Por Manoel Costa – Cobertura Colaborativa Ninja Esporte Clube
Durante mais de um século, o futebol se diferenciou de outros grandes esportes por uma característica simples: a continuidade. Enquanto modalidades como futebol americano, basquete e beisebol construíram parte de seu modelo de negócios sobre interrupções frequentes, o futebol preservou uma lógica relativamente estável. Dois tempos de 45 minutos, um intervalo e poucas pausas capazes de interromper o fluxo da partida. A Copa do Mundo de 2026, porém, pode marcar uma mudança importante nessa tradição.
Pela primeira vez na história do torneio, todos os jogos terão pausas obrigatórias para hidratação. A medida foi anunciada pela FIFA como resposta aos desafios climáticos que jogadores, árbitros e trabalhadores enfrentam durante o verão dos Estados Unidos, México e Canadá. A justificativa encontra respaldo em uma série de estudos científicos publicados nos últimos anos, mas a decisão também levanta uma questão incômoda: a mudança foi pensada apenas para proteger atletas ou também atende aos interesses comerciais do maior evento esportivo do planeta?
O calor é real

Antes de qualquer discussão sobre publicidade ou transmissão, é importante reconhecer que o problema climático existe.
Pesquisas que analisaram as condições previstas para a Copa de 2026 apontam que 14 das 16 cidades-sede podem registrar índices elevados de estresse térmico durante o torneio. Em locais como Houston, Miami e Monterrey, especialistas estimam que os índices WBGT — parâmetro internacional utilizado para medir riscos relacionados ao calor — podem frequentemente alcançar níveis considerados preocupantes para atividades físicas de alta intensidade.
Os riscos são conhecidos pela medicina esportiva: desidratação, queda no desempenho físico, redução da capacidade cognitiva e doenças relacionadas ao calor estão entre as principais preocupações. Não por acaso, sindicatos de atletas como a FIFPRO vêm pressionando a FIFA há anos para endurecer os protocolos de proteção contra o calor. A entidade defende pausas mais frequentes, limites mais rígidos para a realização de partidas e até o adiamento de jogos quando os índices de estresse térmico ultrapassam patamares considerados seguros pela medicina esportiva.
A própria FIFA já adotou medidas semelhantes em situações extremas. Até agora, as chamadas cooling breaks eram autorizadas quando os índices de calor atingiam patamares considerados críticos. A pausa deixava de ser uma escolha do árbitro e passava a ser obrigatória, e a mudança para 2026 está justamente nesse ponto.
As interrupções não dependem mais das condições climáticas da partida. Elas acontecem em todos os jogos do Mundial, inclusive em cidades onde o calor não representa o mesmo risco observado nas regiões mais quentes da América do Norte.
Na prática, uma partida disputada sob temperaturas elevadas em Miami receberá exatamente o mesmo protocolo de outra realizada em Vancouver ou Seattle, que possuem temperaturas mais amenas.
Do ponto de vista médico, a decisão simplifica a operação e elimina dúvidas sobre critérios de aplicação. Do ponto de vista comercial, porém, ela produz outro efeito: transforma as pausas em parte permanente da transmissão.
Uma Copa cada vez mais valiosa

A decisão acontece justamente no momento em que a Copa do Mundo se torna maior e mais lucrativa. Pela primeira vez, o torneio contará com 48 seleções e 104 partidas. O aumento representa um salto significativo em relação aos 64 jogos disputados nas últimas edições e amplia a presença global da competição.
Ao mesmo tempo, a FIFA projeta arrecadar mais de US$ 13 bilhões durante o ciclo 2023-2026. Segundo documentos oficiais da entidade, cerca de US$ 3,9 bilhões devem vir apenas dos direitos de transmissão, que continuam sendo a principal fonte individual de receita do futebol mundial. Nesse contexto, o tempo se transforma em ativo econômico.
Com duas pausas obrigatórias por partida, a Copa de 2026 cria 208 novas interrupções distribuídas ao longo do torneio. Considerando os três minutos previstos para cada parada, são aproximadamente 624 minutos adicionais de transmissão fora da dinâmica normal do jogo. Na prática, são mais de dez horas adicionais de conteúdo ao vivo distribuídas ao longo do torneio, todas elas previsíveis e potencialmente comercializáveis.
Para emissoras, patrocinadores e plataformas digitais, trata-se de uma oportunidade valiosa. Diferentemente dos acréscimos ou das paralisações ocasionais, essas interrupções são garantidas. Os horários são conhecidos de antemão, o que amplia as possibilidades de venda de publicidade e ações comerciais durante a transmissão.
Analistas da consultoria Caretta Research observam que a expansão da Copa para 104 partidas reduz o valor médio dos direitos de transmissão por jogo, aumentando a importância de novas propriedades comerciais para emissoras e patrocinadores. Nesse contexto, pausas previstas ao longo das transmissões também ampliam as oportunidades de inserção publicitária e ações de marca.
Não se trata apenas de vender anúncios tradicionais. As pausas podem ser transformadas em conteúdos patrocinados, ações de marca, campanhas digitais, ativações em segunda tela e integrações comerciais voltadas para plataformas de streaming.
O futebol sempre movimentou grandes cifras. A diferença é que agora a monetização avança para dentro dos próprios 90 minutos.
Quem controla o tempo do futebol?

O debate já chegou ao centro do futebol profissional. Em entrevista à emissora alemã ZDF durante a Copa do Mundo de 2026, o ex-técnico do Liverpool e atual dirigente da Red Bull, Jürgen Klopp, criticou a adoção das pausas obrigatórias para hidratação e afirmou que o futebol estaria se tornando “refém de executivos instalados em escritórios com ar-condicionado”. Dias depois, após a vitória da Holanda sobre o Japão, o capitão holandês Virgil van Dijk também questionou as interrupções ao falar com jornalistas na zona mista após a partida contra o Japão. “Sempre interromper o jogo para fazer publicidade é algo que não gosto”, afirmou o zagueiro ao comentar os efeitos das paradas sobre o ritmo do jogo.
As declarações ajudam a ilustrar uma discussão que vai além do calor e da preparação física: quem está definindo o tempo do futebol contemporâneo?
A discussão ganha força justamente porque não acontece de forma isolada. Nos últimos anos, o futebol passou por uma série de mudanças impulsionadas pela expansão de mercados, audiências e receitas. A Copa de 2026 terá mais seleções. O Mundial de Clubes foi ampliado. As Datas FIFA ocupam cada vez mais espaço no calendário. Novas competições surgiram em diferentes continentes. A quantidade de jogos nunca foi tão grande.
Ao mesmo tempo, a experiência de assistir futebol também mudou. O esporte disputa atenção em um ambiente dominado por plataformas digitais, redes sociais e serviços de streaming. Em vez de competir apenas com outros canais de televisão, agora disputa espaço com vídeos curtos, aplicativos e múltiplas telas. Nesse cenário, cada minuto de transmissão ganhou valor.
Não é coincidência que essa discussão aconteça justamente em uma Copa sediada majoritariamente nos Estados Unidos, onde ligas como a National Football League (NFL), do futebol americano, a National Basketball Association (NBA), do basquete, e a Major League Baseball (MLB), do beisebol, estruturam boa parte de seu modelo econômico em torno de interrupções regulares capazes de acomodar publicidade e ações comerciais. Na NFL, por exemplo, existem intervalos específicos destinados às transmissões televisivas, enquanto NBA e MLB também operam com pausas regulares incorporadas à lógica comercial das partidas.

O fim da continuidade?
O futebol sempre ocupou uma posição diferente. Parte de sua identidade foi construída justamente na fluidez do jogo, na ideia de que o relógio corre continuamente e de que a partida pertence mais ao campo do que à transmissão. As pausas obrigatórias não transformam imediatamente o futebol em um esporte americano, mas representam uma aproximação inédita entre essas duas lógicas.
A própria história das Copas mostra que o torneio sempre se adaptou a interesses econômicos e logísticos. Em 1994, nos Estados Unidos, horários de partidas foram ajustados para atender mercados televisivos internacionais. Em 2022, no Catar, o calendário global do futebol foi reorganizado para acomodar as condições climáticas do país-sede. Agora, em 2026, a adaptação acontece dentro do próprio jogo. Por isso, talvez a questão central não seja escolher entre saúde e dinheiro.
Os estudos mostram que o calor previsto para a Copa é um problema real. As medidas de proteção aos atletas possuem justificativas técnicas legítimas. Ao mesmo tempo, é impossível ignorar que a solução escolhida também amplia as possibilidades comerciais de um evento que movimenta bilhões de dólares. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.
A Copa de 2026 talvez seja lembrada como o Mundial que precisou se adaptar aos efeitos das mudanças climáticas. Mas também pode entrar para a história como a competição que consolidou uma nova forma de administrar o tempo do futebol.
A pergunta que permanece aberta é simples: as pausas obrigatórias foram criadas para proteger os jogadores e acabaram beneficiando o mercado, ou foram a oportunidade perfeita para fazer as duas coisas ao mesmo tempo? A resposta talvez diga muito sobre o futuro do esporte mais popular do planeta — e sobre quem terá o poder de decidir como ele será jogado.
