficar de fora das licenças para tecnologias que salvam vidas? Como uma região inteira pode ser deixada de fora?”
Ela defendeu que as empresas ampliem a produção, compartilhem tecnologia e acelerem os acordos de licenciamento para permitir que novos medicamentos cheguem mais rapidamente aos países de baixa e média renda.
“Abram as portas, ampliem a produção, compartilhem tecnologia e coloquem o mundo na via rápida para acabar com esta epidemia.”
Na parte final do discurso, Winnie voltou sua atenção para o financiamento da resposta ao HIV. Segundo ela, a cooperação internacional atravessa um período de forte retração. Apenas no último ano, os recursos globais destinados ao enfrentamento da epidemia caíram mais de US$ 1,5 bilhão, uma redução de aproximadamente 18%.
Embora tenha reconhecido o aumento dos investimentos domésticos em diversos países, afirmou que eles não conseguem compensar os cortes na cooperação internacional. Também alertou que muitos governos destinam hoje mais recursos ao pagamento de dívidas do que aos próprios sistemas de saúde.
“Isso não é uma inevitabilidade econômica. É resultado de escolhas políticas.”
Para enfrentar esse cenário, defendeu reformas no sistema financeiro internacional, a reestruturação de dívidas, o combate à evasão fiscal e uma maior capacidade de investimento dos países em saúde pública.
Ao encerrar sua participação, Winnie Byanyima conectou os diferentes temas abordados ao longo da fala — direitos humanos, ciência, acesso às tecnologias e financiamento — a uma mesma preocupação: garantir que os avanços científicos não aprofundem desigualdades já existentes.
Na abertura da AIDS 2026, sua mensagem foi direta: a resposta global ao HIV continuará sendo medida não apenas pela capacidade de produzir novas tecnologias, mas pela disposição de torná-las acessíveis a todas as pessoas que delas precisam.
