Por Grace Lima – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
A contabilidade histórica do futebol mundial enfrenta um momento de confronto estatístico. A iminente quebra de recordes na categoria masculina recoloca sob holofotes a invisibilidade intencional de atletas mulheres.
O atacante argentino Lionel Messi igualou a marca de 16 gols do alemão Miroslav Klose em Copas do Mundo. A ascensão do jogador reacendeu debates profundos sobre como os recordes absolutos são divulgados.

A grande imprensa celebra o avanço de Messi rumo ao topo da artilharia histórica. Contudo, manchetes frequentes omitem que o recorde geral não pertence a um homem. O uso do termo “maior artilheiro” sem o recorte de gênero esconde conquistas consolidadas pelas mulheres.
O verdadeiro topo do mundo
A soberania absoluta em gols marcados no maior torneio do planeta pertence a Marta Vieira da Silva. A camisa 10 da Seleção Brasileira balançou as redes 17 vezes em Copas do Mundo. Ela supera Klose, Ronaldo e, até o momento atual, o próprio astro argentino.

Marta também se consagrou como a pioneira a marcar em cinco edições diferentes do campeonato. Além disso, a rainha supera Pelé em gols com a camisa canarinho, somando mais de 117 gols oficiais pela Seleção.
Sua consistência atlética pavimentou o caminho para o reconhecimento do alto rendimento feminino. Mesmo assim, seus dados oficiais costumam ser isolados em uma subcategoria invisível.
A magnitude de sua carreira foi referendada internacionalmente pela ESPN, que a posicionou no topo do futebol. Em um ranking dos 100 maiores atletas do século 21, ela ficou na 32ª posição. O dado expõe uma distância abissal no reconhecimento global comparado a ídolos masculinos.
No mesmo levantamento da ESPN, o craque Ronaldo apareceu apenas na 87ª posição. Ronaldinho Gaúcho ocupou o 94º lugar, enquanto Neymar sequer foi listado entre os escolhidos. Marta veio do sertão para legitimar um esporte que lutava por espaço.
A ameaça do apagamento cultural
A possibilidade de Messi ultrapassar os 17 gols de Marta traz uma reflexão crítica necessária. Caso o argentino assuma a liderança, o ecossistema esportivo tende a unificar o discurso imediatamente. O atleta masculino passará a ser aclamado como o maior de todos de forma irrestrita.
A história do futebol não pode validar o topo absoluto apenas quando ele passa a ser ocupado por um homem. Essa assimetria revela o sexismo estrutural enraizado nos manuais esportivos e jornalísticos. Enquanto os 17 gols de Marta precisavam do rótulo “feminino” para existir, os futuros 18 de um homem serão universais. O fenômeno repete o que ocorreu com os recordes de longevidade de Formiga, única atleta com sete Copas no currículo.

Historiadores desportivos alertam para o risco de retrocesso na preservação da memória atlética. A precisão factual exige que o jornalismo não use o masculino neutro como sinônimo de totalidade. O topo de Marta deve ser defendido com o mesmo peso conferido aos ídolos masculinos.
A cobertura do esporte precisa evoluir na mesma velocidade que suas protagonistas em campo. Ignorar os números de Marta e Formiga deforma o real significado de excelência desportiva. O reconhecimento integral impede que o futebol continue apagando quem mais fez história nos gramados.
*Com informações de ESPN e FIFA
