Por Helô Alves
O cinema brasileiro voltará a disputar o Leão de Ouro, principal prêmio do Festival Internacional de Cinema de Veneza, com “Retorno a Buenos Aires”, nova coprodução entre Brasil e Itália dirigida por Marco Bechis, que também assina o roteiro ao lado de Vijaya Bechis Boll. O longa integra a competição oficial da edição de 2026 e é estrelado pelo italiano Adriano Giannini, ao lado dos brasileiros Paula Cohen e Eduardo Hoy e das argentinas Ana Celentano, Vero Gerez e Olivia Nuss.
A trama acompanha Mariano Guerra, convocado a retornar à Argentina para depor no julgamento dos militares que o sequestraram e torturaram durante a ditadura civil-militar. O regime, instaurado em 1976, promoveu graves violações de direitos humanos enquanto buscava projetar uma imagem de normalidade ao sediar a Copa do Mundo de 1978. A história dialoga diretamente com a trajetória de Marco Bechis, que também foi preso político durante a ditadura argentina. O encerramento das filmagens coincidiu simbolicamente com os 50 anos do golpe militar no país.
“Com ‘Retorno a Buenos Aires’, volto à Argentina 50 anos depois. Volto com uma história que não é a minha, mas que nasce de uma ferida que conheço. Eu também fui sequestrado durante a ditadura argentina, mas Mariano não sou eu. Escolhi a ficção porque, às vezes, ela é a única forma de se aproximar de uma verdade que a memória, sozinha, não consegue contar”, afirmou Bechis.
O diretor também destacou que o filme nasceu de uma inquietação pessoal. “Durante muitos anos pensei que o cinema tivesse me libertado dessa pergunta. Percebi que não era assim. Há muitos anos uma questão me acompanha: o que significa sobreviver? Não apenas salvar-se, mas continuar vivendo quando outros não puderam fazê-lo. No fundo, este filme fala de uma única coisa: da culpa do sobrevivente, que persiste.”
A produção contou com três meses de pré-produção e sete semanas de filmagens, sendo quatro realizadas em Porto Alegre e três em Turim, no norte da Itália. A equipe reuniu profissionais brasileiros como o diretor de arte Eduardo Antunes, a diretora de elenco Alessandra Tosi e a figurinista Coca Serpa. O projeto consolida a parceria entre a produtora brasiliense 34 Filmes, André Ristum e as italianas Fandango, 39Films, Karta Film e Rai Cinema.
Liderada por Patrick de Jongh, a 34 Filmes financiou o longa por meio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), com recursos geridos pelo BRDE no Edital de Coprodução Internacional de 2024. Para o produtor, “a política de descentralização dos investimentos em cinema mais uma vez mostra resultados e confirma a necessidade desse tipo de investimento para que mais regiões e realizadores brasileiros possam marcar presença em grandes eventos internacionais, como o Festival de Veneza”.
André Ristum, da Sombumbo, destacou a longa parceria com Marco Bechis. “Marco me enviou esse roteiro alguns anos atrás, e fiquei muito impactado. Somos próximos desde a produção de ‘Terra Vermelha’ e, para mim, não era aceitável que um talento como ele ficasse tantos anos sem filmar. Levei o projeto para a 34 Filmes e fiquei muito feliz com a recepção e a parceria para fazer o projeto acontecer.”
A coprodução conta ainda com a Neocórtex, de Cibele Amaral, que ressaltou o caráter histórico da seleção. “É uma grande alegria fazer parte da história do cinema brasileiro, tendo produzido o primeiro filme da região CONNE (Centro-Oeste, Norte e Nordeste) selecionado para a competição principal do Festival de Veneza.”
Sinopse: Buenos Aires, 2008. Após viver 33 anos na Itália, Mariano Guerra retorna à Argentina para depor no julgamento dos ex-militares que o sequestraram, torturaram e mantiveram em cárcere durante a ditadura. Hospedado nas instalações do Ministério da Justiça ao lado de outros sobreviventes, ele reencontra antigos companheiros de cativeiro e revive lembranças que permaneceram sem resposta por décadas. Um dos poucos sobreviventes daquela tragédia, Mariano é obrigado a enfrentar a culpa, a memória e o peso de ter permanecido vivo.
