Por Vinicius Francisco
Os aplausos começaram antes mesmo de Alexandre Padilha chegar ao púlpito. Depois de uma cerimônia marcada por discursos de lideranças da saúde global e por uma manifestação de ativistas que interrompeu a programação por cerca de 20 minutos, a entrada do ministro da Saúde foi recebida com entusiasmo pelo auditório do Riocentro.
Diante de pesquisadores, profissionais da saúde, representantes de organismos internacionais, movimentos sociais e autoridades de dezenas de países reunidos na 26ª Conferência Internacional de AIDS, promovida pela International AIDS Society (IAS), Padilha não fez apenas um pronunciamento institucional. Falou como ministro, mas também como infectologista que acompanhou de perto uma das transformações mais profundas da saúde pública nas últimas décadas.
Ao dar as boas-vindas aos participantes, destacou o significado de o Brasil receber, pela primeira vez, a maior conferência mundial sobre HIV.
“Sejam todos muito bem-vindos ao Rio de Janeiro, sejam todos muito bem-vindos ao Brasil. Um país que, com todas as suas dificuldades, persegue o desafio de construir um dos maiores sistemas públicos universais de saúde do mundo, o SUS, fundamentado na convicção de que a saúde é um direito de todas as pessoas e um dever do Estado.”
Foi quando deixou o protocolo de lado que seu discurso ganhou outro tom.
Padilha contou que escolheu a infectologia justamente por causa da epidemia de AIDS. Durante a residência médica no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, viveu o período em que a terapia antirretroviral combinada começou a transformar a história da doença. Segundo ele, foi naquele momento que aprendeu que ciência e mobilização social caminham juntas.
“Vi de perto o sofrimento, mas também a esperança que surgia a cada descoberta científica, a cada conquista dos movimentos sociais, a cada vida preservada. Naquela época, jamais imaginaria que um dia estaria aqui, na condição de ministro da Saúde do meu país, abrindo a maior conferência mundial sobre HIV e AIDS.”
Antes de apresentar as conquistas brasileiras, fez uma homenagem às pessoas que morreram em consequência da epidemia, lembrando que os avanços alcançados nas últimas quatro décadas também foram construídos pela luta de quem não viveu para testemunhá-los.
Para o ministro, a resposta ao HIV promoveu três grandes revoluções. A primeira colocou os direitos humanos, o combate ao estigma e a participação das pessoas vivendo com HIV no centro das políticas públicas. A segunda impulsionou avanços científicos que transformaram o diagnóstico, o monitoramento e o tratamento da infecção, influenciando toda a infectologia. A terceira reorganizou os serviços de saúde, consolidando estratégias como a testagem rápida, a prevenção combinada, novos protocolos de biossegurança e formas mais integradas de cuidado.
Foi nesse contexto que destacou uma das conquistas recentes do Brasil: a certificação concedida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) pela eliminação da transmissão vertical do HIV como problema de saúde pública. Segundo Padilha, o país tornou-se o primeiro com mais de 100 milhões de habitantes a alcançar esse reconhecimento.
Apesar dos avanços, advertiu que a resposta à epidemia está longe de terminar. O estigma, a discriminação, as desigualdades, as múltiplas vulnerabilidades, o negacionismo e os ataques à ciência continuam ameaçando conquistas históricas e afastando milhares de pessoas do cuidado.
Mas foi ao falar sobre o futuro que fez a afirmação mais contundente da noite.
“Eu costumo dizer que inovação sem acesso não deveria ser chamada de inovação. Inovação sem acesso é injustiça.”
As palmas interromperam o discurso.
Padilha afirmou que nenhuma tecnologia transforma vidas se permanecer restrita a poucos países ou inacessível a quem mais precisa. Nesse sentido, destacou a Coalizão Global para Produção Local e Regional, Inovação e Acesso Equitativo, lançada pelo Brasil durante a presidência do G20, como uma estratégia para fortalecer a capacidade produtiva do Sul Global e ampliar o acesso a medicamentos e outras tecnologias em saúde.
Ao encerrar sua participação, voltou à principal lição da história da resposta ao HIV: os maiores avanços aconteceram quando governos, pesquisadores, profissionais de saúde, organismos internacionais, movimentos sociais e pessoas vivendo com HIV trabalharam lado a lado.
Quando deixou o palco, Alexandre Padilha havia feito mais do que um balanço das conquistas brasileiras. Diante da maior conferência mundial sobre HIV, defendeu uma ideia que atravessou toda a cerimônia de abertura: descobertas científicas só mudam o rumo de uma epidemia quando chegam às pessoas. Entre o laboratório e a vida real, afirmou o ministro, existe uma escolha política. E foi essa escolha que resumiu em uma frase que ecoou pelo auditório: inovação sem acesso é injustiça.
