Quando o jogo é mais difícil para um goleiro negro: a história de Moacir Barbosa

Portal Inhaí
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Por Samuel Fernandes – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Era a final da Copa do Mundo de 1950, a Seleção Brasileira empatava com o Uruguai. Faltando minutos para o fim da partida, o ponta uruguaio Alcides Ghiggia recebe a bola pela direita, entra na área e dá um chute rasteiro cruzado. A bola passa entre o goleiro brasileiro Moacir Barbosa e a trave. Virada do Uruguai. O Maracanã lotado fica em silêncio e nada se ouve além de suspiros.

A Rádio Nacional anuncia: “Parece mentira aquilo que estamos vendo. Quando tudo era favorável. Quando tudo estava do nosso lado. Quando ninguém tinha dúvida do campeonato vencido pela equipe brasileira”. O sonho de toda uma nação passou pertinho das mãos de um homem, que teve sua vida mudada ali.

Foto: Folhapress

De esperança do título ao culpado da derrota

Quando se fala do ato humano de precisar culpar o outro, o psicólogo e professor da UFSCar, Leonardo Câmara, explica que essa ação vem do ressentimento, consiste em culpar outra pessoa por ter nos prejudicado por meio das ações dela. O ressentido, então, se coloca na posição de vítima e passa a atribuir tudo que considera negativo aos outros sem qualquer reflexão. Ainda segundo Câmara, a pessoa se coloca constantemente “numa posição queixosa e acusatória”.

Na procura por um culpado pela derrota de 1950, o escolhido foi o goleiro Moacir Barbosa. Mais de 70 anos depois, essa história ainda é contada, mas o que, muitas vezes, é deixado de fora é que, até aquele domingo, Barbosa era considerado um dos melhores goleiros das Américas, sendo peça importante para títulos no Vasco da Gama (na época, chamado de Expresso da Vitória, por “atropelar” adversários em campo) e a Copa América com a Seleção Brasileira, em 1949.

Reconhecido nacionalmente como um goleiro ágil e seguro, Barbosa recebeu a missão de não só defender o sonho do título, mas também de ser o primeiro goleiro negro da Seleção em uma Copa do Mundo. Durante todo o Mundial, ele foi visto como peça importante de um time favorito, com características positivas em seu jogo, como a antecipação em contra-ataques, coragem nas investidas e aguçada leitura de profundidade.

Todo o respeito e confiança conquistado por Barbosa em anos foi por água abaixo com um gol. Mas será que Barbosa foi o único culpado?

Foto: LEME/UERJ

O gol tomado foi mesmo uma falha?

Existem diferentes interpretações sobre quão defensável foi o chute de Ghiggia. Entre críticos e jornalistas, alguns dizem que o goleiro Barbosa poderia, sim, ter fechado melhor o ângulo e reagido mais rápido ao chute.

Outras interpretações afirmam que a jogada nasceu de uma desorganização defensiva maior, afinal, o Ghiggia venceu a marcação de Bigode pela lateral, entrou em zona perigosa sem tanta dificuldade e finalizou com chute rasteiro e forte, muito perto da trave. Ou seja, uma sequência de erros defensivos que deixou o goleiro exposto.

Outros ressaltam que o chute foi de alta dificuldade de defesa, por ser cruzado e por baixo, dando para Barbosa pouco tempo de reação. A bola não é considerada indefensável, mas também não é vista como fácil. Se Barbosa conseguisse pegá-la, seria mais uma grande defesa de um jogador que vinha fazendo uma ótima Copa, sua falha na tentativa de defesa foi um momento à parte no histórico de um atleta de alto desempenho. Infelizmente, não foi assim que a população viu, o que mostra que, debaixo das traves, o direito ao erro não é para todos.

Foto: Gazeta Press

Os anos após o apito final

“A pena máxima por um crime no Brasil é de 30 anos. Eu pago por aquele gol há 40”, Moacir Barbosa.

Após a Copa, Moacir Barbosa voltou a jogar pelo Vasco da Gama, mas sua carreira já não era mais a mesma. Ele ainda chegou a ser convocado para a Seleção novamente para disputar uma partida na Copa América de 1953 e chegaram a ser feitos boatos de sua volta ao time para a Copa do Mundo de 1954. Mas, em 1953, numa partida contra o Botafogo, Barbosa teve a perna quebrada num choque com o atacante adversário, após isso ele passou episódios de depressão e dores que impediram sua ida ao próximo Mundial.

Depois de 1950, sempre que Barbosa saía na rua, era obrigado a ouvir críticas por causa da derrota. Em várias entrevistas, Barbosa repetia que “a culpa não é minha” e que não queria ser lembrado apenas como “o Barbosa de 50”, mas como um jogador e uma pessoa normal.

Um dos episódios mais humilhantes que Barbosa passou foi quando, 44 anos após a final, visitou a concentração da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 1994 e teve sua entrada barrada sob a justificativa de que sua presença daria azar para o goleiro Taffarel.

Barbosa contava essa e outras histórias sobre o que passou. Uma delas sobre o dia em que, em um supermercado no Rio, ouviu uma mãe cochichar para o filho apontando para ele: “esse é o homem que fez o Brasil chorar”. O peso do Maracanazo jamais saiu de suas costas. 

O goleiro Jairo, ídolo do Corinthians, é desde 1978 o recordista de invencibilidade do Brasileirão pelo time, obtendo a incrível marca de 1.132 minutos sem sofrer gol. Mesmo isso não o impediu de sofrer a desconfiança popular com sua pele: “Na minha época, diziam que o goleiro tinha que ser loiro de olho azul. Quando levava um gol, a primeira coisa que falavam era da minha cor”, ele contou.

Em entrevista de 2019 para a ESPN Brasil, o ex-goleiro Jefferson revelou que ouviu de um dirigente da CBF que não poderia disputar o Mundial Sub-20 de 2003 com a Seleção Brasileira por ter a pele negra. Só tendo sua convocação confirmada quando o opositor saiu do cargo.

Jefferson pela Seleção Brasileira (Foto: Juan Mabromata)

Num texto às vésperas da Copa do Mundo de 2006, o humorista Chico Anysio dividiu com o jornal Lance algumas de suas opiniões sobre a escalação para o Mundial. Quando refletindo sobre a escolha de Dida como goleiro (apenas o terceiro goleiro negro a ser titular de Copa do Mundo pelo Brasil), Anysio relembrou 1950 e declarou: “Não tenho confiança em goleiro negro. O último foi Barbosa, de triste memória na seleção”. À época, Barbosa já havia falecido há seis anos, e felizmente não precisou passar por mais essa humilhação.



Por Midia Ninja

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