Quem já leu algum texto nesta coluna sabe que jamais procurei utilizar minha experiência pessoal para abrir um debate ou, até mesmo, para estruturá-lo ou desenvolvê-lo. Essa é uma pauta que alguns podem achar forçada. Porém, diante da absurda onda de ódio que a direita brasileira vem construindo contra a comunidade trans, perseguindo mulheres trans e travestis nos banheiros, muitas vezes de forma violenta, é natural que meus posicionamentos careçam de importância e que o que valha seja a disputa simbólica que devo honrar contra o fascismo.
Esse segregacionismo fez com que muitas delas tivessem que se filmar nos banheiros, por medo de serem violentadas e de não terem provas para se defender depois.
Nunca quis utilizar minha sexualidade para fazer política. Sempre entendi a sexualidade como algo da esfera privada. Além disso, hoje sou casado com uma mulher que amo, admiro e respeito, e talvez não seja o melhor momento para escrever estas linhas. Mas não há ética que resista à injustiça fascista e nojenta. E é por causa da minha experiência de me relacionar com mulheres trans que me assusta o silêncio de muitos homens ditos de esquerda, que, curiosamente, também fazem parte dessa nuvem de homens cis que “nunca tiveram relações com mulheres trans ou travestis”.
Eu tive meu primeiro relacionamento, meu primeiro namoro, com Agos, aos 21 anos. Aos 14 anos, descobri que sentia atração por mulheres trans e travestis, independentemente do aspecto sexual. Era uma vontade absurda de me aproximar, de conversar, de estabelecer um vínculo. Eu ainda era muito novo para entender algumas coisas. Considerando que hoje tenho 46 anos, estou falando de 32 anos atrás. As mulheres trans e travestis não tinham visibilidade além das ruas, onde ofereciam serviços como garotas de programa. É claro que, num contexto homofóbico e conservador (fui católico até os 15 anos, quando definitivamente me tornei agnóstico, graças a Deus), foi bastante complexo para mim entender esse sentimento.
Eu já era frequentemente chamado de bicha por alguns rapazes do bairro. Tinha tendência a ficar em casa lendo e era muito “branquinho”. Sofri abuso sexual e bullying praticados por alguns deles, justamente dos 8 aos 14 anos. Bastou um soco na cara de um deles para afugentá-los para sempre. Aos 14 anos, eu já tinha beijado mulheres e namorei uma delas por cinco meses. Foi nessa época que vi uma mulher trans fazendo programa numa rua do bairro em que eu morava. Senti-me imediatamente atraído por ela. Naturalmente, ela me ofereceu um programa, mas eu fui um quebrado durante quase toda a minha vida e não tinha condições de fazer isso naquele momento.
Mas esse primeiro contato aconteceu. A partir daí, meu consumo de conteúdo adulto se dividiu entre mulheres cis e trans. Enquanto isso, na minha cabeça, tinha se iniciado uma batalha: eu era homossexual? Me chamavam de bicha desde pequeno e, agora, eu estava atraído por mulheres com pênis. Gente, estou falando de 27 anos atrás. Não existia internet e essa pauta era absolutamente inexistente. Mulheres trans apareciam na TV para serem ridicularizadas e estereotipadas — as poucas que apareciam. Eu não tinha como ter uma conversa séria ou debater com alguém, de forma não tóxica, sobre o assunto. Morava numa favela onde cinema, biblioteca e teatro eram considerados enteléquias; ninguém sabia o que era isso.
Após os meus 15 anos, quando a religião cristã deixou de condicionar minha cabeça, essa dúvida sobre se eu era ou sou homossexual por me relacionar com mulheres trans e travestis deixou de ter importância. Passou a ser algo que realmente não me preocupava. Aos 15 anos também apareceu Kurt Cobain na minha vida, e suas frases “todo mundo é gay” e “se Deus existe, é gay ou mulher” se tornaram verdades absolutas para mim até os dias de hoje.
Assim continuei até os 19 anos, quando finalmente tive a chance de conhecer alguém. Soube que tinha sido fundada uma balada LGBT (sigla da época) em Buenos Aires, chamada “América”, que existe ainda hoje. Naquela noite, conheci uma guria com quem conversei e bebi até altas horas. Demos uns amassos e tudo ficou por aí. Eu era um cara extremamente tímido, desempregado, sem dinheiro e morando numa das piores favelas do interior do conurbano de Buenos Aires. Ela, por sua vez, morava com umas amigas num apartamento onde dividiam os quartos para fazer programa. Então não foi possível subir um degrau nos acontecimentos que nos envolviam naquela noite, e tudo terminou por ali. Sem celulares, morando longe e com todas as vulnerabilidades sociais nas costas, tornou-se inviável um segundo encontro.
Voltei ao “América” mais algumas vezes, mas sem conhecer mais ninguém ou sequer encontrar aquela guria com quem tinha vivido essa feliz experiência. Aos 21 anos conheci Agos. Era uma época em que eu tinha um emprego relativamente bom e fui realizar um programa com ela. Vi seu perfil na internet e fui até seu apartamento, a uma hora da minha casa, no conurbano. Ela atendia em uma das regiões mais exclusivas e caras da capital de Buenos Aires. Pessoalmente, era muito mais bonita e atraente do que nas fotos do site. Era realmente impactante.
Quando finalizamos o serviço, perguntei se podia dormir com ela naquela noite, após seu horário de atendimento. Agos era uma mulher muito inteligente e debochada. Por isso, debochou de mim, perguntando se eu queria sexo de graça, que era só pedir, já que ela me achava bonito. Eu prometi que não iríamos fazer sexo. Queria conhecê-la, conversar. Uma hora não era suficiente para isso.
Ela disse que sim. Eu saí do apartamento, fui caminhar pelos arredores até virar a noite e retornei no horário que ela tinha combinado comigo.
Não vou negar que foi difícil. Agos tinha dois quartos no apartamento, mas pediu para a gente dormir no mesmo quarto. Na minha cabeça, a gente iria ficar conversando numa mesa, bebendo um vinho. Mas ela disse que estava cansada e que preferia que a gente deitasse junto. Naturalmente, por eu ser homem e estar numa idade em que a libido fica nas nuvens, foi extremamente difícil manter o raciocínio. Mas cumpri minha promessa e não tentei nenhuma aproximação física com ela. Assim nasceu nosso namoro.
No outro dia, acordamos cedo. Ela me perguntou se eu queria acompanhá-la à panificadora para comprar pão para o café da manhã. Era, naturalmente, um teste para saber se eu sairia na rua com ela, sabendo o que isso significava. Comecei a entender melhor a transfobia a partir daquele momento.
Enquanto estávamos comprando, ouvimos as risadas de uns motoqueiros que estavam do lado de fora da panificadora. Eram comentários óbvios, aludindo ao já conhecido “mulher com surpresa”. Percebi que Agos tinha um escudo para isso, porque continuou comprando, sem fazer nenhum gesto.
Namoramos durante nove meses, e foi assim sempre que saímos à rua. Tive — e tenho — a sorte de ter amigos maravilhosos, que também moravam no centro de Buenos Aires e a conheceram, a respeitaram e a trataram como qualquer outra namorada que já tive. Então, muitas vezes, nos reuníamos na casa de algum deles para assistir à TV ou a filmes. Ou na casa das amigas e dos amigos da Agos. Fomos muito felizes, ficamos chapados e nos divertimos muito.
Lembra daqueles motoqueiros falando merda pelas nossas costas? Em Buenos Aires, naquela época, já havia motoqueiros que trabalhavam como entregadores de documentos para correios privados. Havia muitos deles. Bom, acontece que o namoro entre mim e a Agos consistia, basicamente, em eu ir para a casa dela e, dali, a gente organizar os passeios. Ela morava no centro de Buenos Aires, cercada por cinemas, teatros e praças. Eu morava numa favela periférica, onde os ônibus paravam de funcionar depois das 23h. Muitas vezes eu chegava cedo, e ela continuava fazendo seus programas. Eu ficava no outro quarto assistindo à TV, lendo ou estudando enquanto ela atendia seus clientes.
Foi numa dessas vezes que ela me chamou. Pediu para eu deixar a porta do quarto entreaberta e ver quem tinha ido fazer programa com ela. E, sim, era um daqueles motoqueiros transfóbicos da boca para fora.
Agos, há 25 anos, me contou como 100% dos seus clientes eram homens cis que jamais aceitariam conversar com ela na rua, mas que se juntavam a outros para humilhá-la, debochar dela e, às vezes, agredi-la. Uma mulher perspicaz e extremamente inteligente estava me dando uma aula de sociologia que nem mesmo existia na faculdade onde eu estudava.
“Como é possível que nós, garotas de programa, consigamos nos sustentar com serviços sexuais se ninguém gosta de nós?”
Meu namoro com Agos durou nove meses. Ela me trouxe debates e me permitiu sentir a transfobia de perto. Fazia — e acredito que ainda faça — muitas perguntas. Eu, sem querer roubar o protagonismo de ninguém, também me faço algumas.
O Brasil é o país que mais produz e que mais consome conteúdo adulto com mulheres trans e travestis. Como é possível que, inclusive dentro da esquerda, ninguém assuma que se relacionou ou se relaciona com mulheres trans? A matemática não fecha. São bilhões de visualizações contra dezenas de namoros ou relacionamentos assumidos. Resulta-me muito difícil acreditar nessa galera cis que curte ou compartilha um post da Erika Hilton, mas pouco se importa ou se envolve com essa pauta. Mulheres trans e travestis estão sendo agredidas nos banheiros, xingadas, ridicularizadas, inclusive no Parlamento. O que estão esperando? Falam de revolução, inclusive armada, e não têm culhões para assumir o próprio afeto?
Não namorei nem me relacionei com muitas pessoas ao longo da minha vida. Tive outro relacionamento com uma mulher trans aos 32 anos, que durou um ano. Mas o de Agos foi aquele que me abriu o coração para sempre e a quem sempre serei grato por esse amor inesquecível, parceiro e de muito aprendizado.
Tenho uma visão bastante distópica das redes sociais. Dito isso, preciso reforçar o amor que sinto pela mulher que me acompanha hoje, a quem amo com todo o meu coração e à qual devo todo o meu respeito.
Sempre entendi a esquerda como um espaço político para lutar contra os privilégios e as opressões. Para ajudar os setores marginalizados. É o momento de demonstrar isso em casa, de fazer transparecer quem somos, porque essa é a única forma de enfrentar a injustiça. Afinal, essa deveria ser a principal causa de qualquer ser humano decente.
