Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Durante mais de um século, a sequência era praticamente automática. A bola cruzava a linha, o estádio explodia, jogadores corriam para comemorar e narradores eternizavam o instante no mesmo segundo em que ele acontecia. O gol era um acontecimento imediato, uma explosão coletiva de emoção que dispensava qualquer confirmação.
Na Copa do Mundo de 2026, esse ritual já não acontece da mesma forma. Depois que a bola entra, jogadores olham para o árbitro, torcedores voltam os olhos para o telão e narradores seguram a voz por alguns segundos. O gol continua sendo o momento mais importante do futebol, mas deixou de pertencer exclusivamente ao instante em que acontece.
A mudança começou com um objetivo aparentemente simples: tornar o esporte mais justo. Ao reduzir erros evidentes da arbitragem, o árbitro de vídeo mudou também a maneira como o futebol é vivido dentro e fora de campo. Em uma modalidade construída sobre o improviso, a interpretação e a emoção instantânea, a busca pela precisão passou a alterar o próprio ritual do jogo.
A promessa da precisão
O VAR nasceu oficialmente após uma série de testes iniciados em 2016 e foi incorporado às Leis do Jogo pela International Football Association Board (IFAB) em março de 2018. O protocolo atualmente em vigor, publicado pela entidade na edição 2025/2026 das Laws of the Game, mantém como princípio o lema: “interferência mínima, benefício máximo.”
O protocolo original previa intervenção apenas em quatro situações: gols, pênaltis, cartões vermelhos diretos e casos de identidade equivocada. Na Copa do Mundo de 2026, porém, a ferramenta ganhou novos poderes. A FIFA autorizou o uso do VAR também para revisar segundos cartões amarelos que resultem em expulsão e alguns erros factuais relacionados à marcação de escanteios, ampliando ainda mais o espaço ocupado pela tecnologia dentro das partidas.
Sob o ponto de vista técnico, a promessa produziu resultados expressivos. Dados apresentados pela FIFA e pela IFAB ainda em 2018, apontam que o índice de acerto das decisões envolvendo lances capitais ultrapassa 98% nas principais competições internacionais.
No Brasil, o Relatório de Arbitragem do primeiro turno do Campeonato Brasileiro 2025, divulgado pela Comissão de Arbitragem da CBF em agosto de 2025, registrou 65 lances polêmicos analisados, dos quais 53 foram considerados corretos e 12 incorretos, resultando em 82% de acerto nos casos controversos. Considerando todas as grandes decisões tomadas pelos árbitros ao longo da competição, a entidade calcula um índice geral de precisão de 99,79%.
Poucos defendem a volta de gols em impedimento evidente, pênaltis inexistentes ou expulsões claramente equivocadas. Sob esse aspecto, o futebol tornou-se objetivamente mais justo.
Quando a imagem virou autoridade

Se a promessa era corrigir erros, a consequência foi mais profunda. O VAR não modificou apenas decisões de arbitragem; alterou a própria relação entre futebol e imagem.
Em artigo publicado na revista científica EFDeportes, pesquisadores brasileiros argumentam que o campo passou a funcionar como um ambiente permanentemente monitorado. Câmeras de alta definição, múltiplos ângulos de captura e softwares capazes de desenhar linhas milimétricas transformaram cada lance em uma sequência de dados passível de revisão. Assim como GPS e sensores passaram a quantificar o corpo dos atletas, o VAR passou a quantificar o próprio jogo.
Na prática, o lance deixa de existir apenas como acontecimento esportivo e passa também a existir como objeto de análise tecnológica.
Segundo os autores, essa mudança desloca parte da autoridade da arbitragem para a imagem. A decisão deixa de ser construída apenas pela percepção do árbitro em campo e passa a depender da análise quadro a quadro realizada em uma sala de vídeo. O futebol continua sendo decidido por pessoas, mas essas pessoas agora decidem mediadas por telas, linhas virtuais e protocolos tecnológicos.
O estudo também chama atenção para outro efeito pouco debatido. A câmera lenta modifica a percepção da intensidade dos contatos e da intenção dos jogadores, fazendo com que lances originalmente interpretados como movimentos naturais sejam reconstruídos sob uma lógica quase laboratorial. A imagem deixa de apenas registrar o jogo e passa a participar ativamente da produção da decisão.
O que o futebol ganhou e perdeu

Sob o ponto de vista da arbitragem, os ganhos são evidentes. O número de erros graves diminuiu, decisões passaram a ser mais consistentes e situações que antes marcavam negativamente a história das competições se tornaram muito mais raras. O VAR trouxe uma sensação maior de justiça para um esporte acostumado a conviver com falhas humanas decisivas. Mas a experiência do torcedor mudou junto com essa precisão.
Pesquisa realizada pela Football Supporters’ Association (FSA) entre fevereiro e março de 2026, com quase oito mil torcedores das quatro principais divisões inglesas, mostrou que 75,7% dos entrevistados preferem o futebol sem VAR. O dado mais significativo, porém, aparece em outra pergunta: 91,7% afirmaram que a tecnologia retirou a espontaneidade da comemoração dos gols.
A mudança parece pequena, mas atinge o principal ritual do futebol. A comemoração passou a conviver com a dúvida. O abraço é interrompido pela expectativa. O grito fica suspenso até que o árbitro confirme a decisão. Narradores adaptam sua linguagem, evitando transformar imediatamente o lance em gol definitivo. O estádio inteiro aprende a esperar.
Durante mais de um século, bastava que a bola cruzasse a linha para que milhões de pessoas soubessem exatamente o que havia acontecido. Hoje, antes de comemorar, o jogo pede alguns segundos de espera. O futebol talvez nunca tenha sido tão preciso. A questão que permanece é se, nessa busca por eliminar o erro, ele também não colocou sua emoção mais genuína sob julgamento.
No futebol contemporâneo, o gol continua sendo o momento máximo do jogo. A diferença é que, agora, ele precisa ser confirmado antes de ser sentido.
