A Copa das memórias: como diferentes gerações aprenderam a torcer pelo Brasil

Portal Inhaí
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Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube

A Copa do Mundo sempre ocupou um lugar especial na vida dos brasileiros. Durante décadas, o torneio foi capaz de interromper rotinas, reunir famílias, alterar horários de trabalho e transformar ruas inteiras em espaços de celebração. Mas as lembranças construídas em torno da Seleção não são as mesmas para quem acompanhou Pelé em 1970, chorou com a derrota de 1982, acordou de madrugada em 2002 ou descobriu o futebol pelas redes sociais.

Mas a forma de viver uma Copa mudou ao longo do tempo. Entre quem acompanhou os jogos pelo rádio, quem cresceu pintando as ruas de verde e amarelo e quem conheceu o torneio pelas redes sociais, existem diferenças que ajudam a explicar as transformações da relação entre os brasileiros e a Seleção Brasileira.

As memórias de quatro torcedores de diferentes idades revelam que, embora o futebol continue despertando emoções, o significado da Copa passou a ser vivido de maneiras bastante distintas.

Quando o bairro inteiro assistia junto

Foto: Getty Images

João Lopes tinha 16 anos quando o Brasil conquistou a Copa do Mundo de 1970. Hoje, aos 72 anos, ainda guarda lembranças detalhadas daquele período. Em uma época em que poucas famílias possuíam televisão, acompanhar os jogos da Seleção era uma experiência compartilhada.

Ele lembra que, no bairro onde morava, apenas uma pessoa possuía aparelho de TV. Durante as partidas, os moradores se reuniam em frente à casa para assistir juntos. “Ele abria a porta, a gente sentava e ficava vendo o jogo, tudo quietinho”, recorda.

A memória permanece tão viva que Lopes ainda consegue escalar de cabeça a equipe campeã do México. Para ele, a relação entre torcedores e Seleção era diferente porque os jogadores faziam parte do cotidiano do futebol brasileiro. Pelé, Jairzinho, Tostão ou Rivellino eram figuras que o público acompanhava regularmente nos clubes nacionais.

Ao comparar aquele período com os dias atuais, ele percebe um afastamento entre torcida e jogadores. Na sua visão, a saída cada vez mais precoce dos atletas para o exterior dificulta a construção desse vínculo. “Hoje o jogador sai muito novo do país. A torcida não acompanha a trajetória dele como acontecia antigamente”, afirma.

O país que respirava Copa do Mundo

Foto: Agência O Globo

Para Gilney Castro, professor de educação física de 56 anos, a lembrança mais marcante não está associada a uma conquista. O momento que ficou gravado em sua memória foi a eliminação para a Itália na Copa de 1982, considerada por muitos uma das melhores seleções brasileiras da história.

Gilney tinha 12 anos quando assistiu à partida e lembra da frustração provocada pelo resultado. “O Brasil tinha um grande time. Foi uma tristeza muito grande. Eu lembro exatamente onde eu estava assistindo”, conta.

Ao recordar aquele período, porém, o que mais chama sua atenção é o ambiente que cercava o torneio. Segundo ele, a Copa ocupava um espaço muito maior na vida cotidiana do país. “As escolas trabalhavam isso, as empresas, a cidade se vestia de verde e amarelo”, lembra. Para resumir aquele sentimento, utiliza uma expressão simples: “O Brasil respirava Copa do Mundo”.

Na sua avaliação, o interesse pelo futebol continua existindo, mas a intensidade da mobilização diminuiu ao longo das últimas décadas. “Hoje existe mobilização, claro. Mas não se compara com as décadas de 70, 80 e 90”, afirma.

Quando as ruas vestiam verde e amarelo

Foto: Reprodução/TV Globo

A educadora física Lígia Luque, de 35 anos, pertence a uma geração que viveu a transição entre o Brasil das ruas decoradas e o Brasil conectado pela internet. Sua primeira lembrança relacionada à Copa é o título de 1994, mas foi em 2002 que passou a acompanhar o torneio de forma mais consciente.

As memórias daquela campanha estão associadas aos encontros entre amigos, aos jogos disputados nas primeiras horas da manhã e às ruas tomadas pelas cores da Seleção. “Eu lembro da gente enfeitando as ruas, acordando cedo para assistir aos jogos e indo para a casa dos amigos dividir o café da manhã”, conta.

Para sua geração, a Copa ainda funcionava como um grande evento comunitário. Os bairros se transformavam, os horários mudavam e o futebol criava momentos de convivência coletiva. Ao mesmo tempo, Lígia acredita que a relação entre torcida e Seleção se tornou mais distante nos anos recentes.

Segundo ela, os jogadores já não despertam a mesma identificação observada em gerações anteriores. “Hoje a Seleção não representa quase nada. Principalmente porque não temos um jogador que defenda a seleção como antigamente”, avalia. Mesmo assim, continua acompanhando o Brasil durante os Mundiais. “Torço porque sou brasileira”, resume.

A Copa vista por outra geração

Foto: Supreme Committee for Delivery & Legacy (SC)

A experiência de Duda Loureiro, de 16 anos, mostra como uma nova geração passou a se relacionar com o futebol. Sua paixão pela Seleção nasceu durante a Copa do Mundo de 2022, realizada no Catar. Mas o que mais chamou sua atenção não foi necessariamente o jogo.

Para Duda, a paixão pelo futebol nasceu mais nas arquibancadas do que dentro de campo. “O que mais me encanta é a torcida”, afirma. Ao acompanhar a Copa do Catar, ela ficou impressionada ao ver pessoas de diferentes países reunidas para apoiar suas seleções. Na sua visão, o torneio representa muito mais do que futebol e se transforma em um encontro entre culturas, histórias e experiências compartilhadas.

Ao falar da Seleção Brasileira, Duda associa o time a sentimentos que vão além dos resultados. Ela admite que existe uma frustração por nunca ter visto o Brasil conquistar uma Copa do Mundo. “É frustrante para mim nunca ter visto isso”, diz ao lembrar das histórias que ouviu de pais e tios sobre os títulos do passado.

Mesmo assim, acredita que a Seleção continua exercendo uma função importante dentro do país. Para ela, “a Seleção representa o sonho de uma nação” e permanece como um dos poucos espaços capazes de unir pessoas de diferentes origens, opiniões políticas ou clubes.

O que mudou e o que permanece

Entre a Copa de 1970 e a de 2026 existe uma distância muito maior do que os anos sugerem. Mudaram as tecnologias, os meios de transmissão, os hábitos de consumo e até a forma como os torcedores conhecem seus jogadores. O rádio deu lugar à televisão, que passou a dividir espaço com celulares, plataformas digitais e redes sociais.

A própria Seleção também mudou. Os atletas passaram a construir suas carreiras longe do Brasil desde muito cedo, enquanto o futebol se tornou cada vez mais globalizado. Em consequência, a relação entre jogadores e torcedores deixou de ser construída principalmente dentro do futebol brasileiro.

Ainda assim, alguns elementos atravessam os relatos das quatro gerações. A expectativa antes dos jogos, as lembranças das grandes partidas e a capacidade de interromper a rotina nacional continuam aparecendo em diferentes momentos das entrevistas. Seja diante de uma televisão compartilhada por um bairro inteiro, em uma rua decorada para a Copa ou acompanhando vídeos pelo celular, o torneio continua produzindo memórias que permanecem por décadas.

As formas de torcer mudaram. Os contextos também. Mas, para quem viveu 1970, 1982, 2002 ou 2022, a Copa continua produzindo algo raro: histórias que permanecem vivas muito depois do apito final. Em diferentes épocas, por diferentes caminhos, o Mundial segue ocupando um lugar privilegiado na memória afetiva dos brasileiros.



Por Midia Ninja

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