Por Dhenef Andrade – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Essa poderia ser uma experiência multissensorial, mas isso exigiria um “por favor, feche os olhos”. Então, pulemos essa parte. A verdade é que o mergulho futebolístico na Copa, um livro de crônicas e um jornalista me provocaram a pensar: qual foi a última vez que vi um campinho de várzea? Entendido aqui como qualquer pedaço de chão demarcado por quatro linhas, onde, na maioria das vezes, arrancávamos um pedaço da pele do dedão. E mais: um campinho de várzea movimentado por crianças, em sua maioria, jogando bola, fazendo pelada, resenhando.
Eu cresci em um bairro periférico de Aracaju, e a minha paisagem visual de entretenimento fora de casa incluía a praça principal do entorno, que, ao fundo, possuía um campinho de futebol, dos meus quase 20 anos vivendo por lá, lembro que havia o ritual de passar pela rua em frente e vê-lo apinhado nas tardes de fim de semana ou então sendo usado para eventos de mobilização comunitária, para os quais éramos convidados por meio do carro de som anunciando um jogo beneficente em prol de alguma causa local.
As precariedades continuavam ali no entorno: ruas sem pavimentação, problemas no atendimento da saúde básica e dificuldade de acesso a equipamentos culturais, concentrados na Zona Sul. Era normal, portanto, que nossas vidas girassem em torno do eixo casa–igreja–futebol–parque de diversões–escola. Os tempos eram outros nos anos 2000, é fato que a gente tinha mais espaço, mais liberdade, mais comunidade para esses encontros coletivos na rua. Tínhamos bola de papel, bola de meia, bolas boas, bolas ruins, e muitas delas iam parar no telhado do vizinho no meio da jogatina. Havia quintal na casa dos pais, dos tios, dos avós e havia a rua, era a ocupação dos espaços e o uso do futebol como símbolo cultural e forma de apropriação do território, não apenas para nós, crianças da época, mas também para os adultos, no pós-trabalho e nos fins de semana.
O historiador Luiz Antônio Simas, no excelente Ode a Mauro Shampoo e outras histórias da várzea, livro de crônicas futebolísticas, aponta a guinada da glamourização da pelada, que passa não apenas pela mudança de comportamento dentro das quatro linhas, mas também pela transformação da linguagem:
“O craque se transforma em ‘jogador diferenciado’, o reserva é ‘peça de reposição’, o passe vira ‘assistência’, o campo é a ‘arena multiuso’”, escreve Simas na orelha do livro, completando que o torcedor agora ganha ares de espectador.
Sim, o futebol é espetáculo, mas seu sentido muda quando encaramos os tempos da economia da atenção. Naturalizamos, por exemplo, que marcas emprestem seus nomes aos estádios, como a Casa de Apostas Arena Fonte Nova e o MorumBIS. Voltando ao campinho do bairro onde cresci, não demorou para que uma escolinha de futebol, localizada em frente a uma escola pública e, curiosamente, a poucos metros do campo de várzea, passasse a atrair a atenção dos pais, era um contraste socioeconômico ver uma estrutura como aquela em um bairro periférico. Pouco a pouco, porém, comecei a ver o campinho cada vez mais vazio.
Esse enfraquecimento da experiência primária com a bola também passa pelos movimentos de urbanização, que rivalizam a ocupação dos espaços com o novo empreendimento da vez, pela compreensão do futebol como um negócio e também pela antropofagia europeia sobre o futebol brasileiro. É claro que ainda existem campinhos de várzea, respondendo ao questionamento feito no início deste texto, mas eles estão cada vez mais espaçados em nossa geografia. Qualquer terreno vazio pode se tornar alvo da especulação imobiliária, como é comum no processo de urbanização dos grandes centros brasileiros, a expansão ocorre de forma desordenada e ambiciosa, impulsionada, em grande parte, por construtoras em busca de novos empreendimentos. Não à toa, a verticalização das cidades se tornou uma marca do desenvolvimento urbano.
Em Aracaju, a partir da década de 1970, o avanço dessa ocupação empresarial afetou diretamente os campos de várzea espalhados pelos bairros da cidade. O mercantilismo futebolístico também produz impactos no futebol amador e modifica simbolicamente a várzea. Se há uma presença cada vez mais forte de escolinhas profissionalizantes e categorias de base de grandes clubes voltadas à descoberta de talentos cada vez mais jovens, há também um conflito de interesses em escala mais ampla.
No campo de terra batida, entre iguais, não existem regras excessivamente rígidas, especializações ou comandos técnicos sofisticados, já o campo de grama sintética costuma representar uma prática mais controlada, estruturada e orientada para a formação profissional, diferença que ajuda a explicar parte das mudanças geracionais do futebol brasileiro. Essa versão profissionalizante do futebol torna-se a porta de entrada para crianças vistas como joias do futuro.
“Assim, a lógica do futebol moderno converte o sonho de jogar profissionalmente em um processo de especulação financeira, no qual jovens atletas se tornam uma espécie de commodity esportiva”, provoca o jornalista Hélder Maldonado, do perfil Galãs Feios, no vídeo Neymar vira influencer e Raphinha nem se considera brasileiro: como chegamos nisso?
Nelson Rodrigues estava certo quando disse que, no futebol, “o pior cego é aquele que só vê a bola”, por isso, olhar para esse movimento de estrangeirização diz respeito não apenas à produção de jogadores, mas também ao esvaziamento de símbolos, cultura e identidade na formação das novas gerações de atletas. Com uma saída cada vez mais precoce dos gramados brasileiros para a Europa e uma formação de base voltada ao profissionalismo desde cedo, enxergando o jogador como um ativo lucrativo para empresários, clubes e até famílias, o que sobra do futebol com DNA brasileiro?
Simas retorna ao desencanto do futebol por meio de um detalhe aparentemente simples: onde estão os apelidos que tanto nos diferenciavam? Tivemos Garrincha, Pelé, Ronaldinho Gaúcho, Cafu e Dunga. Hoje, estamos cercados por nomes compostos prontos para serem absorvidos por um mercado internacional homogeneizado. Essa provocação é apenas um dos elementos que ajudam a explicar por que nós, ex-crianças dos anos 2000, que viam o espetáculo do futebol nascer nos campinhos de bairro, nos identificamos cada vez menos com quem veste a camisa amarela. E menos ainda com um técnico estrangeiro, convenhamos.
A antropofagia do futebol, diferentemente do movimento cultural modernista brasileiro, passou a absorver elementos estrangeiros em excesso e parece ter esquecido o principal: preservar aquilo que tornou o futebol brasileiro forte, singular e reconhecido em todo o mundo.
