Por Juliana Gomes
Gosto de pensar que a Copa desperta uma curiosidade que vai muito além do futebol. Ela nos faz olhar para outros países, outras culturas e outras formas de viver. E, quando o apito final anuncia o fim de uma partida, percebo que ainda não quero ir embora. É nesse momento que procuro o cinema. Porque alguns lugares continuam nos esperando do outro lado da tela.
Foi pensando nisso que resolvi trocar a tabela do Mundial por outra escalação. Em vez de falar sobre estatísticas ou favoritos ao título, escolhi alguns países que marcaram presença na competição e reuni filmes capazes de revelar muito mais do que qualquer placar poderia contar. Porque nenhuma cultura cabe em noventa minutos.
Marrocos | “Os Cavalos de Deus” (2012)
Marrocos conquistou a atenção do mundo por sua força dentro de campo, mas seu cinema também merece ser descoberto. Dirigido por Nabil Ayouch, “Os Cavalos de Deus”acompanha dois irmãos que crescem na periferia de Casablanca e mostra como desigualdade, exclusão e falta de perspectivas podem moldar diferentes trajetórias.
Inspirado em acontecimentos reais, o longa evita julgamentos simplistas e constrói um retrato sensível de um país que vai muito além dos cartões-postais. É uma obra que convida o espectador a compreender contextos antes de formar opiniões.
Paraguai | “7 Caixas” (2012)
Se existe um filme capaz de apresentar o Paraguai para quem nunca assistiu a uma produção do país, esse filme é “7 Caixas”. Ambientado no Mercado 4, em Assunção, o thriller acompanha um jovem carregador que aceita transportar sete caixas misteriosas em troca de dinheiro.
Enquanto a tensão cresce, o espectador conhece um Paraguai urbano, vibrante e cheio de personalidade. Entre diálogos em espanhol e guarani, o longa transforma a cidade em protagonista e ajudou a colocar o cinema paraguaio no radar internacional.
Senegal | “Moolaadé” (2004)
Dirigido por Ousmane Sembène, um dos nomes mais importantes da história do cinema africano, “Moolaadé” acompanha uma mulher que desafia uma tradição para proteger meninas de sua comunidade.
Mais do que uma denúncia, o filme fala sobre coragem, resistência e transformação. É uma obra que lembra que o cinema também pode preservar memórias, provocar debates e dar voz a histórias que muitas vezes permanecem invisíveis.
África do Sul | “Infância Roubada” (2005)
Vencedor do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira, “Infância Roubada”acompanha um jovem criminoso de Johannesburgo que encontra um bebê dentro de um carro roubado. A partir desse encontro inesperado, sua vida começa a mudar.
Enquanto acompanha a transformação do protagonista, o filme revela as marcas deixadas pelo apartheid e as desigualdades que ainda fazem parte da sociedade sul-africana. É um drama delicado sobre culpa, afeto e recomeços.
Costa do Marfim | “Noite de Reis” (2020)
Entre realidade, tradição oral e fantasia, “Noite de Reis” apresenta uma experiência cinematográfica singular. Ambientado em uma prisão inspirada em um presídio real de Abidjan, o longa acompanha um detento que precisa contar histórias durante toda a noite para sobreviver.
O filme transforma a oralidade em protagonista e mostra como narrar histórias também é uma maneira de preservar a identidade de um povo.
Japão | “Assunto de Família” (2018)
Dirigido por Hirokazu Kore-eda e vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes, o longa acompanha pessoas que escolhem construir uma família para além dos laços de sangue. Com sensibilidade, o diretor fala sobre afeto, pertencimento e desigualdade, revelando um Japão muito diferente dos estereótipos que costumam chegar ao Ocidente.
Brasil | “A Melhor Mãe do Mundo” (2025)
Quem acompanha a Cine Ninja sabe que o cinema brasileiro já ocupa um espaço especial por aqui. Ainda assim, seria impossível encerrar esta lista sem mencionar “A Melhor Mãe do Mundo”, de Anna Muylaert.
O longa acompanha Gal, uma catadora de recicláveis que foge da violência doméstica levando os filhos em seu carrinho de coleta. Com Seu Jorge no elenco, o filme transforma uma história dura em um retrato sensível sobre maternidade, dignidade e esperança.
Se esta indicação despertar sua curiosidade pelo audiovisual nacional, vale aproveitar para explorar as outras listas, críticas e especiais sobre cinema brasileiro já publicados pela Cine Ninja.
Quando o filme continua depois dos créditos
O futebol desperta a curiosidade. O cinema transforma essa curiosidade em encontro. É através dele que percebemos que cada país guarda histórias que nenhum placar consegue resumir, e que conhecer uma cultura também significa ouvir as vozes de quem a constrói todos os dias.
Quando a Copa terminar, os resultados ficarão para a história. Os filmes, porém, continuarão oferecendo uma outra forma de conhecer esses países. Porque algumas viagens não acontecem entre um destino e outro, mas entre a tela e o olhar de quem decide se deixar atravessar por uma boa história.
Onde assistir aos filmes
Se a lista despertou sua curiosidade, confira onde encontrar cada um dos títulos:
- “7 Caixas” (2012) — Paraguai: disponível na Netflix e no Prime Video (para aluguel ou compra digital).
- “Infância Roubada” (2005) — África do Sul: disponível gratuitamente no Mercado Play, com anúncios.
- “Noite de Reis” (2020) — Costa do Marfim: disponível no Globoplay, por meio do canal Telecine, e no Prime Video, com a assinatura do canal Telecine.
- “Assunto de Família” (2018) — Japão: disponível na Netflix, no Globoplay (via Telecine) e para aluguel digital no Google Play e YouTube Filmes.
- “A Melhor Mãe do Mundo” (2025) — Brasil: disponível na Netflix.
Filmes que não estão disponíveis em plataformas comerciais
Atualmente, “Os Cavalos de Deus” (2012), do Marrocos, e “Moolaadé” (2004), do Senegal, não integram os catálogos das principais plataformas de streaming disponíveis no Brasil.
