Argélia x Áustria: Uma revanche pro Jogo da Vergonha 

Portal Inhaí
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Por Hugo Chaves – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

Na Copa de 1982, Alemanha Ocidental e Áustria fizeram um pacto para manipular o resultado de uma partida que ficou conhecida como o “Jogo da Vergonha”, transformando para sempre as últimas rodadas da fase de grupos do Mundial. As duas seleções europeias uniram interesses e escolheram não competir para produzir um resultado que beneficiaria ambas e eliminaria a seleção norte-africana da Argélia, um país cuja equipe havia se tornado símbolo internacional da luta anticolonial apenas duas décadas antes.

Na Copa da Espanha, em 1982, Alemanha, Áustria, Argélia e Chile compunham o mesmo grupo. Os alemães estrearam contra a Argélia, que, por sua vez, fazia sua primeira participação em Copas do Mundo. Antes da bola rolar, dirigentes e jogadores alemães afirmavam que perder para uma seleção africana seria inconcebível, numa demonstração de que o pensamento colonial ainda era muito presente nos anos 1980. A Argélia, porém, surpreendeu ao vencer a então bicampeã mundial.

Na rodada seguinte, a Áustria superou a Argélia, enquanto a Alemanha venceu o Chile. A última rodada apresentava um cenário de possível vexame para os alemães: caso a Argélia derrotasse o Chile, apenas uma vitória sobre a Áustria impediria que os favoritos fossem eliminados ainda na primeira fase.

Áustria x Alemanha carregava um peso que extrapolava a matemática da classificação. Em 1938, a Áustria foi anexada pela Alemanha nazista, episódio que apagou temporariamente sua soberania política e deixou cicatrizes profundas na identidade nacional austríaca. Nesse contexto, as duas nações, que compartilham idioma, laços culturais e uma longa história em comum, forjaram seus nacionalismos em meio aos conflitos do século XX.

O futebol também participou desse antagonismo de identidades. A década de 1930 marcou o auge da seleção austríaca com o célebre Wunderteam, equipe que encantou a Europa pela velocidade na circulação da bola, pela inteligência coletiva e pela sofisticação de seu jogo. Semifinalista da Copa de 1934 e medalhista de prata nos Jogos Olímpicos de 1936, a equipe ajudou a consolidar a identidade de uma república ainda muito jovem. A invasão nazista impediu que o maravilhoso time austríaco disputasse a Copa do Mundo de 1938, e os principais atletas do elenco foram intimados a integrar a seleção alemã, que disputou o torneio com cerca de um terço de jogadores austríacos em seu elenco. O maior craque da Áustria, o atacante Matthias Sindelar, recusou-se a jogar pelos nazistas, aposentou-se do futebol e, anos depois, foi encontrado morto em seu apartamento, com sinais de asfixia, em circunstâncias jamais esclarecidas.

Não havia motivos para imaginar que a Alemanha teria vida fácil para vencer a Áustria na última rodada da primeira fase de 1982. Antes do confronto europeu, a Argélia fez sua parte e derrotou o Chile por 3 a 2. Como os jogos da última rodada ainda não eram disputados simultaneamente, a Alemanha entrou em campo sabendo que uma vitória por 1 a 0 seria suficiente para garantir sua classificação pelo saldo de gols. Austríacos e alemães provavelmente perceberam que esse placar, na verdade, classificaria as duas seleções para a fase seguinte. Em campo, de forma conjunta e constrangedora, fizeram exatamente isso acontecer.

Fonte: Wikipedia. Tabela de jogos do Grupo A do Mundial de 1982. A cidade espanhola de Gijón acompanhou o milagre argelino e a vergonha dos germânicos.

O “Jogo da Vergonha” foi identificado enquanto acontecia. Ninguém esperava, mas, logo depois que a Alemanha abriu o placar, aos 10 minutos do primeiro tempo, cada lance que se seguia indicava a intenção das duas seleções. Foram 80 minutos em que ambas abdicaram de jogar futebol. A bola circulava sem objetivo; viam-se apenas passes laterais, recuos e jogadas sem qualquer intenção ofensiva. Dois rivais históricos deixaram de competir em plena Copa do Mundo para preservar um resultado que beneficiava ambos e eliminava uma seleção africana.

A postura das equipes provocou forte indignação entre seus próprios compatriotas e ao redor do mundo. Durante a transmissão, o comentarista alemão Eberhard Stanjek chegou a interromper suas análises, permanecendo em silêncio como forma de protesto contra o que via em campo. Na transmissão austríaca, o narrador Robert Seeger aconselhou o público a desligar a televisão, incrédulo com o fato de sua seleção estar aceitando a derrota. Após o jogo, nos jornais, George Vecsey, do The New York Times, escreveu que alemães e austríacos pareciam atuar em conluio, embora reconhecesse que isso não pudesse ser comprovado. Já o espanhol El Comercio levou a metáfora ao extremo ao registrar a partida em sua seção policial, denunciando que, em campo, um tipo de crime havia sido cometido.

A reação das arquibancadas, ao vivo, também foi de escândalo. Torcedores protestaram com vaias e gritos de “Fora, fora!” e “¡Que se besen!” (“Que se beijem!”, em espanhol), ridicularizando o coleguismo entre as seleções. Um torcedor argelino chegou a exibir cédulas de dinheiro em direção aos jogadores, insinuando que o resultado havia sido comprado. Houve ainda um alemão que incendiou a bandeira de seu próprio país, tamanha a desonra. A decepção também atingiu os torcedores da Áustria, que esperavam ver sua seleção derrotar a poderosa vizinha.

FOTO: Kicker. Fãs argelinos mostram dinheiro aos fotógrafos durante o jogo entre Áustria e Alemanha.

É difícil dissociar os aspectos coloniais e eurocêntricos deste evento. Países que no contexto interno europeu viviam uma rivalidade acesa, esportiva, militar e política, foram capazes de deixar de lado as desavenças em vias de um benefício mútuo vergonhoso, mas que prejudicava um país africano. A Argélia, que havia conquistado sua independência do colonialismo francês em 1962, por sua vez, possui uma história de muito orgulho em relação ao futebol, que demonstra o potencial do esporte como força de identificação cultural e merece contrastar com o comportamento das seleções germânicas naquele episódio. 

Há uma ironia subversiva que vincula a independência da Argélia com o nascimento de seu futebol. Introduzido pelos colonizadores franceses na década de 1890, o futebol fazia parte do projeto colonial de educar os corpos dos colonizados em direção à cultura europeia: disciplina, etiqueta, obediência e crença na superioridade branca. Poucas décadas bastaram para que o jogo fosse apropriado pelos próprios argelinos, e o futebol começou a servir aos ativistas nacionalistas como espaço de organização, pertencimento e resistência, com a fundação de clubes de muçulmanos em oposição aos franceses.

Esse processo alcançou seu ponto mais emblemático em 1958, quando, durante a violentíssima Guerra de Independência entre Argélia e França (1954-62), 32 jogadores abandonaram clandestinamente seus clubes franceses às vésperas da Copa do Mundo para cruzar o Mediterrâneo e fundar a seleção da Frente de Libertação Nacional (FLN), um partido que uniu todas os grupos de luta anti-colonização com o objetivo de conquistar a independência. Nascida quatro anos antes do próprio Estado argelino, a equipe da FLN tornou-se o braço esportivo da luta pela independência: arrecadava recursos para a causa, levava a reivindicação argelina aos países que aceitavam enfrentá-la e representava internacionalmente uma nação que ainda não existia oficialmente. 

Em cada amistoso, os dirigentes da FLN exigiam que a bandeira argelina fosse hasteada e que o hino nacional fosse executado, transformando aquelas partidas nas primeiras grandes manifestações públicas da identidade nacional argelina. Atendendo às pressões da França, a FIFA ameaçou com sanções qualquer seleção filiada que aceitasse enfrentar os chamados “11 da Independência”, como ficaram conhecidos os jogadores argelinos. Ainda assim, durante quase quatro anos, disputaram cerca de 90 partidas, venceram 65 delas e conquistaram reconhecimento não apenas pela força simbólica de sua causa, mas também por um futebol talentoso, ofensivo e elegante. Essa trajetória só foi possível graças à solidariedade de seleções e clubes do Norte da África, do Vietnã, da China e de diversos países do bloco soviético, que desafiaram as pressões ocidentais para receber e enfrentar a equipe da FLN.

Fonte: Embaixada da Argélia no Vietnã. O Primeiro-Ministro Vietnamita cumprimenta os jogadores da FLN em 1958. Junto a um futebol bem jogado, a solidariedade anticolonial foi fundamental para o êxito dos “11 da Independência”

O excepcional filósofo e psiquiatra martinicano Frantz Fanon viveu na Argélia durante a Guerra de Independência e refletiu sobre o papel político do futebol. Para ele, o esporte possuía uma potência humanizadora justamente porque colocava frente a frente povos educados para acreditar em hierarquias raciais, coloniais e civilizatórias. No jogo, essas diferenças perdiam parte de seu sentido, à medida que adversários que se imaginavam superiores ou inferiores descobriam compartilhar uma condição comum, mediada pelas mesmas regras, pelo mesmo campo e pela mesma bola. O futebol podia expandir consciências e tornar visível uma igualdade humana que o colonialismo insistia em negar. A história da FLN ilustra o tamanho do pertencimento cultural que o futebol é capaz de gerar, com uma equipe antecipando o próprio reconhecimento político de um país.

No dia 27 de junho, Áustria e Argélia voltarão a se enfrentar. Como acontece em todos os Mundiais desde 1986, a partida será disputada no mesmo horário do outro confronto do grupo — uma regra criada pela FIFA justamente como resposta ao “Jogo da Vergonha” de 1982, para impedir que as seleções entrem em campo conhecendo o resultado de que precisam e possam manipular a partida.

Quarenta e quatro anos depois, a Argélia terá a oportunidade de, mais do que buscar uma revanche esportiva, escrever outro capítulo da história singular de uma seleção que nasceu antes do próprio país e transformou o futebol em instrumento de pertencimento, identidade nacional e luta por liberdade. O futebol costuma produzir heróis e vilões, mas raramente oferece um contraste tão evidente entre vergonha e dignidade quanto o construído em torno de Argélia e Áustria.



Por Midia Ninja

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