Por Hugo Chaves – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Toda partida entre seleções nacionais é uma guerra que decidiu trocar as armas pela bola. Durante noventa minutos, culturas disputam território sem invadi-lo, demonstram força sem destruir e competem pelo mesmo objetivo, obedecendo às mesmas regras. Quando Brasil e Haiti, em agosto de 2004, disputaram o “Jogo da Paz” em Porto Príncipe, o Brasil desembarcou levando dois uniformes: o camuflado do Exército e o amarelo da Seleção. O conflito amistoso integrava uma missão militar da ONU liderada pelo Exército brasileiro, possivelmente o episódio mais explícito de uso do futebol pelo Brasil como instrumento de diplomacia.
O Brasil é um Estado-nação que não forjou sua identidade nacional a partir de feitos heroicos em guerras. “Ser brasileiro” foi uma ideia forjada a partir dos anos 1930 e teve na música e no futebol as principais fontes que irrigaram a cultura popular brasileira com elementos que pudessem ser considerados comuns a todos em um território continental. Com o pioneirismo do Brasil em gerar encanto global por meio de suas artes populares, os governos que conduziram o Estado-nação transformaram essas expressões em instrumentos diplomáticos, à medida que o futebol e a música permitiam contatos de solidariedade e pertencimento entre nações.
Em 2004, o que estava em jogo e no jogo, eram nações que se encontravam em momentos históricos muito distintos. O Brasil, recém-campeão do mundo no futebol e governado por Lula em seu primeiro mandato, era visto como uma liderança emergente do Sul Global, candidato a uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU e dono do futebol mais encantador do planeta, vindo de dois títulos e três finais nas últimas três edições da Copa do Mundo. Do outro lado, o Haiti, pioneiro na derrota da escravidão por meio de uma revolução popular no século XIX, iniciava o século XXI mergulhado em uma ruptura institucional após a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide, justamente no ano do bicentenário de sua independência.
Naquele cenário, a ONU escolheu o Brasil para liderar a MINUSTAH, uma operação de paz realizada entre 2004 e 2017, com o objetivo declarado de restaurar a segurança, fortalecer as instituições democráticas e apoiar a reconstrução do Estado haitiano. O governo brasileiro, além de oferecer ao Exército um desafio alinhado à posição geopolítica que o país desejava exercer no mundo, escolheu levar consigo seu ativo cultural mais poderoso: o futebol. Antes da bola rolar, brasileiros e haitianos posaram juntos para uma fotografia que sintetizava o discurso oficial da missão: solidariedade, união entre jogadores de uniformes distintos, paz e espetáculo. A partida também integrou uma campanha de desarmamento na qual armas poderiam ser entregues em troca de ingressos.

A MINUSTAH nasceu sob o discurso da estabilização, da reconstrução institucional e da proteção da democracia haitiana. O país caribenho vinha de dois séculos conturbados após liderar a Revolução Haitiana (1791–1804) e tornar-se a primeira república negra independente do mundo. Desde então, o Haiti enfrentou o isolamento internacional, o pagamento de uma indenização extorsiva à França, sucessivas intervenções estrangeiras, a ocupação norte-americana, a ditadura e uma longa sequência de golpes, crises institucionais e pobreza. Em 2004, após a deposição do presidente Jean-Bertrand Aristide, em um processo cuja participação internacional segue sendo objeto de debate entre pesquisadores e analistas, o país vivia um cenário de colapso político e violência armada que motivou a criação da MINUSTAH.
Para o governo Lula, liderar a missão significava demonstrar capacidade de mediação internacional e consolidar uma política externa que buscava ampliar a presença do país no cenário global. O futebol cumpria um papel importante nessa estratégia por meio de seu poder cultural: se os blindados ocupavam as ruas, a Seleção ocupava o imaginário popular na tentativa de demonstrar que o país responsável pela missão militar também era uma nação associada internacionalmente ao futebol, à cultura e ao entretenimento.
Mas a contradição permanecia evidente. Enquanto Ronaldinho Gaúcho distribuía dribles e sorrisos, tropas brasileiras patrulhavam bairros periféricos de Porto Príncipe. Nos anos seguintes, operações em áreas como Cité Soleil, uma das maiores e mais densamente povoadas comunidades do Haiti, geraram denúncias de mortes de civis e violações de direitos humanos. Muitos pesquisadores enxergam uma relação entre experiências de ocupação urbana desenvolvidas durante a missão no Haiti e políticas de segurança implementadas posteriormente nas Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), no Rio de Janeiro. A “pacificação” tornou-se um conceito presente em ambos os contextos, aproximando práticas militares e estratégias de policiamento urbano, embora seus resultados continuem sendo objeto de debate entre especialistas.

Se o amistoso de 2004 prometia inaugurar um novo tempo, a cronologia da missão revela uma realidade muito mais ambígua. Houve conquistas institucionais importantes, especialmente a realização das eleições que levaram René Préval à presidência, em 2006, e um período inicial de redução da violência em algumas regiões. Mas esses resultados mostraram-se profundamente dependentes da presença internacional.
O terremoto de 2010 destruiu parte significativa da infraestrutura haitiana, matou centenas de milhares de pessoas e obrigou a MINUSTAH a deslocar seus esforços para ações humanitárias. Pouco depois, uma epidemia de cólera, associada ao despejo irregular de esgoto por integrantes das forças de paz da ONU vindos do Nepal, agravou ainda mais a tragédia nacional. Nos anos seguintes, vieram novas denúncias de abusos, exploração sexual e incapacidade de consolidar instituições autônomas. A missão foi encerrada em 2017, e o Haiti voltou a mergulhar na instabilidade, culminando no assassinato presidencial de 2021 e no atual cenário de colapso institucional.
A história do futebol haitiano também ajuda a compreender por que aquele amistoso mobilizou tanto a população local. Em 1974, quando o Haiti disputou sua primeira e única Copa do Mundo, o país vivia sob a ditadura de Jean-Claude “Baby Doc” Duvalier, herdeiro do regime instaurado por seu pai, François “Papa Doc” Duvalier. A classificação tornou-se um instrumento de propaganda política, enquanto os jogadores conviviam com pressões, vigilância e relatos de intimidação.
Na primeira rodada, aquela geração entrou para a história ao encerrar a invencibilidade do goleiro italiano Dino Zoff em Copas do Mundo. Em uma partida dura contra a Itália, vice-campeã mundial quatro anos antes, os haitianos marcaram um gol histórico, embora tenham sido derrotados por 3 a 1. Porém, logo após a partida, o zagueiro Ernst Jean-Joseph tornou-se o primeiro atleta da história das Copas do Mundo suspenso por doping, após testar positivo para um estimulante que, segundo relatos, era utilizado no tratamento de asma.
O jogador foi retirado da concentração por ordem de Baby Doc e enviado de volta ao Haiti, onde foi preso, espancado e torturado por integrantes do regime. Posteriormente, permaneceu detido por quase dois anos. É difícil imaginar que esse episódio não tenha afetado o desempenho da equipe nos jogos seguintes, quando o Haiti sofreu derrotas por 7 a 0 para a Polônia, terceira colocada daquele Mundial, e por 4 a 1 para a Argentina.

Trinta anos depois, o Jogo da Paz recolocava o futebol no centro da narrativa nacional, como uma promessa de solidariedade internacional capitaneada pela ONU e pelo pentacampeão Brasil. Em campo, aos 32 minutos, Ronaldinho Gaúcho marcou um golaço antológico, iniciando uma atuação que terminaria com um hat-trick. Era, talvez, a expressão máxima da contradição do “joga bonito” do século XXI: a beleza televisionada da bola contrastando com os veículos militares estacionados do lado de fora do estádio.
Passadas mais de duas décadas, o Haiti retorna à Copa do Mundo não porque a paz tenha sido definitivamente construída, mas porque o futebol permaneceu como um dos poucos espaços capazes de produzir pertencimento nacional em meio às sucessivas crises.
É esse percurso que transforma o reencontro entre Brasil e Haiti, nesta sexta-feira, 19 de junho de 2026, em muito mais do que um jogo da fase de grupos. Em 2004, o Brasil chegou como potência emergente, campeão mundial e capaz de mobilizar afetos muito além de suas fronteiras. Em 2026, continua sendo uma referência do futebol mundial, mas já não ocupa o mesmo lugar na geopolítica internacional nem desfruta do mesmo entusiasmo em relação à sua capacidade de gerar encantamento cultural por meio do futebol.
O Haiti, por sua vez, retorna ao maior palco do futebol enquanto ainda enfrenta uma profunda crise política e humanitária, talvez ainda mais grave do que as vividas em décadas anteriores. Se, há vinte e dois anos, a fotografia conjunta entre brasileiros e haitianos simbolizava uma aposta na paz conduzida pela beleza do jogo e pela autoridade dos blindados, hoje ela sobrevive como a imagem de sonhos que permanecem incompletos, a paz e a potência do futebol como mecanismos de diplomacia e solidariedade internacional.
Dois times perfilados, dois países sorrindo para a mesma câmera e acreditando, ainda que por noventa minutos, que uma bola pudesse fazer aquilo que os fuzis jamais conseguiram.
